Em um momento em que a volatilidade do mercado e a desvalorização do dólar reacenderam dúvidas sobre a alocação na maior economia do mundo, o Citi Wealth parece seguir à risca uma máxima de Warren Buffett: “Nunca aposte contra os Estados Unidos.”

Essa é a opinião de John Patrick Coviello, conhecido como JP Coviello, head de estratégia de portfólio do Citi Wealth, que conversou com exclusividade com o NeoFeed sobre o diagnóstico da casa para o início do ano e por que o banco acredita que, apesar do ruído macro, o cenário ainda favorece ativos de risco de qualidade.

Para a instituição, os EUA seguem sendo a âncora estrutural dos portfólios globais, enquanto China, ouro e commodities ganham espaço como vetores estratégicos de diversificação e proteção.

Um dos pontos centrais é o provável novo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, indicado por Donald Trump e ainda pendente de sabatina no Senado. Embora parte do mercado enxergue Warsh como mais inclinado a cortes de juros, o Citi mantém postura cautelosa.

“Acreditamos que o mercado está um pouco otimista demais. A economia dos EUA vai bem e não há necessidade de um corte de juros como o esperado”, afirma Coviello.

A avaliação da casa é que os efeitos defasados dos cortes promovidos em 2025 e o impulso do One Big Beautiful Bill Act (OBBBA) - com reembolsos de impostos no primeiro trimestre e incentivos a investimento e P&D - devem sustentar consumo e lucros ao longo do ano. Em outras palavras, o ambiente é de crescimento nominal robusto e inflação persistente, mais compatível com calibragem de portfólio do que com uma narrativa imediata de “pivot” do Fed.

É por isso que, mesmo diante da crescente diversificação global, o Citi mantém um overweight estrutural em ações americanas, ancorado em fundamentos como lucros fortes, balanços saudáveis e capacidade de absorver choques.

Episódios de volatilidade causados por manchetes - de tarifas a política monetária - são vistos como momentos para “adicionar qualidade”. “O fluxo para os EUA desacelerou, mas não parou. Não há um boicote. E, no fim, todos buscam crescimento. E o país parece que irá entregar”, diz Coviello.

Na parte direcional, a inteligência artificial se mantém como eixo central. O banco projeta um ciclo de investimento global agressivo, com capex corporativo em novas máximas em 2026, impulsionado pela demanda por infraestrutura de IA. Isso deve sustentar preços de recursos naturais, metais críticos, fornecedores industriais de nicho e mão de obra especializada.

A China é o segundo grande overweight do Citi, porém, com foco claro. Setores tradicionais, como habitação e construção, continuam pressionados. O interesse se concentra em tecnologia, onde o banco vê avanço sólido, políticas mais previsíveis e uma guinada desde 2022 no debate sobre “investibilidade”, agora mais favorável a produtividade e inovação doméstica.

A América Latina também segue sobrealocada, com destaque para Brasil e México, beneficiados por ciclos de juros, exposição a commodities e maior fluxo para mercados emergentes.

John Patrick Coviello, conhecido como JP Coviello, head de estratégia de portfólio do Citi Wealth
John Patrick Coviello, conhecido como JP Coviello, head de estratégia de portfólio do Citi Wealth

Confira os principais trechos da entrevista:

Em relatório aos clientes, vocês dizem que estão buscando mais disciplina e menos ruído na hora de montar os portfólios neste ano. Na sua visão, qual foi o “ruído” que tirou a atenção do que realmente?
Acho que o maior ruído em 2025 veio das tarifas. Não houve uma mudança, porque, no fim do dia, vimos o crescimento de lucros nos EUA — e também na China — aparecer com força nos retornos de ações no ano passado, apesar dos anúncios de tarifas. Isso nos mostra que os fundamentos são o que realmente importa. Claro que houve setores afetados por anúncios de tarifas, mas a gente sempre volta aos fundamentos deles também. E, hoje, EUA e China têm economias indo bem.

E o que pode virar ruído em 2026?
Neste ano, alguns dos riscos que citamos têm a ver com tarifas sendo derrubadas. Então, de novo, tarifas e o quanto realmente mudam fundamentos. Outro ponto é a inflação persistente nos EUA e em outros lugares, especialmente no setor de serviços. Não vemos tanto espaço para cortes de juros nos EUA quanto o mercado está precificando hoje, de três cortes no ano e ainda mais no início. Então, vemos isso como um risco.

Você citou tarifas sendo derrubadas. O que isso muda?
Se elas forem derrubadas pela Suprema Corte, isso afetaria receitas que eram esperadas a partir das tarifas olhando à frente. Se elas não forem restabelecidas de alguma forma, por tarifas da Seção 232 ou outra via. E a falta dessas receitas provavelmente afetaria a parte longa da curva de juros nos EUA, pelo prejuízo fiscal.

Vocês dizem que o Fed pode decepcionar quem está esperando cortes rápidos. Se o Fed acabar sendo mais hawkish do que o mercado quer, quais são os riscos? E qual é o melhor hedge?
Se isso acontecer, acredito que o mercado pode digerir e absorver isso desde que o crescimento de lucros continue e os fundamentos permaneçam sólidos. Esperamos que isso aconteça. Agora, se as coisas ficarem mais voláteis, ouro tende a funcionar bem como lastro de portfólio. É algo que carregamos no longo prazo. Não é uma operação tática. É algo que usamos para substituir parcialmente renda fixa nos portfólios e enxergamos como uma forma de deixar o portfólio mais seguro. Recomendamos cerca de 4% de exposição.

E do lado de setores econômicos, quem apanha mais se o Fed endurecer?
Tipicamente, quando o Fed fica mais hawkish, as áreas do mercado que são não lucrativas — inclusive dentro de tecnologia — costumam apanhar bastante. É uma das áreas mais suscetíveis se o Fed ficar decisivamente mais hawkish daqui para frente.

Mas temos um provável novo presidente no Fed, Kevin Warsh, que é tido como mais suscetível a cortar juros, não?
O consenso acredita que ele é mais inclinado a cortes para compensar a redução do balanço patrimonial. Mas é difícil dizer, porque a economia parece saudável, o mercado de trabalho está estável e os lucros corporativos estão perto de máximas. O efeito defasado da política monetária e o impacto da política fiscal estão em andamento. Então, para nós, é mais sobre o estado da economia do que sobre a pessoa. Não vejo necessidade de cortes rápidos de juros, dado o quão forte a economia está.

Mas vimos muita especulação sobre quem seria o presidente e a questão de intervenção do governo chegou até a fazer preço. Agora, sabendo-se que ele foi indicado, o que muda?
O ponto mais interessante é a visão dele de ser menos intervencionista. E provavelmente não acontece “no turno dele” a não ser que haja um problema grande. Historicamente, o Fed comprou hipotecas, Treasuries e até bonds corporativos, mas não o imagino indo além de Treasuries. Ele quer um balanço patrimonial menor e quer que os bancos tenham capital mais livre. Mas sua entrada ainda depende do Senado. Então, precisamos acompanhar. Eu não acho que o mercado tenha reagido muito ainda, apesar da nomeação. Vai ser interessante ver como ele se comunica e o que realmente pensa.

Tem muita gente falando em bolha de inteligência artificial. Como vocês estão enxergando os preços de IA? E como separar o que é empresa boa do que é “surfando a bolha”?
A gente olha para três áreas de IA. Você tem o epicentro, principalmente os hyperscalers, que estão fazendo todo o investimento. Eles estão construindo data centers e investindo num ritmo muito forte, com boa parte vindo do free cash flow. Houve alguma emissão de dívida, mas pequena em relação ao que eles poderiam fazer. No longo prazo, esperamos que os hyperscalers vão se sair muito bem. Os lucros continuam fantásticos, seja Microsoft, seja Meta. Eles só estão gastando mais do que o mercado está acostumado.

Então, na prática sãos "Sete Magníficas" ainda são “core” para vocês? Elas não estão caras?
A gente vê as "Sete Magníficas", os hyperscalers, como core holding. Não é algo para ficar fazendo trade, porque os fundamentos são muito sólidos: margens de free cash flow muito altas, sem precedentes na história. Então, mantemos como posição de longo prazo. E olhamos para outras áreas como posições mais táticas.

Que áreas seriam?
Entra nessa estratégia e gostamos bastante são recursos naturais e commodities necessários na cadeia. Estamos vendo restrições de oferta em cobre e em outros metais. Empresas tradicionais de energia estão ganhando tração porque, quando pensamos nas necessidades de um ciclo de capex de vários anos para uma tecnologia transformacional. Então, energia e commodities.

Como minerais críticos?
Sim. Minerais críticos estão sendo tratados como questão de segurança nacional. Nos EUA, há uma lista com 60 minerais críticos agora, incluindo cobre e prata, que não estavam na lista em 2024. Isso também está exacerbando o movimento de preços em algumas commodities.

E qual seria a terceira área?
Quem vai ganhar produtividade com a IA, como a robótica. A General Motors disse recentemente que vai colocar 2.500 robôs em uma fábrica. Parece só o começo da aceleração da robótica na manufatura americana. E isso exige materiais diferentes, fornecedores especializados e muda o contorno do uso de IA daqui para frente. Isso também se conecta com veículos autônomos. As necessidades de memória para robôs e veículos operarem em tempo real são enormes porque não pode haver atraso na transferência de informação.

Muita gente fala que o S&P está alto e concentrado em poucos papéis. Fora IA, quais são as oportunidades em ações nos EUA?
Temos visão muito positiva e estamos sobrealocados. Após os cortes de juros no último ano, agora isso deve chegar à economia real, e vamos ver o impacto desses cortes muito em breve. E isso acontece num momento em que vamos ver o impacto do estímulo fiscal aprovado em julho do ano passado aparecendo com as declarações de imposto dos consumidores americanos. Isso deve continuar apoiando o crescimento. Tem muita coisa “por baixo do capô” sustentando crescimento. E, se a produtividade acelerar com IA, isso também ajuda o crescimento e pode até significar que os juros deveriam ser mais altos no longo prazo. Mas não temos posição em small caps americanas porque consideramos fundamentalmente inferiores: muitas são não lucrativas nos índices que usamos.

Há um movimento global de diversificação para fora dos EUA. Isso pode virar um problema para o mercado americano ao longo do ano?
Vimos menos fluxos para os EUA, mas não é um boicote. O que existe é uma busca por diversificação marginal. O ano passado foi um ‘wake-up call’ para quem não tinha hedge de dólar, pois não se precisava disso há uma década. Não achamos que o dólar vá perder o status de reserva de valor principal tão cedo, mas há mais diversificação, inclusive com entradas na Europa pela primeira vez em mais de uma década. Isso pode mexer com mercados, e mexeu no ano passado sem fundamentos mais econômicos. Mas o ponto-chave é que os fluxos para os EUA desaceleraram, não pararam. E os fundamentos seguem robustos demais para serem ignorados. Então seguimos defensores do overweight em EUA, mas entendemos a necessidade de diversificar onde os fundamentos fazem sentido.

Pensando num investidor brasileiro montando uma carteira lá fora: como equilibrar ações e renda fixa nesse cenário? É hora de rebalancear?
É um caso a caso. Não existe um tamanho único. Mas, para nossos portfólios core, no modelo, seria 60% em ações, 36% em renda fixa e 4% em ouro.

E onde no mundo deveriam estar mais sobrealocados?
China também estamos overweight, assim como América Latina. A Europa tem performado mais por expansão de múltiplo do que por crescimento de lucros e está numa fase de “me mostre”: precisa entregar crescimento de lucros para continuar andando. Por isso, estamos underweight em duration europeia por expectativa de estímulo fiscal e inflação persistente. Também underweight em duration japonesa por razões de estímulo fiscal.

Por que a China? É IA também?
Sim. Olhamos o plano quinquenal da China para ver até onde eles querem levar IA e tecnologia como motor de produtividade. Habitação e construção, os setores mais “economia real”, têm arrastado por muito tempo e não vemos isso virando tão cedo. Acho que o governo sabe disso e quer estabilidade. Já os avanços tecnológicos são muito impressionantes, e a exposição deve ser nela. E a “investibilidade” mudou: em 2022, muitos investidores consideravam a China não investível, por políticas confusas. Agora, vemos uma mudança de política na direção de abraçar ferramentas de produtividade e tecnologia doméstica. EUA e China são competidores, mas mutuamente dependentes: a China depende de tecnologia e chips; nós dependemos de terras raras e outras coisas.

E você disse que também está sobrealocado em emergentes. O Brasil está nessa lista?
Nós estivemos taticamente otimistas com Brasil e América Latina, principalmente pela parte de alta de commodities e também pelo setor financeiro. Se você quer essa exposição, Brasil é uma ótima opção. Para nós, o tamanho do mercado importa, e Brasil é o maior da América Latina. Oor isso estávamos sobrealocados também taticamente. Mas saímos da posição tática nas últimas duas semanas para realizar lucros. Mas seguimos com overweight estratégico em Brasil e América Latina.

Mas olhando para frente, vocês seguem otimistas?
Olhando à frente, não tenho certeza, honestamente. Preferimos uma exposição mais ampla a commodities a ficar concentrada em risco específico de moeda e em um mercado de ações que, na prática, está concentrado em dois setores. Por isso, gostamos mais de investir em índice de commodities e de financeiros, que tem exposição a Brasil, do que Brasil propriamente.

Para o investidor brasileiro, outro tema quente agora é a desvalorização do dólar. O que vocês recomendam?
O que vimos em outubro e novembro — que motivou o overweight tático em Brasil — foi uma tempestade perfeita para a composição do Brasil: setor financeiro e commodities. Isso apoiou a moeda e as ações e ter uma das maiores taxas de juros reais do mundo ajuda, pelo carry trade. Mas, para cliente brasileiro, quero que ele durma à noite. Quero que ele esteja diversificado fora do Brasil, fora do real. Quanto? É caso a caso, mas é prudente. Historicamente, nos últimos 10 anos a 15 anos, o Brasil tem períodos de risco político que não dá para antecipar completamente. Diversificar a exposição cambial ajuda a dormir à noite. Mas certamente é o momento de olhar também para outras moedas fortes globalmente.