Os grandes investidores estão em busca das grandes tendências que vão moldar o mundo e os investimentos nos próximos anos, como inteligência artificial (IA) e transição energética. Mas, na visão do recém-criada family office Longview Capital, dois temas estão sendo esquecidos: a ascensão da Ásia e o fim da globalização.

“Creio que possamos estar hoje no inverso do que foi 1989, em que o ocidente ganhou a batalha narrativa e o mundo se tornou mais liberal e globalizado” afirma Enio Shinohara, sócio-fundador e diretor de gestão da Longview Capital.

“Estamos indo para um mundo mais ‘mercantilista’, em que cada país tenta focar nos seus próprios interesses econômicos e políticos”, complementa ele, citando uma visão de Ray Dalio, da Bridgewater.

Shinohara, que foi head de fund solutions do Credit Suisse/UBS e sócio do BTG, decidiu criar a Longview com Vinícius Xavier, um ex-UBS Wealth Management, e Leticia Higuchi, também ex-BTG, para atender a famílias de grandes fortunas com, ao menos, R$ 150 milhões de patrimônio com visão de longo prazo. Neste início, atende seis famílias.

Para a Longview, a gestão desses portfólios está pautada na ideia de que é preciso abandonar o automatismo que dominou a internacionalização do patrimônio de muitos brasileiros na última década, ou seja, os EUA como centro do mundo, o dólar como sinônimo de moeda forte e tecnologia como tema exclusivamente americano.

Do total sob gestão da casa - um valor que ele não pode revelar -, menos da metade do patrimônio das famílias está nos EUA. O foco maior está sendo no resto do mundo, e não propriamente na Europa, onde os brasileiros também olham, mas na Ásia.

“A Europa infelizmente ficou para trás na parte tecnológica, e estamos focando mais em setores de alto crescimento na Ásia, como Japão e principalmente China. Vemos muita gente concentrando apostas em tecnologia nos EUA e para nós isso é um erro”, diz Shinohara.

Na visão dele, a disputa em IA é binária entre as duas potências, mas de forma diferente. Enquanto nos EUA é sobre os hyperscalers e data centers, na China é mais sobre desenvolver modelos mais baratos e incorporar mais rápido ao processo industrial e ao consumidor final.

Como exemplo tem os robôs industriais, drones, veículos elétricos. E para capturar isso, a gestão ocorre selecionando diversos ETFs setoriais globais. Hoje dois terços do patrimônio líquido estão em fundos de índices.

Mas o family office também tem uma boa parte da gestão em ativos ilíquidos de longo prazo. E para essa fatia estão sendo analisados fundos de private equity chineses.

“Sabemos que é um investimento de risco, a China tem histórico de intervenção, mas desde o fim de 2024, o governo percebeu que precisava subsidiar a inovação em tecnologia e está criando um ecossistema disso. E não capturar essa evolução por lá também é um risco”, afirma Shinohara.

Também ganham espaço na fatia ilíquida hedge funds globais, que após passarem por um inverno de cerca de 10 anos até 2019, performando abaixo da bolsa americana, desde 2022 vivem um renascimento e voltam a entregar bons resultados - a seleção dos gestores é feita por Shinohara, que tem mais de 30 anos de experiência na seleção de fundos internacionais em grandes bancos.

Longview Capital family office
Leticia Higuchi, Enio Shinohara e Vinícius Xavier, da Longview Capital

Como resultado, a diversificação da moeda também é grande no portfólio, com o dólar ocupando cerca de dois terços e o restante estando em outras moedas fortes e ouro, que já está começando a ser trocado em parte por outras commodities estratégicas, como metais industriais. Seguindo o que grandes potenciais estão fazendo para se proteger de pressões geopolíticas.

Já no Brasil, para ele a maior oportunidade está em renda fixa atrelada à inflação, como as NTN-Bs. E na parte de crédito, ou são produtos isentos de imposto ou bons fundos de special situations, descorrelacionados com o momento macroeconômico do país.

O plano da Longview

A Longview Capital foi criada para ser um family office boutique, atendendo a poucas famílias qualificadas e de grandes recursos, sem outras verticais de negócio. O plano não é capturar um grande número de clientes, mas a visão é que dá para dobrar a operação das atuais seis famílias para 12.

“Tínhamos bem claro que ou a gente seguia um modelo de wealth de escala, atendendo a clientes menores e sendo muito grande, ou de boutique, atendendo poucas famílias de alto patrimônio. E vimos que nosso diferencial estava na segunda opção”, diz o sócio-fundador.

Os primeiros clientes foram famílias de seu relacionamento há mais de 15 anos no mercado, que o procuraram para fazer esse mandato. E o crescimento será no boca a boca de recomendação, já que não há previsão de se ter um time comercial, mas que os clientes sejam atendidos diretamente pelos sócios.

Nos EUA, wealths boutiques assim são bem comuns, mas aqui no Brasil são poucos, sendo a principal referência a Pragma, que atende a poucas famílias com tickets maiores que US$ 100 milhões. Mas com o crescimento do mercado como um todo, esse tipo de estrutura tende a se multiplicar.