Março foi um mês marcado pela especulação e aumento de importação de combustível no mercado nacional. O período também foi caracterizado pela cabotagem, com a intensa movimentação entre os portos locais para transferir os barris de petróleo.
Esse efeito "pingue-pongue" do combustível é explicado pelo risco real de desabastecimento no Brasil, especialmente na região Sudeste, em razão do fechamento do Estreito de Ormuz provocado pela guerra entre Irã e Estados Unidos.
O exemplo dessa movimentação está nos números do Porto de Santos, que praticamente quadruplicou o volume de importação de gasolina, em relação ao resultado de fevereiro, com um aumento de 278% na quantidade que foi desembarcada.
Quando se olha a cabotagem, o maior complexo portuário da América Latina registrou uma alta de 11,5%.
Dados da Autoridade Portuária de Santos (APS) mostram que, no mês passado, chegaram em Santos 134.709 toneladas de gasolina, contra 36.575 toneladas importadas em fevereiro.
Entre os terminais portuários brasileiros, a movimentação do combustível também cresceu, justamente para suprir esta demanda, atender o mercado nacional e afastar o perigo da escassez nos postos. Foram 134.914 toneladas em março, ante 120.934 toneladas registradas em fevereiro.
“Houve uma grande especulação que gerou uma alta no preço do petróleo e o risco do prolongamento do fechamento do Estreito. Estes fatores fizeram com que houvesse uma corrida para desembarcar rapidamente a gasolina, para abastecer o mercado brasileiro”, diz Anderson Pomini, presidente da Autoridade Portuária de Santos (APS), ao NeoFeed.
Outro ponto levantado pelo executivo para explicar o aumento do volume foi a recente valorização do real sobre o dólar, o que, na prática, fez com que o produto importado ficasse relativamente mais atraente, ainda mais em um momento de incerteza sobre a garantia do abastecimento.
Em março, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) adotou série de medidas para garantir o estoque de gasolina e óleo diesel no País. Entre elas, implementou um monitoramento mais severo dos volumes de cada distribuidora e um acompanhamento sobre possíveis abusos de preços aplicados ao consumidor.
Dados da agência mostram que, em 2025, o Brasil registrou um aumento de 27,6% no volume de importação de gasolina.
No ano passado, toda a movimentação de combustíveis no porto de Santos, incluindo embarque e desembarque de gasolina, óleo combustível e diesel, foi de 9,6 milhões de toneladas. Somente nos três primeiros meses de 2026, já passaram pelos terminais três milhões de toneladas.
“Além da Petrobras, muitos outros fornecedores independentes de combustíveis, que vendem para postos de bandeira branca, também aumentaram seus pedidos. O que percebemos foi a busca para aumentar a oferta e garantir uma segurança no mercado”, diz Pomini.
A carga que chega ao porto de Santos vem de diversos locais, como Estados Unidos, Rússia e o próprio Oriente Médio. Na prática, os pedidos foram acelerados para que o impacto no preço fosse o menor possível.
Além do crescimento direto das embarcações em Santos nos últimos 30 dias, por causa da necessidade de mercado, a Autoridade Portuária adotou um sistema de prioridade de embarque de navios com combustível.
Na prática, este movimento faz com que a embarcação “fure a fila” e reduza o tempo médio em que aguarda, na área de fundeio, para que um berço de atracação esteja liberado. Em média, um navio demora cerca de três dias para atracar. Agora, os que trazem o derivado de petróleo praticamente não esperam.
Segundo o dirigente portuário, a tendência é que este ritmo acelerado seja mantido pelo menos até o fim do conflito geopolítico. Hoje, o porto de Santos tem 66 berços de atracação, para receber todas as cargas, incluindo grãos, contêineres, granéis líquidos e combustíveis.
“Tivemos casos de pedidos de preferência. Neste momento, o desembarque de combustível no porto de Santos é prioridade. Ninguém sabe o que pode acontecer daqui para a frente em relação à guerra”, afirma o presidente da APS.
Pomini acredita que, com esta corrida marítima, a tendência é que a receita no terminal portuário santista registre um crescimento no primeiro trimestre, ainda não consolidado. “Só a Autoridade Portuária pode quebrar a fila, quando há interesse público e alguma situação que possa afetar a economia do País. É o que estamos vivendo neste momento.”
Poucas semanas antes do início do tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em abril do ano passado, o porto santista enfrentou uma corrida de navios, só que no sentido contrário de agora.
“Estamos vendo algo parecido, só que na outra direção. Na época, os exportadores de carne não queriam ser impactados pela nova taxa de importação. E agora as empresas querem garantir o estoque de gasolina, enquanto esperam o fim da guerra”, afirma Pomini.
No primeiro trimestre de 2026, a movimentação de cargas em Santos alcançou 42,8 milhões de toneladas, somando todos os produtos. o volume é superior ao que foi alcançado em todo o ano de 1999, com 42,7 milhões.
O terminal de Santos movimenta hoje quase 30% de toda a carga comercial brasileira. A China foi a principal parceira. O valor transacionado entre janeiro e março com o país asiático foi de US$ 13 bilhões, contra US$ 4,4 bilhões dos Estados Unidos.
No ano passado, a Autoridade Portuária de Santos fechou com receita de R$ 1,4 bilhão e R$ 4 bilhões em caixa.