Pouco mais de três anos separam os rompimentos de barragens nas cidades mineiras de Mariana e Brumadinho. Os dois incidentes trouxeram o triste saldo de 289 mortos. E um rastro de graves danos ambientais, como o mar de lama que percorreu mais de 650 quilômetros até chegar ao litoral do Espírito Santo, no primeiro desastre.

Um nome, no entanto, une as duas catástrofes. Com uma fatia de 50% na Samarco, responsável pela estrutura em Mariana, a Vale se viu definitivamente na berlinda quando sua barragem em Brumadinho rompeu no dia 25 de janeiro de 2019.

O esperado calvário da mineradora parece, no entanto, ter durado pouco. Ao menos sob o olhar dos investidores. Nesta quinta-feira, 16 de janeiro, a Vale recuperou – e superou – o valor de mercado anterior à tragédia em Brumadinho. A “marca”, que já vinha sendo ensaiada desde o início da semana, veio a poucos dias de se completar o primeiro ano do fatídico episódio.

A companhia fechou o pregão de 16 de janeiro com um valor de mercado de R$ 291,5 bilhões. Na véspera de Brumadinho, essa cifra era de R$ 287,8 bilhões. No pregão seguinte ao incidente, a mineradora perdeu mais de R$ 72 bilhões. E chegou ao seu patamar mínimo em 7 de fevereiro de 2019, quando foi avaliada em R$ 213,2 bilhões, segundo a consultoria de informações financeiras Economatica.

Com a recuperação, a Vale repetiu o roteiro cumprido após o desastre de Mariana, ocorrido em 5 de novembro de 2015. Um dia antes, a empresa estava avaliada em R$ 83,1 bilhões. Na época, esse caminho foi ainda mais curto. Em 12 de abril de 2016, a companhia alcançou um valor de mercado de R$ 87,6 bilhões.

Nesse contexto, uma pergunta é inevitável: por que o mercado não pune a Vale? “No fim do dia, dando lucro, o mercado paga e aceita”, diz Luiz Marcatti, sócio e CEO da consultoria Mesa Corporate. “Para o investidor, o que importa ainda é o resultado. E não a maneira como você o constrói.”

Para Marcatti, essa visão vai na contramão do compromisso ambiental, social e de governança que vem sendo propagado no mundo. Ele cita como uma referência desse movimento Larry Fink, CEO da BlackRock, maior gestora de fundos do mundo, com mais de US$ 7 trilhões em ativos sob administração.

Tragédia de Brumadinho completará um ano em 25 de janeiro

Desde 2012, Fink envia uma carta aos CEOs das empresas investidas da BlackRock. Neste ano, sob o título “Uma reformulação fundamental das finanças”, o executivo voltou a defender a necessidade de incorporar a sustentabilidade à estratégia de negócios. E enfatizou: “Risco climático é risco de investimento.”

Professora da ESPM e pesquisadora em gestão de crise e reputação, Rosângela Flockzak destaca o descompasso na adoção dessa mentalidade no mercado brasileiro. “Existem alguns fundos locais querendo colocar essas questões como critério de investimento, mas são poucas iniciativas”, afirma. “É uma questão cultural. Ainda somos muito tolerantes e prestamos muita atenção apenas no desempenho financeiro.”

De olho nos indicadores

Sob a ótica fria dos números e dos negócios, uma série de fatores parece sustentar a boa vontade do mercado de capitais. Alguns deles se referem ao entorno da Vale, como a assinatura da primeira etapa do acordo comercial entre Estados Unidos e China.

O mercado chinês é o maior importador do minério de ferro. A perspectiva de manutenção na elevação nos preços da commodity, que desde janeiro de 2019 acumulam uma alta de mais de 30%, também contribui para essa visão positiva.

Alguns indicadores da própria Vale reforçam esse cenário otimista. Depois de reportar dois prejuízos trimestrais no primeiro semestre de 2019, a empresa voltou ao lucro no terceiro trimestre, com um ganho de R$ 6,5 bilhões, alta de 13,7% sobre igual período, um ano antes.

Pouco a pouco, a empresa também começa a retomar sua produção, que foi afetada com a suspensão nas atividades de algumas unidades. Entre julho e setembro, a mineradora reportou um crescimento de 35,4% na produção de minério de ferro, em comparação com o segundo trimestre, para 86,7 milhões de toneladas.

Em dezembro, durante eventos direcionados a investidores realizados em Nova York e Londres, a empresa estabeleceu a projeção de retomar os níveis de 2018, quando produziu 385 milhões de toneladas. A expectativa é alcançar esse patamar em 2021, com um volume entre 375 milhões de toneladas e 395 milhões de toneladas. Para 2020, a previsão gira na faixa de 340 milhões de toneladas a 355 milhões de toneladas.

Um relatório do Bradesco BBI divulgado nesta semana destacou essas boas perspectivas. No texto, os analistas Thiago Lofiego e Isabella Vasconcellos afirmam que a Vale é uma “subestimada máquina de fazer dinheiro em modo de diminuição de riscos”. E recomendaram a compra das ações, com um preço-alvo de R$ 87. Atualmente, os papéis estão sendo negociados na faixa de R$ 55.

Já o Credit Suisse afirmou sua impressão positiva sobre a empresa em relatório divulgado em dezembro. Entre outros pontos, foram destacadas as estimativas de redução de custos e o esforço da Vale “para manter uma alocação disciplinada de capital”. Além do fato de a companhia ter reforçado a sua política de transparência, ao mostrar que “está tomando medidas concretas para aumentar seus padrões de governança”, bem como para diminuir os riscos de segurança em suas unidades.

Iniciativas

Procurada, a Vale não retornou ao pedido de entrevista do NeoFeed. A empresa tem, de fato, divulgado, uma série de ações referentes à tragédia de Brumadinho, além de iniciativas para aprimorar suas operações.

“Nós estamos comprometidos em tornar a empresa muito mais segura e confiável. Pessoas, segurança e reparação são as palavras que estão guiando o mapa de ações para redução de riscos da Vale”, afirmou Eduardo Bartolomeo, CEO da companhia, durante o evento destinado a investidores, no exterior. No cargo desde o início de março de 2019, o executivo substituiu o então diretor-presidente Fabio Schvartsman.

Eduardo Bartolomeo, presidente da Vale

Sob essa abordagem, a companhia criou quatro comitês executivos para análises de riscos e uma diretoria de Segurança e Excelência Operacional, que se reporta diretamente a Bartolomeo. O plano passa também pela descaracterização de 9 barragens construídas com os mesmos métodos da unidade de Brumadinho. A primeira delas foi barragem 8B, em Nova Lima (MG).

Em outubro, durante a divulgação dos resultados do terceiro trimestre, a mineradora informou que já havia destinado cerca de R$ 2,25 bilhões em compensações por danos materiais e morais, individuais e coletivos. O montante inclui indenizações emergenciais para aproximadamente 108 mil pessoas, indenizações trabalhistas relativas a 232 vítimas, recursos para recuperação ambiental e auditorias, entre outros acordos.

A estimativa é de que essas vertentes tenham recebido R$ 6,55 bilhões em 2019. A cifra, no entanto, é alvo de questionamentos. “É difícil entender, especialmente quando a empresa já mostrou que está reservando um valor superior para uma futura distribuição de lucro aos acionistas”, diz Marcatti.

Apesar da manutenção da política de suspender a remuneração de acionistas, em dezembro, o Conselho de Administração da Vale se reuniu para deliberar sobre os R$ 7,25 bilhões a serem distribuídos na forma de juros sobre capital próprio, com base no ano de 2019.

Riscos e desafios

À parte da tendência de recuperação, há uma série de fatores de atenção para que esse movimento seja concretizado. “Até aqui, o que sustenta esse cenário é uma perspectiva estritamente econômica”, diz Rosângela. “Mas a Vale ainda tem denúncias, investigações, processos e multas nesse caminho.”

O percurso à frente é, de fato, acidentado. Ele inclui, por exemplo, cinco CPIs. As comissões estão instaladas na Câmara Federal, no Senado, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais e nas Câmaras de Vereadores de Belo Horizonte e de Brumadinho.

Já o Ministério Público de Minas Gerais ajuizou quatro ações relativas ao desastre de Brumadinho. Outras 17 barragens da companhia no estado são alvo do órgão, que abriu ainda cinco inquéritos para investigar questões como danos ambientais e apuração da responsabilidade pela tragédia.

No início de novembro, um relatório da Agência Nacional de Mineração (ANM) concluiu que algumas informações fornecidas pela Vale até o rompimento da barragem não condiziam com os dados contidos nos documentos internos da companhia.

De acordo com a ANM, se essas informações tivessem sido passadas corretamente, a agência teria tido tempo para tomar medidas e cobrar ações que poderiam ter evitado a tragédia.

Os desafios não estão restritos a esse caso. Segundo a agência Reuters, o Ministério Público Federal ameaça pedir à Justiça a retomada de uma ação no valor de R$ 155 bilhões contra a Samarco e suas sócias, Vale e BHP. O órgão alega que as empresas não cumpriram acordos cujos prazos já haviam sido estendidos e que envolviam o auxílio a pessoas impactadas pelo desastre de Mariana, que se refletiu em outros 40 municípios.

“A empresa vai se beneficiar da lentidão das punições no País”, afirma Marcatti. “E os grandes investidores não estão preocupados porque sabem desse jogo de recursos e liminares que permite que se postergue tudo.”

Rosângela chama a atenção, no entanto, para um risco nesse cenário. “À medida que esses processos se estendem, a reputação vai se esfacelando”, diz, citando como referência casos como o da americana Boeing, também envolta em uma grande crise originada em duas grandes tragédias. “E, à parte da visão imediata de valor de mercado, no longo prazo, a empresa corre o risco de que essa recuperação não se sustente.”

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