Estava tudo certo. No início de março, a fintech sueca de pagamentos Klarna havia anunciado que, em abril, faria seu IPO em Nova York, com meta de avaliação de US$ 15 bilhões. Só que o cenário mudou, provocado pelas incertezas econômicas a partir do tarifaço global do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Ainda que tenha feito o pedido de abertura de capital na Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos no mês passado, a Klarna não tinha definido a data exata para se tornar pública, mas já vinha se preparado para realizar um roadshow com investidores.

Conhecida pelo serviço "buy now, pay later", o velho crediário, mas adaptado ao mundo digital, a Klarna buscava, com o IPO, levantar pelo menos US$ 1 bilhão. A decisão de interromper o projeto neste momento foi divulgada em primeira mão pelo Wall Street Journal.

O início da listagem da Klarna era visto como uma espécie de retomada do setor tech, que foi atingido por uma queda de aportes nos últimos anos. Desde 2021, os investimentos vêm caindo por conta  das altas taxas de juros nos Estados Unidos.

Nesse sentido, a fintech sueca se tornou um símbolo do que ficou conhecido como o "inverno das startups". De companhia privada mais valiosa da Europa, avaliada em US$ 46 bilhões em 2021, a Klarna viu seu valor cair para US$ 6,7 bilhões no ano seguinte, uma redução de 85,4%.

Pouco a pouco, a Klarna foi recuperando terreno, sem voltar ao antigo valuation, um exagero fruto do excesso de liquidez do mercado. No mês passado, a fintech voltou a ter um bom resultado em 2024, com lucro líquido de US$ 21 milhões, superando o prejuízo de US$ 244 milhões de 2023.

A Klarna tem como acionistas a Sequoia Capital, o family office Heratland e Victor Jacobson, cofundador da startup europeia. No fim de 2024, segundos dados de seu registro de IPO, a empresa tinha 93 de milhões de clientes ativos em sua plataforma e operações em 26 países.

A decisão da startup sueca joga mais um balde de água fria na retomada dos IPOs tech nos Estados Unidos. A Coreweave, que fornece acesso a data center e chips de alta potência para cargas de trabalho de inteligência artificial, já tinha decepcionado os investidores.

No fim de março, a Coreweave fez seu IPO na Nasdaq, mas foi precificada abaixo  da faixa definida e captou bem menos do que planejava. A meta era levantar entre US$ 2,3 bilhões a US$ 2,7 bilhões, mas a empresa "só" conseguiu US$ 1,5 bilhão.

Desde abertura de capital, os papéis acumulam alta de mais de 14%. Mas nesta sexta-feira, 4 de abril, desabavam mais de 15%, na esteira do mau humor do mercado com o tarifaço de Trump e a reação imediata da China.

Além da Klarna, a plataforma de ingressos StubHub também adiou os planos de IPO nos Estados Unidos. A startup chegou a pensar em iniciar a abertura de capital no ano passado, com avaliação de US$ 16,5 bilhões, mas postergou os planos por causa da escassez de listagens públicas de empresas semelhantes, segundo o The New York Times.