O cenário de “pista asfaltada” no mercado de veículos elétricos para a chinesa BYD e a alemã Volkswagen, principalmente na Europa, não parece ser o mesmo para a gigante franco-italiana Stellantis. A montadora anunciou nesta sexta-feira, 6 de fevereiro, uma baixa contábil de US$ 26 bilhões.
A companhia afirmou ter superestimado a demanda por veículos elétricos. A iniciativa vai fazer com que a montadora abandone parte dos investimentos que estavam previstos nesta categoria, principalmente pela constatação de que há uma resistência forte no mercado dos Estados Unidos.
O impacto foi imediato no mercado financeiro. Na pré-abertura da Bolsa de Nova York, as ações já acumulavam desvalorização de 23,9%. Em Milão, a queda chegou a 24,6% por volta de 15h10 (horário local).
Com isso, as ações da empresa atingiram o menor nível desde sua criação, em 2021, a partir da fusão da Fiat Chrysler Automobiles e do Grupo PSA, fabricante da Peugeot.
“As baixas contábeis refletem em grande parte o custo de superestimar o ritmo da transição energética, o que nos distanciou das necessidades, recursos e desejos reais de muitos compradores de carros”, diz o CEO global da Stellantis, Antonio Filosa, ao Wall Street Journal.
O volume financeiro informado pela montadora é o mais alto já reportado por uma fabricante em relação às iniciativas malsucedidas em veículos elétricos, que focaram investimentos principalmente após o sucesso inicial da Tesla, de Elon Musk, que hoje derrapa nas vendas e perde espaço no mercado global.
Outras companhias já informaram dificuldades relacionadas ao mercado de carros à bateria. Em dezembro, a Ford relatou um prejuízo de US$ 19,5 bilhões, agora direcionando investimentos para os híbridos. Em janeiro, a General Motors anunciou o impacto de US$ 6 bilhões em baixas contábeis.
Consumidores americanos têm se mostrado relutantes em comprar veículos elétricos devido aos preços altos, preocupações sobre autonomia e acesso a locais para recarga. Outro impacto foi a revogação, por parte do presidente Donald Trump, isenções implementadas na gestão de Joe Biden e que chegavam a US$ 7,5 mil por automóvel.
A Stellantis afirmou que cerca de dois terços destas despesas estão relacionadas a plataformas de veículos que tiveram seus projetos cancelados, como a RAM 1500 EV e o Jeep Wrangler 4xe. Outra parte das despesas está ligada à cadeia de suprimentos de veículos elétricos, incluindo a venda de uma participação em uma fábrica de baterias canadense.
E, a exemplo de outras montadoras, a empresa está mudando o foco para híbridos convencionais, uma tecnologia mais acessível que não exige que os motoristas mudem seus hábitos.
Desde que assumiu a liderança da Stellantis, em junho do ano passado, Filosa tem agido para desfazer algumas das apostas do antigo CEO Carlos Tavares, como investimentos em células de combustível de hidrogênio. A empresa anunciou baixas contábeis de aproximadamente US$ 4 bilhões em seus resultados para o primeiro semestre de 2025.
Embora os analistas tivessem previsto novas perdas para o segundo semestre do ano em decorrência das medidas tomadas pela Ford e pela GM, a conta apresentada agora foi muito maior do que o esperado.
Estima-se que quase US$ 8 bilhões das despesas com a Stellantis envolvam pagamentos em dinheiro, como indenizações a fornecedores que precisam ser compensados por pedidos cancelados.
A empresa ainda afirmou que espera registrar um prejuízo líquido entre € 19 bilhões e € 21 bilhões no segundo semestre de 2025. Mesmo excluindo as baixas contábeis, sua projeção de lucro operacional para o ano ficou abaixo das expectativas da empresa, reiteradas em dezembro.
A dona da Jeep, Fiat e Peugeot afirmou que sua margem operacional ajustada, que agora se espera ser negativa em relação ao ano passado, ficará na casa de um dígito baixo em 2026. Isso inclui uma projeção de € 1,6 bilhão em custos tarifários, acima dos € 1,2 bilhão em 2025.
Na Bolsa italiana, as ações da Stellantis registram queda de 51,3% no acumulado de 12 meses. A montadora está avaliada em € 17,8 bilhões.