Miami - Há um consenso entre economistas e gestores. O chamado “investidor turista”, que compra índices passivos mas espera o maior e melhor retorno, corre o risco de ficar sem lugar à mesa em 2026.

A era da gestão ativa e do capital privado não é mais uma opção. É o único mapa possível para navegar em um mundo que parou de procurar o preço baixo para priorizar a sobrevivência.

Enquanto o investidor comum ainda sofre com a volatilidade das cotas diárias, os principais alocadores do mundo como BlackRock, J.P. Morgan, Morgan Stanley, BlueOwl, entre outros, mostram que o dinheiro grosso está buscando refúgio onde o gráfico não oscila de hora em hora.

Leia, a seguir, os principais destaques da renda fixa privada aos investimentos alternativos que ocuparam a tarde da primeira XP Global Conference fora do Brasil:

Estratégia do "single B"

Para falar sobre renda fixa global, Marcello Pasquatti, responsável pela distribuição de produtos da Pimco na América Latina, moderou o painel com Mark Benbow, portfolio manager da Aegon Asset Management, e Peter Vecchio, fund manager do BNP Paribas.

Contrariando a intuição comum de que títulos de maior qualidade (AAA) são sempre mais seguros, houve uma defesa de que o "porto seguro" atual é o crédito de qualidade média com vencimento curto.

O “sweet spot” são os títulos de classificação “single B”, com duração curta. Eles são vistos como mais defensivos do que papéis com grau de investimento (triplo A ou B), de longo prazo. O motivo é o que se paga para esperar em um cenário de incerteza.

Neste momento, a estratégia é focar no cupom e não na valorização do preço do papel. "Você é pago para esperar enquanto a volatilidade passa”, diz Vecchio, do BNP.

Recuperação versus compensação

O painel também trouxe uma crítica sobre a lentidão das agências de classificação de risco - Standard & Poor's, Moody's e Fitch -, que estão um passo atrás das necessidades dos gestores. O mercado precifica a melhora ou piora de uma empresa muito antes de a agência mudar o rating.

Enquanto elas focam muito na "recuperação", ou seja, quanto sobra se a empresa quebrar, os gestores buscam a "compensação", a capacidade de gerar caixa para não quebrar.

Benbow, da Aegon, diz que cerca de 25% do mercado de high yield nos EUA, hoje, é composto por empresas não-classificadas (unrated), o que mostra uma maturidade do mercado onde grandes corporações preferem não pagar pelo selo das agências.

Despertar do "S&P 495"

Nathan Chinsky, da BlackRock, e Nick Angelo, do J.P. Morgan, abriram um debate entre a "east coast" - investidores impacientes por retornos - e a "west coast", de inventores que gastam bilhões dólares, no painel sobre renda variável.

Para eles, a concentração do mercado nas cinco maiores empresas (que somam 30% do índice) está criando oportunidades fora do radar.

A expectativa é que o crescimento dos lucros comece a acelerar nos próximos trimestres para as outras 495 empresas do S&P 500.

O momento atual é descrito por Chinsky como "fantástico para gerar alfa", pois a volatilidade e a dispersão permitem identificar vencedores fora do bloco das mega-caps - empresas com mais de US$ 200 bilhões de valor de mercado como Nvidia, Microsoft, Apple, Alphabet e Amazon.

De US "Only" para US "Plus"

Embora os EUA mantenham a liderança em inovação, a recomendação dos gestores de BlackRock e J. P. Morgan é de diversificação geográfica.

Desde 2009, as empresas americanas entregaram um crescimento de lucros muito superior ao resto do mundo. Agora, fora dos EUA, o crescimento é mais lento, mas as avaliações são muito mais baratas.

A tese, segundo Angelo, evoluiu de apenas "EUA" (only US) para "EUA Mais" (plus US), incluindo Japão e mercados emergentes para diversificar a exposição tecnológica.

O "programa Apollo" da IA

A escala de investimento atual em IA não tem precedentes históricos. O programa espacial Apollo custou cerca de US$ 250 bilhões (em valores trazidos a valor presente) na década de 1970. Hoje, o mundo gasta o equivalente a dois programas Apollo por ano apenas em infraestrutura de IA .

Angelo diz que enquanto o PC levou 15 anos para atingir 50% da população e a internet 10 anos, a IA está quebrando todos os recordes de velocidade de adoção.

Para Chinsky, a IA não é bolha. Trata-se de uma mudança estrutural na economia real, com investimentos massivos em data centers, GPUs e armazenamento.

Escolha das cerejas

O mercado de investimentos alternativos, que antes era exclusividade dos investidores institucionais, está mudando de cara e criando oportunidades para o wealth management,

Enquanto os institucionais têm alocações robustas, o investidor de varejo e o "intermediário" ainda têm exposições muito pequenas, em torno de 5% da carteira.

Nicole Drapkin, senior managing director da Blue Owl, destacou que o modelo de sucesso agora é oferecer exatamente o mesmo portfólio para o investidor institucional e para o varejo, sem "escolher cerejas" diferentes para cada canal.