A temporada de balanços do primeiro trimestre começa nesta semana, com os números da Usiminas, na sexta-feira, 24, e ganha tração na próxima, quando estão previstos os resultados de nomes como Santander, Suzano e WEG.

Com empresas mais endividadas do que há um ano e a taxa de juros ainda em patamares elevados, a expectativa é de uma temporada desafiadora. Pelas projeções do BTG Pactual, 43% das 126 companhias abertas sob sua cobertura devem apresentar piora no resultado no primeiro trimestre — seja por queda de lucro, aumento de prejuízo ou reversão para o vermelho.

Parte dessa deterioração, porém, não vem da operação, mas do custo da dívida. Na linha operacional, o quadro é mais positivo: o BTG projeta que 74% das companhias devem registrar crescimento de EBITDA na comparação anual.

No fim do primeiro trimestre, a taxa Selic, referência para os juros da dívida corporativa, caiu 0,25 ponto percentual, para 14,75% — abaixo das projeções mais otimistas de uma primeira queda de 0,5 p.p. e insuficiente para provocar um alívio nas despesas financeiras.

Entre as empresas que devem apresentar piora na última linha, quase metade deve mostrar melhora operacional, indicando que a pressão está concentrada no resultado financeiro. Essa dinâmica deve se repetir em diferentes setores da economia.

Um exemplo é a Vulcabras. A companhia encerrou 2025 com uma dívida líquida de R$ 769,4 milhões, frente a R$ 22,6 milhões um ano antes. A maior parte dessa captação ocorreu no segundo semestre, o que vem elevando as despesas financeiras.

No quarto trimestre, as despesas financeiras somaram R$ 47,3 milhões, alta de 90% em relação ao mesmo intervalo de 2024, pressionando o resultado financeiro líquido, que passou de um saldo positivo de R$ 1,7 milhão para uma despesa de R$ 20,4 milhões. Com o custo da dívida mais alto, o lucro da dona da Olympikus caiu 6,1% no período, mesmo com o EBITDA avançando 14,8%.

Para o primeiro trimestre, o BTG projeta uma queda de 18,2% no lucro líquido da Vulcabras, enquanto o EBITDA deve crescer 10,6% na comparação anual.

Essa pressão financeira tem sido ainda mais intensa no caso da Dexco. Para o primeiro trimestre, o BTG projeta um crescimento de 26,1% no EBITDA, mas uma queda de 36,4% no lucro líquido.

No quarto trimestre de 2025, a dona da Deca registrou um prejuízo financeiro de R$ 222,5 milhões, 42,4% superior ao do mesmo período de 2024. Com a dívida corroendo o resultado, a Dexco encerrou 2025 com queda de 46% no lucro líquido, mesmo com o EBITDA avançando 12% no quarto trimestre.

O aumento das despesas financeiras, segundo a empresa, foi motivado pelo maior endividamento médio e pelos juros considerados em patamares ainda elevados pela companhia.

No setor imobiliário, o cenário é semelhante com a Multiplan, que em 2025 sofreu um aumento de 179% em seu prejuízo financeiro, para R$ 537,7 milhões. Segundo o BTG, no primeiro trimestre, o lucro da companhia deverá encolher 25,1%, mesmo com um EBITDA em alta de 0,9%.

“Uma alavancagem ideal é muito teórica, porque depende muito do nível de juros. Já estivemos confortáveis com três vezes (dívida líquida/Ebitda) a um nível de juros diferente. Hoje, temos 2,33 vezes”, disse o CFO da Multiplan, Armando D'Almeida Neto, na apresentação do último resultado, em fevereiro. “Esses juros a gente não tem controle de quanto será.”

De lá para cá, as expectativas de um ciclo de queda de juros mais intenso deram lugar a preocupações sobre os efeitos econômicos das guerras do Oriente Médio, levando o mercado a revisar para cima as projeções de Selic e inflação.

No Focus desta segunda-feira, 20, economistas passaram a projetar juros a 13% no fim do ano, ante o consenso de 12,5% na semana passada. As expectativas de inflação também têm se deteriorado significativamente, com o mercado projetando IPCA a 4,88% para 2026, 0,63 ponto percentual acima do esperado há quatro semanas.

Nesse cenário, a pressão sobre o resultado financeiro deve continuar sendo um dos principais vetores de deterioração dos lucros ao longo do ano, muitas vezes ofuscando uma melhora operacional.