Há um ano, dezesseis Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagro) carregam algum tipo de ativo problemático. E sete dos nove fundos mais líquidos da B3 convivem com atrasos ou desenquadramento de garantias.

É nesse cenário que a JiveMauá decidiu estrear no mercado e colocar o seu JiveMauá Agronegócio Fiagro (JMAG) para ser negociado na Cetip. Com R$ 25 bilhões sob gestão, a gestora especializada em distressed assets vai aproveitar os erros alheios para ser credora no agro.

“Estamos entrando em operações com garantias reais e aproveitando um ciclo mais negativo para selecionar melhor os riscos. Fica muito mais fácil tomar decisão”, diz Samer Serhan, CIO de crédito privado, infraestrutura, agronegócio e previdência da JiveMauá, ao NeoFeed.

O JMAG nasce com uma carteira de mais de R$ 500 milhões. A cota sênior - acessível ao investidor geral - tem retorno-alvo de 15% ao ano, líquido de custos, em série pré-fixada com prazo de seis anos. A oferta pública é coordenada pela XP.

Mas o que ajuda a explicar o diferencial do Fiagro da JiveMauá é a estrutura de subordinação do fundo. Essa cota subordinada equivale a 15% do patrimônio (R$ 75 milhões) e funciona como uma “linha de defesa”.

Isso significa que todos os custos da estrutura e eventuais perdas iniciais passam por ela antes de qualquer impacto na cota sênior. Na prática, o investidor só começa a perder depois que a gestora já tiver absorvido integralmente esse montante.

“O cotista sênior só perde R$ 1 se a JiveMauá perder os R$ 75 milhões primeiro”, afirma Paulo Fleury, gestor de agronegócio da JiveMauá.

Com uma estrutura de subordinação de 15%, o JMAG está na faixa superior da indústria, onde muitos gestores operam entre 10% e 12% e, em alguns casos, até abaixo de 5%.

Há fundos com níveis mais altos no papel, de 20% ou 25%, mas sem capital próprio da gestora absorvendo a primeira perda. É nesse ponto que a JiveMauá colocou o seu diferencial: os R$ 75 milhões são capital de fundos existentes da casa assumindo o primeiro impacto.

O JMAG também se diferencia pela forma como entra nesse mercado. Em vez de buscar diversificação futura, o fundo estreia com uma carteira de 22 operações e um pipeline superior a R$ 800 milhões, com expectativa de alocação completa entre 60 e 80 dias.

As operações estão distribuídas entre diferentes instrumentos, como FIDCs, certificado de recebíveis do agronegócio (CRAs), crédito ao produtor rural (CPRs), debêntures e estruturas de sale and leaseback, em subsetores do agronegócio, de insumos e máquinas a produtores rurais, indústria alimentícia e distribuidores.

A entrada no agro também reflete um movimento interno da JiveMauá. A vertical de crédito privado, criada em 2022, cresceu rapidamente e já soma cerca de R$ 5,5 bilhões.

Para ter uma mesa dedicada ao agronegócio, a gestora montou um time dedicado, com mais de 20 profissionais entre advogados e especialistas financeiros. E, no fim do ano passado, trouxe Fleury para liderar a estratégia – ele passou por casas como Valora, Solis e eB Capital, além de ter sido gestor do FGAA11, da FG/A, um dos poucos Fiagros que atravessaram o período recente sem problemas relevantes de crédito.

“Não tem um momento ideal que vamos acertar uma sazonalidade perfeita para entrar [no crédito privado para o agronegócio]. Isso importa menos. Mas como estamos entrando, isso, sim, é o nosso grande diferencial”, diz Serhan.

Ambiente de mercado

Lançar um Fiagro em 2026 pode parecer contraintuitivo. O setor enfrenta queda de preços de commodities, custos elevados e uma sequência recente de recuperações judiciais.

Mas é justamente o tipo de ambiente que favorece uma estratégia mais disciplinada. “Quem tinha que dar problema já deu. Agora conseguimos estruturar operações com garantia, governança e prazo”, diz Fleury.

JiveMauá Fiagro agronegócio
O sócio Samer Serhan e o gestor Paulo Fleury, da JiveMauá

Por isso, para entender o timing do fundo da JiveMauá, é preciso olhar para o que deu errado na indústria de Fiagros.

No fim de 2024, o Fiagro IAGR11, da SFI Invest, virou símbolo de um problema que o mercado preferia ignorar. Lançado a R$ 11 por cota, com promessa de dividendos isentos e risco controlado, o fundo viu seu patrimônio derreter quando quatro grandes devedores do agronegócio entraram em recuperação judicial quase simultaneamente.

No portfólio do fundo, 60% estava em CRAs de Três Irmãos, Piva, Mitre e Castilhos. A cota caiu para R$ 3,97. Mais de 338 mil investidores amargaram perdas relevantes, em alguns casos superiores a 30%. O IAGR11 não estava sozinho. O GCRA11, da Galápagos Capital, chegou a ter 34% do patrimônio exposto aos mesmos emissores.

O primeiro problema desses Fiagros foi a concentração, o que mostrou que um portfólio mal distribuído pode comprometer o fundo inteiro. O segundo foi a fragilidade das garantias. Parte relevante dos Fiagros problemáticos operava com penhor ou avais de difícil execução, o que, na prática, colocava o investidor na fila da recuperação judicial.

E o terceiro ponto foi a falta de especialização. Em meio ao boom do setor, gestoras generalistas entraram no agro pressionadas por captação e acabaram assumindo riscos que não dominavam.

Uma das pioneiras em investimentos com a compra de créditos podres, reestruturação de empresas em recuperação judicial ou liquidação de ativos para recuperar valor, a JiveMauá pode usar essa reputação e DNA no JMAG - ainda que o Fiagro não seja, ele próprio, um fundo de special situations.

“Agora é permitido que fundos que vão para o público geral, como esse que estamos levantando, possam investir em empresas que estão em recuperação judicial”, afirma Serhan.

A condição, detalha ele, é que a recuperação judicial esteja consolidada e os recebíveis estejam performados, ou seja, a empresa já saiu do caos e tem fluxo de caixa previsível.

O JMAG poderá alocar uma parcela pequena em ativos com esse perfil, desde que a estrutura de proteção ao cotista sênior seja respeitada.

Mas Serhan pondera que esse tipo de oportunidade tem mais a ver com o fundo distressed da casa do que com o Fiagro de crédito privado.

Hoje, o mercado de Fiagros supera R$ 40 bilhões. “Se compararmos com os fundos imobiliários e o tamanho do agronegócio, é razoável projetar um mercado acima de R$ 200 bilhões nos próximos anos”, diz Fleury.