Fabricante de foguetes capitaneada por Elon Musk, a SpaceX vem movimentando o mercado com os preparativos para o seu IPO, um dos mais aguardados de 2026 e que carrega o potencial de ser a maior abertura de capital da história.
Se esse marco será alcançado, só o tempo irá dizer. Mas já há quem esteja projetando o desempenho da companhia no mercado de capitais após sua listagem. E que, nesse processo, enxergue os efeitos, para o bem e para o mal, da sua associação com o bilionário.
Esse é o caso de Franco Granda, analista da consultoria Pitchbook, especializada em dados de companhias privadas, que publicou um extenso relatório de 84 páginas sobre a SpaceX, no qual estabelece algumas comparações entre a empresa e a Tesla, outra companhia de Musk negociada em bolsa de valores.
“A SpaceX terá um desempenho semelhante ao da Tesla, só que turbinado”, escreve Granda. “A combinação de menor liquidez, tecnologias em estágio inicial e exposição concentrada em Musk sugere uma volatilidade que excede os padrões historicamente turbulentos da Tesla.”
Ao mesmo tempo, Granda observa que o papel duplo de Musk como CEO cria uma correlação entre as duas empresas, o que amplifica a volatilidade em ambas as direções. E que notícias negativas sobre a Tesla, como atrasos na produção e controvérsias políticas, irão pressionar as ações da SpaceX.
Em contrapartida, Granda ressalta que catalisadores positivos da montadora podem impulsionar a SpaceX por pura associação. “Os investidores da SpaceX não podem diversificar o risco específico de Musk evitando a Tesla. Eles estão expostos a todo o seu ecossistema”, afirma.
O analista destaca, porém, que muitos investidores aprenderam a lidar com as narrativas otimistas de Musk e a interpretar os prazos estipulados pelo bilionário, no que ele chama de “saldo de credibilidade” do bilionário. E que essa lição provavelmente poderá ser aplicada no caso da SpaceX.
“Investidores que navegam no mercado da Tesla entendem a estratégia: manter a convicção durante as quedas, aplicar descontos de duas a três vezes no cronograma das projeções da gestão, focar no progresso direcional em vez da precisão trimestral e aceitar a volatilidade como o preço da oportunidade assimétrica”, pontua Granda.
Ele cita, por exemplo, a promessa da Tesla de produzir 5 mil unidades por semana até o fim de 2017. Em suas palavras, após “falhar miseravelmente” devido a um “inferno na produção”, a meta só foi cumprida em meados de 2018.
“As ações oscilaram violentamente – caindo 40% durante os períodos de baixa produção e, em seguida, dispararam 150% à medida que o volume de produção aumentava”, escreve o analista.
Granda observa que a SpaceX já passou por atrasos semelhantes. Entre eles, o desenvolvimento do foguete Starship, que enfrentou diversos contratempos. Outro exemplo citado foi o prazo estipulado - e não cumprido - por Musk de enviar uma missão não tripulada para Marte.
No balanço entre prós e contras dessa associação, o entendimento é de que as ações da SpaceX provavelmente também irão se beneficiar do chamado “prêmio Musk”, que ajudou a Tesla a manter suas ações em alta mesmo com a queda acentuada do seu principal negócio, os carros elétricos.
Nesse contexto, levando-se em conta os últimos 12 meses, quando a Tesla viu sua atuação no segmento ser bastante desafiada, as ações da companhia registram uma alta acumulada de mais de 50%, dando à empresa um valor de mercado de US$ 1,51 trilhão.
Entretanto, há também quem aponte os riscos das empresas de Musk se tornarem excessivamente dependentes da figura do bilionário. Em seu relatório anual, a própria Tesla alertou que suas ações poderiam sofrer uma queda acentuada caso ele tivesse que vender sua participação na empresa.
À parte dessas questões, Granda, da Pitchbook, projeta que a SpaceX seja capaz de alcançar uma receita de US$ 150 bilhões até 2040, além de um lucro ajustado de US$ 95 bilhões. Em 2025, a empresa reportou uma receita de US$ 16 bilhões e um lucro de US$ 8 bilhões.
O analista estima que cerca de US$ 42 bilhões da receita projetada para 2040 pode vir da Starlink, serviço de internet via satélite da SpaceX. Para Granda, a operação será o motor do fluxo de caixa da companhia.
Ele não incluiu nessa conta, porém, a xAI, empresa de inteligência artificial que também faz parte do portfólio de Musk. E que, em fevereiro, se fundiu com a companhia de foguetes, mas que ainda opera no vermelho.
Para o analista, a contribuição financeira da xAI será incremental nos primeiros anos da fusão. Ele ressalta, no entanto, que empresas de inteligência artificial nesse estágio já alcançam múltiplos significativos. E acrescenta:
“As sinergias entre a infraestrutura da SpaceX e as ambições computacionais da xAI reforçam uma proposta de plataforma que os concorrentes têm considerado praticamente impossível de replicar.”