Brasília - Num momento em que as ações do BRB acumulam 44% de queda desde que a Polícia Federal deflagrou a Operação Carbono Oculto e revelou esquema de fraudes de mais de R$ 12 bilhões com o Banco Master, um de seus maiores acionistas, o Instituto de Previdência do Distrito Federal (Iprev-DF), quer deixar de ser sócio da instituição financeira.

Com 12,3% das ações ordinárias do BRB, que está mergulhado na crise do Master e sob pressão do Banco Central para se capitalizar, o Iprev está cercado de preocupações que vêm sendo levantadas por todos os lados: aposentados, pensionistas, servidores da ativa, oposição ao Governo do Distrito Federal (GDF) - controlador do banco - e até órgãos de controle como Tribunal de Contas do DF (TCDF), Ministério Público e Controladoria do DF.

Todos eles vêm questionando o Iprev por meio de ofícios e querem saber se o escândalo causado pelos negócios do banqueiro Daniel Vorcaro vão respingar no instituto de previdência da capital federal, comprometer pagamento de aposentadorias ou mesmo se o fundo tende a encolher à medida que as ações do BRB caem - somente em 2025 a desvalorização está próxima de 30%.

“O valor da ação, com essa operação do Master, variou e esse ativo não está bem hoje no mercado. Agora não, mas em algum momento, o Iprev vai ter que negociar essas ações. E a ideia é se desfazer de 100% delas”, diz Raquel Galvão, diretora-presidente do Iprev-DF, ao NeoFeed.

“Na visão do nosso comitê de investimentos e do Conselho de Administração, neste momento não seria prudente [a venda de ações do BRB], porque a gente não conseguiria fazer nenhuma venda e obter um resultado positivo. Temos que esperar o melhor momento para negociar”, complementa.

Na última carteira de investimentos divulgada pelo Iprev, de dezembro de 2025, o instituto calculou em R$ 531 milhões o valor das ações do BRB. Esse cálculo equivalia a uma ação negociada a R$ 8,86. No pregão de quarta-feira, 25 de fevereiro, a ação BSLI3 fechou o pregão cotada a R$ 4,81.

“Como acionista do BRB, o Iprev é o maior espelho de tudo que está acontecendo com o banco. As ações que o Iprev detém já se desvalorizaram mais de 50% e isso se acentuou mais ainda em novembro com a operação da PF. O investidor fica aterrorizado. O risco previdenciário é a capacidade do próprio fundo de arcar com aposentadoria e pensões”, avalia uma fonte do BRB, em condição de anonimato.

A participação do Iprev-DF no BRB vem sendo reduzida desde o ano passado. Quando o instituto incorporou ações do BRB em 2017, chegou a deter 16,7% das ações do banco. Em março do ano passado, eram 15%, que caiu para os atuais 12,3%. Por outro lado, a participação acionária do sócio controlador, o Governo do Distrito Federal (GDF), foi diminuindo: chegou a ser de 80,3% em dezembro de 2020 e caiu para 65,6% em agosto de 2024. Em abril do ano passado, chegou a seu menor patamar, com 53,7% - posição de junho de 2025, conforme o último balanço publicado pelo BRB, que não divulgou suas informações financeiras ao longo do segundo semestre do ano passado.

Curiosamente, enquanto, Iprev e GDF diminuíram fatia no banco, os "outros" acionistas aumentaram de 10,6% em 2024 para 25% em 2025. Nos bastidores, a leitura no mercado é que o Master e fundos ou empresas ligadas a ele podem estar pulverizados dentro dessa classificação de "outros acionistas".

O fundo dos servidores aposentados e pensionistas do GDF nega, contudo, que essa menor participação tenha a ver com efeitos do Caso Master. E afirma, também, que o caso Master ou a desvalorização das ações traga prejuízos a aposentados, pensionistas e ao Instituto.

Na hipótese de o Iprev deixar de ser acionista do BRB, o instituto de previdência poderia usar a receita com a venda das ações para aplicar em fundos multimercados ou títulos de renda fixa. Mas, segundo Rachel, essa decisão, que precisaria de autorização interna no Iprev e sinal verde do GDF, já vinha sendo discutida internamente antes mesmo da crise do Master estourar ou da tentativa do BRB de comprar parte do banco de Vorcaro.

Ela explica que, apesar de uma lei distrital de 2017 permitir que o Iprev seja sócio do banco estatal de Brasília, o Conselho Monetário Nacional (CMN) não recomenda que os Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) detenham um percentual fixo de participação em empresas. Logo, vender as ações do BRB seria uma forma de se adequar à legislação nacional.

“É uma intenção e possibilidade futuras. No momento não é vantajoso. Hoje somos sócios do BRB por meio de uma lei distrital, mas os RPPS não podem ter ações de sociedades anônimas. Nesse momento vamos ter cautela. O regime de previdência do DF vai agir com cautela pra não termos perda”, afirma a diretora-presidente.

Medo dos aposentados

Aposentados e servidores da ativa do GDF vêm demonstrando, nos bastidores, preocupação de que o fundo de previdência local, que já perdeu participação na composição acionária do BRB ao longo do ano passado, encolha futuramente. E há inclusive temor de que haja dificuldade de o governo local honrar com aposentadorias no futuro.

Há um receio de que, caso o Iprev siga como sócio do BRB, as ações virem “pó” e o instituto por ventura saia como prejudicado de uma eventual liquidação do banco público Brasília, no caso mais drástico. Ou sua sustentabilidade financeira seja abalada futuramente.

Segundo o balanço de dezembro do ano passado, a carteira total do Iprev era de R$ 8,315 bilhões. E, naquele momento, as ações do BRB equivaliam a 6,39% do total sob gestão.

O temor dos cotistas do fundo se dá num contexto de histórico recente do Iprev, que gera preocupação ainda hoje: criado em 2007 para pagar os benefícios dos servidores que ingressaram a partir daquele ano, o Iprev já sofreu três retiradas dos seus recursos pelos dois últimos governadores (Rodrigo Rollemberg e Ibaneis). Os funcionários do DF chamam essas retiradas de “saques” que ao todo, somaram quase R$ 2 bilhões.

Para repor as primeiras retiradas, o GDF transferiu ações do BRB ao Iprev, que fizeram o instituto de previdência de Brasília se tornar acionista do banco. Atualmente, o Iprev administra o Fundo Solidário Garantidor, que soma R$ 6,04 bilhões (desse montante, R$ 4,2 bilhões se referem ao patrimônio líquido do Iprev no Fundo).

Ao todo, são mais de 70 mil servidores na ativa que contribuem para o Fundo – quem entrou ou se aposentou antes de 2007, quando o Iprev não existia, são contemplados por um fundo financeiro, que é deficitário, mas foi incorporado ao Fundo Garantidor.

“Quando você ‘saca’ recursos do Iprev, está colocando em xeque a sustentabilidade financeira do fundo. E daqui a alguns anos pode não ter mais esse dinheiro. O Iprev ainda é superavitário, mas daqui pra frente, não será. Porque hoje você tem mais servidores pondo dinheiro [contribuindo] do que servidores sacando, mas essa curva pode se inverter. Esse fundo tem que ser preservado para continuar rendendo”, diz o deputado distrital Gabriel Magno (PT-DF), uma das lideranças da oposição que têm levantado preocupações frente aos possíveis impactos do caso Master no Iprev.

Magno inclusive encaminhou um requerimento na Câmara Legislativa do DF para convocar a diretora-presidente do Iprev a dar esclarecimentos a respeito.

“O medo que temos é com o risco do Iprev diminuir de tamanho, perder investimento. A primeira consequência é que você vai precisar repor. Se os recursos deixam de existir, e esse é um risco, o Tesouro [do DF] vai precisar fazer aportes. Vai deixar de pagar aposentadoria? Hoje não. Mas no pior cenário, que seria a liquidação do BRB, o Iprev pode ficar descoberto”, alerta ele.

Outro fato que gerou preocupação em Brasília nos últimos dias foi que veio à tona que o Iprev fez aplicações em cifras milionárias no FIP Venture Brasil Central, fundo administrado pela Trustee DTVM, uma gestora que é ligada ao Master e foi alvo das operações Carbono Oculto e Compliance Zero, ambas da PF. A Trustee, por sua vez, pertence a Maurício Quadrado, que já foi sócio do Banco Master.

O Iprev informa que se comprometeu em investir R$ 5 milhões desde 2016, mas a valores de hoje teria um montante superior a R$ 6 milhões para receber. No entanto, nega que tenha sido um investimento com prejuízos.

“Já recebemos tudo que investimos. A gente já pegou o que investiu. Não houve prejuízo. Depois da deflagração das operações da PF, o Iprev não aplicou mais no fundo. Estamos aguardando a extinção do fundo”, diz Galvão.

*Reportagem atualizada às 11h15 de quinta-feira, 26 de fevereiro, com a posição correta das ações com a redução da participação do Iprev no BRB e a dos demais acionistas.