No centro de uma série de acordos e consolidações nos últimos anos, o mercado brasileiro de saúde voltou a ser palco de mais uma movimentação relevante na manhã de sexta-feira, 27 de fevereiro. E, mais uma vez, envolvendo um grande grupo ligado ao setor.

Em fato relevante divulgado, o Bradesco anunciou a criação da Bradsaúde, operação que será listada no Novo Mercado da B3 e que reunirá diversos ativos do grupo no segmento. Entre eles, Bradesco Saúde, Odontoprev, Atlântica Hospitais e Participações e Mediservice. O Citi foi o assessor financeiro do deal.

“Esse é um movimento transformacional dentro do Bradesco”, disse Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente dos conselhos de administração do Bradesco e da Odontoprev, em conversa com jornalistas.

“Estamos criando um ecossistema completo, com marcas líderes no mercado de saúde. Então, essa construção faz com que, nesse momento, nasça uma empresa de capital aberto, com balanço sólido, uma escala relevante e um potencial de crescimento extremamente robusto”, complementou.

Alguns indicadores traduzem o resultado dessa consolidação. A nova empresa nasce com uma receita de R$ 52 bilhões, um lucro de R$ 3,6 bilhões, um retorno sobre patrimônio líquido de 24%, mais de 13 milhões de beneficiários, cerca de 3,6 mil leitos de hospitais e 35 clínicas.

Esses números cobrem um amplo escopo do setor de saúde, com a nova companhia reunindo uma operadora de saúde e odontológica, hospitais, clínicas de atenção primária e oncológicas, serviços de saúde, uma healthtech e investimentos em laboratórios e centros de diagnóstico.

Nessa última frente, o portfólio envolve a participação acionária de 25% detida pelo grupo Bradesco Seguros no Grupo Fleury, um dos principais players no mercado brasileiro de laboratórios e diagnósticos.

Já no campo dos hospitais, a Atlântica Hospitais detém participações em unidades instaladas ou em construção em mercados como São Paulo, Rio de Janeiro, Ribeirão Preto, Campinas, Barueri e na região Centro-Oeste, por meio de parcerias com players como Rede D’Or, Einstein, Mater Dei e Grupo Santa.

Além das empresas e segmentos já citados, o ecossistema do grupo incluirá negócios como a Orizon, companhia de tecnologia focada em operações do setor e baseada em recursos como inteligência de dados e automação.

Outro ativo será a Meu Doutor Novamed, rede de clínicas de atenção primária criada há cerca de dez anos e com mais de 3 milhões de atendimentos no currículo. Fruto de uma joint venture entre a Atlântica, o Fleury e a Beneficência Portuguesa, a Croma Oncologia é mais um exemplo nesse pacote.

“Esse é um projeto que não nasceu ontem. Não à toa, o banco vem fazendo investimentos importantes no setor nos últimos anos”, afirmou Marcelo Noronha, CEO do Bradesco. “O propósito aqui, de fato, é destravar valor. Estamos falando de um negócio cujo valuation pode estar próximo de R$ 50 bilhões.”

Na busca por dar mais visibilidade a esses negócios e como parte dessa consolidação, o Bradesco anunciou uma reorganização societária para reunir todos os ativos da Bradsaúde sob o guarda-chuva da Odontoprev, operação controlada pelo banco e que já era listada em bolsa.

Com essa operação, baseada em uma relação de troca de ações, o Bradesco passará a deter uma fatia de 91,35% do capital total e votante da nova empresa, enquanto os acionistas minoritários da Odontoprev terão uma fatia de 8,65%.

A partir desse índice de free float, a operação prevê a realização de um follow on para adequar a nova empresa à regra do Novo Mercado da B3, que exige, em geral, um percentual mínimo de ações em livre circulação de 20% do capital social total.

Ao mesmo tempo, as etapas para a formalização do negócio incluem ainda as aprovações em assembleias gerais do Bradesco e da Odontoprev, além do sinal verde junto à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

“Essa estratégia que criamos foi uma oportunidade de vencermos etapas”, afirmou Trabuco, sobre o modelo adotado, na prática, um IPO reverso. “Isso nos dá a possibilidade de, obtidas todas as autorizações, listar a companhia em praticamente 60 dias.”

Estrutura

Cumpridos esses ritos, a Bradsaúde será comandada por Carlos Marinelli, que atuará como CEO da nova operação. Com um currículo que inclui, entre outras passagens, a presidência do Grupo Fleury, o executivo está há cinco anos no Bradesco, onde liderava a Bradesco Saúde.

“Estamos endereçando um mercado que movimenta mais de R$ 435 bilhões no Brasil”, afirmou Marinelli. “E com uma empresa que já nasce listada, gerando visibilidade, precificação adequada e acesso ao mercado de capitais para novos investimentos e desenvolvimentos dos ativos.”

Além de Marinelli, o alto escalão da companhia contará com Vinicius Cruz, como CFO, e Elsen Carvalho, que será o head da área odontológica da Bradsaúde e que, desde 2017, era o diretor-presidente da Odontoprev.

Carvalho recorreu a alguns dados do mercado total no Brasil para reforçar o que está no horizonte da nova empresa. Em especial, o volume de 53 milhões de beneficiários de planos de saúde médico-hospitalares e a base de 35 milhões de planos odontológicos.

“Uma proposta de saúde completa deveria combinar assistência médica e dental”, afirmou Carvalho. “Então, só nessa relação temos um gap para fechar, de 18 milhões de beneficiários, o que dá uma ideia do potencial que temos pela frente.”

Até que todas as etapas da transação sejam concluídas, os times envolvidos seguirão atuando de forma independente. Mas, de olho em ocupar esses espaços, o grupo já prevê algumas das estratégias que serão colocadas em execução a partir do sinal verde para a operação.

Um dos focos ressaltados será justamente expandir o acesso dos beneficiários às ofertas embutidas nesse ecossistema. Atualmente, por exemplo, os planos de saúde do Bradesco ainda são mais restritos a uma camada de clientes com maior poder aquisitivo.

“Esse ecossistema cobre todo o setor, da atenção primária aos dados da Orizon e à participação no Fleury”, disse Marinelli. “Tudo isso faz com que essa operação traga uma saúde mais eficiente e de maior resolubilidade, o que vai permitir que nós ampliemos esse acesso.”

O executivo ressaltou alguns passos que a própria Bradesco Saúde já vinha dando nessa direção. Entre eles, o lançamento de planos de saúde regionais, mais acessíveis, em praças como Goiânia, Distrito Federal, São Paulo e Porto Alegre.

“Hoje, nós já temos uma parceria grande com a Odontoprev, distribuindo produtos deles”, afirmou Marinelli. “E, uma vez juntos, logicamente vamos trabalhar a maneira que jogamos esse jogo para trazer ofertas diferenciadas ao mercado.”

Os executivos também destacaram que um outro perfil que ganhará ainda mais relevância nessa estratégia a partir da formalização desse ecossistema será o segmento de pequenas e médias empresas. Um exemplo citado foi a trajetória recente da Odontoprev.

“A Odontoprev sempre foi muito focada no segmento empresarial. Mas, nos últimos anos, temos diversificado a base de clientes e a receita. E as protagonistas disso têm sido as PMEs”, disse Carvalho. “Então, há um tema em comum na estratégia de crescimento do banco e das áreas de saúde e de odonto.”

Em uma última frente, os executivos à frente da operação também destacaram o provável apetite da Bradsaúde pelo crescimento inorgânico. “Toda nova oportunidade para esse ecossistema gerar mais valor para os beneficiários será alvo do nosso interesse e avaliação”, disse Marinelli.

Verticalização

Enquanto o Bradesco traça esses planos, o anúncio de hoje do banco reforça as tendências de verticalização e da criação de ecossistemas de saúde, um movimento que já vem ditando as estratégias e investimentos de outros players há alguns anos no mercado brasileiro.

Um dos grandes acordos nesse contexto foi anunciado há exatos cinco anos e concluído em fevereiro de 2022: a fusão entre a Hapvida, operadora de planos de saúde que já vinha investindo em segmentos como hospitais, e do grupo NotreDame Intermédica.

Outra transação que reuniu negócios em diferentes segmentos da saúde veio em fevereiro de 2022, quando a Rede D’Or anunciou a aquisição da SulAmérica, em uma operação avaliada, na época, em R$ 15 bilhões. Até então, a rede detinha uma fatia na Qualicorp.

A tendência também inclui empresas que investiram nessa tese que, posteriormente, recuaram nessas ambições. Caso, por exemplo, da Dasa, que, entre 2019 e 2022, fechou mais de 30 aquisições para ir além do seu negócio de origem – a medicina diagnóstica.

Esses e outros acordos chegaram a levantar questionamentos sobre qual seria a resposta do Bradesco. O grupo ressaltou, porém, que essa estratégia já vinha sendo consolidada, passo a passo, internamente. E que o anúncio da Bradsaúde só traz mais visibilidade a essas iniciativas.

“Já atuamos nesse mercado das mais diferentes formas há quatro décadas e fizemos progressos nesse campo”, disse Ivan Gontijo, presidente do grupo Bradesco Seguros. “Então, na realidade, não é uma empresa nova, não é uma atuação de momento, e sim, algo que vem se tornando perene no tempo.”

Para Bruno Autran, sócio-fundador da AJA Seg, além de criar um negócio de bilhões em receita, a Bradsaúde vai gerar grande economia de escala, além de reorganizar e criar uma estrutura tributária mais inteligente, posicionando a operação no mesmo patamar de Rede D’Or/SulAmérica e Hapvida.

"Além disso, a Odontoprev já é listada na B3. Em vez de fazer um IPO tradicional da Bradsaúde, um processo longo, caro, sujeito à janela de mercado, o Bradesco está injetando os ativos de saúde dentro da Odontoprev já listada e renomeando para Bradsaúde”, diz Autran, que complementa:

“A empresa já tem governança de Novo Mercado, já tem base de acionistas, já tem liquidez. Dessa forma, cria-se uma holding de saúde com float público gerando uma moeda de aquisição”.