Quando abriu capital em meio a euforia do mercado de capitais, em maio de 2021, a Dotz captou R$ 390 milhões e foi avaliada em mais de R$ 1,7 bilhão. Três anos se passaram e o valor de mercado da startup que nasceu como um programa de fidelidade (e depois expandiu para serviços financeiros) derreteu mais de 95% - hoje está avaliada em R$ 78 milhões.

A crença interna, porém, é de que o valuation poderá subir caso a empresa mantenha em curso o plano que vem adotando nos últimos dois anos e que neste trimestre mostrou seu resultado mais sólido.

Nesta quinta-feira, 28 de março, a Dotz divulgou seus resultados do quarto trimestre destacando ter atingido resultado positivo em seu Ebitda. O indicador ficou em R$ 2,2 milhões, revertendo o resultado negativo de R$ 26,8 milhões registrado no mesmo período de 2022.

“Quando fizemos o IPO sabíamos que passaríamos por um período de investimento. Mas o plano era, ao longo do tempo, fazer a construção do negócio para atingir margens positivas”, diz Roberto Chade, fundador e CEO da Dotz em entrevista ao NeoFeed.  “É isso que estamos entregando agora.”

Em outros números divulgados nos resultados do quarto trimestre, a Dotz reportou faturamento de R$ 73,2 milhões, queda de quase 12% na comparação ano a ano. O lucro bruto caiu 2% no período para R$ 32,6 milhões. As perdas no período somaram R$ 7,7 milhões, uma redução em relação ao prejuízo de R$ 30,5 milhões de quarto trimestre de 2022.

A expectativa na Dotz é de que o ponto de equilíbrio financeiro definitivo, com a obtenção de resultado líquido positivo, possa vir em algum momento de 2025. “Estamos felizes de dar o primeiro passo. Há uma perspectiva factível para o ano que vem”, diz Chade, em relação ao breakeven.

A aposta está nesta tal “construção” feita pela startup nos últimos anos e que envolveu e entrada no segmento financeiro. Entre 2020 e 2023, a Dotz aumentou de 6% para 24% a participação da frente de techfin no faturamento do negócio. A meta é tornar a vertical responsável por até 50% da receita no longo prazo.

Em seu negócio de techfin, a Dotz originou R$ 287 milhões em crédito ao longo de 2023. A solução de crédito ganhou força em 2022, quando a Dotz adquiriu a operação da Noverde, especializada neste segmento, por R$ 49 milhões, em uma transação envolvendo dinheiro e ações.

“O objetivo era fazer com que o nosso usuário, que vem do varejo, pudesse ter acesso a produtos e serviços financeiros dentro de um modelo asset light. Foi um ponto de inflexão”, diz Chade. “Ao longo dos últimos dois anos estivemos formatando esta estratégia.”

Para dar força a esta frente, a startup está lançando um novo produto, chamado de Dotz Parcela, que permite dividir o pagamento de uma compra feita no varejo físico em até 12 prestações (com acréscimo de juros) e com a geração de até cinco vezes mais pontos dotz para o usuário do que no pagamento à vista.

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Roberto Chade, fundador e CEO da Dotz

Por ora, a solução está integrada somente ao varejo e físico e apenas no Supermercado Peralta, rede presente no interior de São Paulo. A previsão é de que novos acordos sejam firmados ao longo deste trimestre. Para a Dotz, o ganho está no MDR – as taxas administrativas cobradas em cada transação parcelada.

Além do programa de parcelamento, a Dotz está estudando novidades em techfin. “Os produtos financeiros têm uma margem bruta mais relevante para a operação”, afirma Chade. As ideias envolvem soluções ligadas com seguros e a melhorias no pagamento via PIX realizado no aplicativo.

Entrar no segmento de crédito e construir um “SuperApp” vem sendo um caminho tomado por empresas de diferentes setores. Rappi, Méliuz e até a Motorola já surfam esta onda. “Ecossistema virou a palavra da moda”, diz Chade. “Não haverá espaço para todos.”

Para o empresário, a Dotz tem uma vantagem competitiva de sua base de cadastrados, que soma 50 milhões de usuários. Metade deles possui saldo em dotz – que é obtido em formato de cashback e pode ser trocado por dinheiro ou por produtos e serviços específicos dentro da plataforma.

Questionado se houve uma demora colocar a frente financeira de pé, Chade comparou seu negócio com outra fintech. “Quando tempo o Nubank demorou para se tornar o que é hoje? E todo mundo criticava a companhia antes”, afirma Chade. “As coisas não acontecem de uma hora para a outra. É um processo.”