As últimas 24 horas marcaram o início de uma virada na crise da Oncoclínicas. O contrato de exclusividade para um M&A com Porto e Fleury foi encerrado e o processo de recuperação extrajudicial foi encaminhado para o Judiciário.
O NeoFeed apurou que a companhia ingressou, no fim da manhã de terça-feira, 14 de abril, com um pedido de tutela cautelar na terceira vara de São Paulo. A análise está com a juíza substituta Fernanda Perez Jacomini.
A movimentação ocorre na esteira da chegada do BR Partners como único assessor financeiro, que assumiu o trabalho que vinha sendo tocado pelo Rothschild.
Pessoas próximas à Oncoclínicas disseram ao NeoFeed que o impasse no M&A envolveu desde o nível de compromisso financeiro até o grau de acesso às informações da companhia, um ponto sensível em um setor cada vez mais competitivo e verticalizado.
A percepção é que houve desalinhamento entre o que a Oncoclínicas precisava - capital novo relevante - e o que estava sendo oferecido, em termos considerados insuficientes ou condicionados.
Sem uma proposta firme, a companhia optou por não estender negociações que poderiam, além de não resolver o problema de liquidez, expor ainda mais sua operação.
“É complicado ter exclusividade e pedir tempo infinito de avaliação sem botar um dinheiro na mesa. E sem mostrar um gesto de boa fé para continuar olhando os números sendo um potencial concorrente”, diz uma fonte próxima à negociação.
Outro ponto de divergência nas negociações foi a exigência de Porto e Fleury de que a companhia ingressasse diretamente em um processo de recuperação extrajudicial como condição para avançar na proposta. A avaliação interna, porém, foi de que esse movimento seria prematuro, diante da dificuldade de coordenação com credores e da ausência de um acordo estruturado.
Apesar do desacordo sobre o timing, pessoas próximas à companhia afirmam que o pedido de recuperação extrajudicial é visto como inevitável, diante da pulverização da dívida — especialmente em instrumentos como CRIs — e da dificuldade de obtenção de quórum para uma renegociação fora de um processo formal.
Em relatório assinado pelos analistas Samuel Alves e Maria Resende, o BTG Pactual classificou o desfecho como "esperado", diante da profundidade da due diligence e dos desafios financeiros da Oncoclínicas. O banco citou o alto endividamento e os potenciais passivos off-balance sheet como barreiras intransponíveis para que players de caixa robusto, como Fleury e Porto, injetassem capital em condições aceitáveis de risco-retorno.
Para o BTG, o movimento favorece incumbentes como a Rede D'Or, que já vinha captando demanda reprimida - inclusive de mais de 6 mil pacientes que tiveram tratamentos oncológicos atrasados por conta da crise da Oncoclínicas.
Nova chance
Com a saída de Porto e Fleury da Oncoclínicas, conforme fato relevante, a atenção do mercado se voltou para a Mak Capital, que desde o início deste ano assumiu a posição de investidor ativista para barrar o M&A.
A gestora de hedge fund sinalizou uma possível injeção de até R$ 1 bilhão, em uma estrutura semelhante à discutida anteriormente com Fleury e Porto. A proposta, segundo apurou o NeoFeed, é a única na mesa até o momento.
Conforme o NeoFeed revelou, a Mak Capital encaminhou duas cartas ao management e ao conselho de administração da Oncoclínicas detalhando as mudanças na governança corporativa necessárias para a concretização da oferta de capital.
“As chances aumentaram”, disse uma fonte próxima ao hedge fund, após o encerramento da exclusividade de negociação com Porto e Fleury.
Antes do fim da análise do M&A, a proposta da Mak Capital (condicionada à destituição do atual conselho de administração com eleição de dois membros indicados por ela) foi classificada pela Oncoclínicas em comunicado oficial à CVM como “inviável”, especialmente pelas garantias exigidas - a assembleia marcada para 30 de abril.
Na tarde de terça, 14 de abril, a Mak Capital e o BR Partners irão se reunir para que o novo assessor financeiro entenda as condições e possa começar a fazer a sua análise. Entre propostas e intenções no ar, a ideia é buscar quem está com o “skin in the game”.
No entanto, de acordo com apuração do NeoFeed, a ideia do assessor financeiro é “sentar na prancheta e desenhar várias opções, de credores que possam se autofinanciar até novos investidores”.
No comunicado ao mercado, a Oncoclínicas disse que “continuará avaliando as propostas de potenciais operações financeiras, bem como eventuais operações societárias que possam endereçar a sua situação econômica-financeira, que inclusive aquelas surgidas nas últimas semanas e que não puderam ser exploradas, tendo em vista a exclusividade então em vigor”.
Da venda à sobrevivência
O maior grupo de tratamento oncológico da América Latina vê sua estrutura de capital se deteriorando com velocidade. Em 2025, amargou um prejuízo de R$ 3,67 bilhões, com uma dívida bruta de R$ 4,8 bilhões e teve sua continuidade operacional questionada pela auditoria Deloitte.
Nessa complexa situação, há um vilão silencioso que se tornou o calcanhar de Aquiles da operação: os planos de saúde.
A Oncoclínicas depende quase que exclusivamente de operadoras de saúde para sua receita. As operadoras pagam os procedimentos em prazos que beiram os 270 dias. Se isso já é um problema, o caos se instala com as chamadas “glosas”.
Na prática, se uma operadora contesta um único código de procedimento de uma fatura de R$ 500 mil, por exemplo, ela simplesmente deixa de pagar a fatura inteira e não apenas o item contestado.
“Os planos de saúde não pagam os códigos corretos, eles glosam a fatura toda. A discussão toda recomeça e eles ganham em cima do meu capital de giro”, diz uma fonte da companhia.
A estimativa é que, em alguns casos, o percentual de faturamento travado por essas disputas chega a 30% ou 40%. “Não há margem que sustente”, complementa.
Para piorar, os contratos com os planos geralmente proíbem a cessão desses recebíveis como garantia em bancos. Ou seja, a Oncoclínicas não consegue nem antecipar o dinheiro que tem a receber para comprar medicamentos.
Internamente, a avaliação é de que o problema é estrutural e não tem solução de curto prazo sem intervenção regulatória. A saída passaria por uma atuação da ANS para limitar práticas como a glosa integral de faturas.