No meio da guerra declarada entre as distribuidoras de gás liquefeito de petróleo (GLP) e a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que deve analisar na reunião de sexta-feira, 29 de maio, se avança com a proposta do fracionamento do botijão e envase remoto, uma empresa que opera na África do Sul está atenta à decisão.

Criada em 2019 na França pela brasileira Natália Giampietri e pelo francês Philippe Hoeblich, a PayGas está presente na Cidade do Cabo, na África do Sul, com estações de recarga em supermercados - é, literalmente, um “posto de abastecimento de gás”.

A empresária, que está disposta a enfrentar as grandes companhias do setor, diz estar pronta para iniciar a atuação no Brasil, caso realmente a medida avance na ANP, chegue às audiências públicas - que devem ocorrer em 45 dias - e, finalmente, se transforme em legislação.

Segundo ela, a PayGas tem capacidade de investir R$ 100 milhões por ano para instalar 200 estações de recarga de botijão. Inicialmente, serão montados na Baixada Fluminense e nas regiões Norte e Nordeste. O plano é alocar R$ 1 bilhão no País em uma década.

“Está na hora de modernizar o setor. Não dá para ficar do mesmo jeito desde 1938. O que acontece no Brasil é bizarro. Claro é que uma questão econômica que gera toda esta reclamação. A indústria está estruturada para o modelo atual. E quando isto é descentralizado, as empresas vão precisar se adaptar”, diz Giampietri, em entrevista ao NeoFeed.

Ela rebateu um dos pontos mais sensíveis usados por quem é contra a mudança, que é o risco real da entrada do crime organizado, em um setor que já está regulado, e a falta de controle e fiscalização. Segundo ela, este problema já existe no modelo atual.

“O crime organizado já está presente no mercado de GLP. Já existe controle territorial há anos no mercado atual. O que as novas regras propõem: incluir a rastreabilidade e saber exatamente quem encheu o botijão, onde foi, as normas de segurança aplicadas. E o enchimento vai ser controlado, o que hoje não acontece”, afirma ela.

O NeoFeed revelou, na segunda-feira, 25 de maio, que o Ministério de Minas e Energia havia enviado um duro ofício aos cinco diretores da ANP, criticando a possibilidade de prosseguimento da pauta sobre o envase fracionado.

E argumentou, a exemplo do que já disseram as empresas, que as mudanças irão afetar diretamente o funcionamento do programa social Gás do Povo, que subsidia recargas de botijões para a população de baixa renda.

Mas, para Giampietri, permitir o fracionamento vai beneficiar os usuários do programa social, e não o contrário. “Entendo o Gás do Povo como uma grande iniciativa do governo. Mas, com estas novas regras, vai ser possível controlar mais o que é vendido pelo programa.”

Hoje, cerca de 90% do setor de GLP pertence às quatro maiores distribuidoras: Copa Energia (controladora da Copagaz e Liquigás), Supergasbras, Ultragaz e Nacional Gás.

Acompanhe, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Por que as principais distribuidoras têm sido contrárias à possibilidade de mudanças no setor para permitir o envase fracionado?
Isso aconteceu em diversos setores que passaram por mudanças de regras. Ocorreu com a hotelaria, quando chegou o Airbnb, com táxi quando chegou a Uber. É sempre uma grande polêmica quando surge uma tecnologia disruptiva. Está na hora de modernizar o setor. Não dá para ficar do mesmo jeito desde 1938. Hoje, são necessários quatro botijões para que o cliente possa ter o seu botijão em casa. É uma logística e investimentos gigantescos. No nosso modelo, é preciso de apenas um. O que acontece no Brasil é bizarro. Claro é que uma questão econômica que gera toda esta reclamação. A indústria está estruturada para o modelo atual. E quando isto é descentralizado, as empresas vão precisar se adaptar.

"O crime organizado já está presente no mercado de GLP, no modelo atual (...) O que as novas regras propõem é de incluir a rastreabilidade e saber exatamente quem encheu o botijão"

Há preocupação com uma possível entrada do crime organizado em um setor que já está regulado. Não há chance de isso acontecer a partir do fracionamento do botijão e o enchimento remoto?
O crime organizado já está presente no mercado de GLP, no modelo atual. Já existe controle territorial há anos e no mercado atual. Há lutas de território e aumento de preço. O que as novas regras propõem é de incluir a rastreabilidade e saber exatamente quem encheu o botijão, onde foi, as normas de segurança aplicadas. Não vamos colocar estas estações em um quintal. E sim em um local adequado. Estes ‘postos de gasolina do gás’ ficam em locais específicos, como os postos de combustíveis. E o enchimento vai ser controlado, o que hoje não acontece.

Vai ser controlado por quem?
Pode ser pela própria ANP ou pelo governo federal.  A ideia é que o sistema de rastreamento, seja ou qualquer outro, vai precisar apresentar informações obrigatórias, como quem foi a última empresa que encheu, qual o nome do cliente, identificação do botijão. Todos esses dados precisam ser disponibilizados de forma pública. A ANP, quando for fiscalizar, vai saber quem encheu. E hoje esta fiscalização não existe. Isso, para mim, é condição sine qua non para que haja a abertura de mercado. Vai ficar mais seguro. E tem a questão da transparência.

Pode explicar o que seria essa transparência?
Hoje não sabemos se tem mesmo 13 quilos no botijão. Isso fica na mão do mercado. Tem gente que fala que tem impressão de que, em um mês, o botijão rendeu menos. E não é possível verificar. Na África do Sul, somos obrigados a informar. A gente dá uma nota fiscal mostrando qual é o peso inicial do botijão, quanto foi enchido, qual a capacidade máxima. Todas essas informações são públicas. O que a gente quer é justamente evitar a informalidade e trazer mais transparência. A verdade é que a presença do crime organizado já acontece.

Neste novo formato, como fica a responsabilidade sobre qualquer risco de segurança do produto?
A responsabilidade vai ser atribuída a quem encheu o botijão pela última vez. Por isso o rastreamento é tão importante. Mas não podemos esquecer que a propriedade do botijão pertence ao consumidor que o comprou.

O setor diz que o mercado brasileiro pode ficar parecido com do Paraguai ou do México, em que não há controle. Qual sua avaliação?
E se a gente usar exemplos bons? A base legal do mercado da África do Sul tem raiz nos códigos britânicos. Que é mais raiz da regulação dos Estados Unidos. Há enchimento remoto nos Estados Unidos e no Canadá. São países que isto já é regulamentado e a gente não vê críticas em relação à possível entrada do crime organizado. Na África do Sul, isto não existe. Precisamos olhar bons exemplos internacionais.

"Há enchimento remoto nos Estados Unidos e no Canadá. São países que isto já é regulamentado e a gente não vê críticas em relação à possível entrada do crime organizado"

Por que a PayGas não opera, então, nos Estados Unidos?
O meu mercado é mais voltado para pessoas de baixa renda. Por isso que nosso foco foi o continente africano.

O Ministério de Minas e Energia enviou ofício aos diretores da ANP alegando que a mudança pode afetar o programa Gás do Povo? Acha que isso pode acontecer?
Ao contrário. Entendo o Gás do Povo como uma grande iniciativa do governo. Só que, com estas novas regras, vai ser possível controlar mais o que é vendido pelo programa. Há uma questão que ninguém percebe, que é a questão do gás residual. Quando você pega um botijão cheio, você perde de 4% a 12% do volume para a revenda, que entrega à distribuidora para recuperar este gás. Então, dos R$ 100 que o beneficiário usa, ele perde uma parte. Com a transparência, vai ser possível fazer com que todo o valor seja efetivamente usado pelas pessoas. É possível fazer mais para a população.

Mas a legislação hoje só permite a carga total. A mudança da regra pela ANP vai garantir essa mudança?
Isso está em uma medida provisória e deveria falar só sobre o Gás do Povo. Seria necessário incluir a rastreabilidade na legislação. E estas novas leis são muito recentes, foram estabelecidas agora. Vai ser necessário discutir isto também.

Como funciona a operação da PayGas na África do Sul?
Criamos a empresa na França, em 2018, e começamos a operar na África do Sul, na Cidade do Cabo. Hoje a gente tem uma parceria com uma rede de supermercados chamada ShopRite, que é uma espécie de Atacadão de lá, e que também são coinvestidores. As pessoas vão ao mercado, fazem suas compras e abastecem seus botijões, na quantidade que querem. A gente monta postos de enchimento remoto, colocados perto da população que mais precisa e com todas as regras.

Existem muitas dessas estações?
Uma estação desta está em um raio de dois quilômetros uma da outra e supre a demanda mensal de cerca de cinco mil famílias. Temos oito estações de recarga e já atendemos mais de 600 mil clientes. E vamos começar a licenciar a tecnologia. Lá a média é de 3,7 quilos de GLP por recarga. Ou seja, quase 70% dos nossos clientes abastecem seus botijões de forma parcial.

Como vocês planejam a entrada no Brasil?
Em 2024, eu já decidi abrir a PayGas no Brasil, quando entendi que estas discussões começaram a ganhar corpo. Comecei a buscar mais informações e entendi que mercado brasileiro poderia ser muito importante para nós, a partir da possibilidade do fim desta barreira regulatória. A empresa está pronta para operar, caso a discussão avance na ANP.

Qual o potencial mercado para a PayGas e o volume de investimentos previsto no Brasil?
A operação dos postos de GLP será nossa. A gente vai instalar e vai operar. E também podemos fazer licenciamentos para revendas que já existem no Brasil e operar dentro delas. Vamos investir R$ 1 bilhão em dez anos. Somente para montar uma estação a gente imagina um investimento de R$ 270 mil. Por ano, vamos investir R$ 100 milhões para abrir cerca de 200 estações ao ano. Neste valor, também está o investimento em novos botijões. Vamos fazer 20 estações-piloto, em regiões como a Baixada Fluminense, e também no Norte e Nordeste.

"O botijão pode ficar mais barato no Brasil? Pelo menos R$ 20, porque a gente reduz o custo da cadeia logística"

Mas sua ideia é comprar o GLP diretamente da Petrobras, como fazem as distribuidoras?
Na África do Sul, eu compro diretamente das distribuidoras. Aqui, devo começar comprando de distribuidoras menores o produto a granel, para me tornar uma minidistribuidora. Neste sentido, não devo comprar diretamente das quatro principais distribuidoras.

Com este modelo que você defende, o botijão pode ficar quanto mais barato no Brasil?
Pelo menos R$ 20 mais barato, porque a gente reduz o custo da cadeia logística. A gente tira o motorista, o caminhão, a quantidade grande de destroca, diminui acidentes. Só há um trajeto. O botijão vazio vai para a estação, você entrega para o cliente e ele leva para casa. E ele vai cuidar.

Caso a medida avance, chegue às audiências públicas e seja efetivamente aprovada, em quanto tempo a empresa poderia começar a operar?
A empresa já possui registro no Brasil, então já pode começar suas atividades a partir da aprovação da lei. E o tempo de construção das estações é de quatro semanas. A aprovação das licenças pode levar de seis meses a um ano. Então, a partir da lei, podemos entrar no mercado em até um ano, com estações próprias, e com modelos de licenciamento.

Você chegou a conversar com algum diretor da ANP sobre estas possíveis mudanças no setor?
Não.

A proposta vai avançar na reunião da ANP?
Espero que sim. Mas não temos como saber. Espero que o trabalho que estamos fazendo, para mostrar a viabilidade do negócio, possa ajudar nisso. Espero que a democracia ganhe.