Nova York - Em uma escola pública primária no Bronx, em Nova York, um grupo de meninas amantes do basquete enfrentava um desafio no recreio: os meninos ocupavam as duas únicas cestas disponíveis, deixando as miniatletas de lado.
O problema foi resolvido quando - a pedido delas - a marcação do piso ao redor de uma das cestas foi pintada de rosa. A cor não impede ninguém de jogar, mas os meninos passaram a evitar aquela cesta, dando às garotas chances iguais de praticar o esporte.
Este é um exemplo de uma transformação gradual que vem tornando os pátios de escolas públicas em Nova York - normalmente asfaltados e inóspitos - em espaços verdes, vibrantes e comunitários.
A iniciativa é realizada pelos profissionais da Trust for Public Land, uma organização nacional fundada em 1972, cujo objetivo é conectar comunidades à natureza, preservando áreas verdes.
Atualmente, mais de 5 milhões de nova-iorquinos moram a uma distância de no máximo dez minutos a pé de um parque, pátio escolar ou trilha desenvolvidos pela entidade. Entre eles, o Long Island Greenway e o Queensway, em fase de expansão.
Em Nova York, mais de 240 pátios foram reinventados nos cinco distritos. Há cerca de 950 em toda a cidade, muitos aguardando transformação. Todos os projetos são realizados em escolas públicas, com conclusão de 30 projetos até 2030.
“Transformamos estas áreas, que lembram estacionamentos, em espaços com vegetação, capazes de absorver água fluvial e reduzir o calor”, diz ao NeoFeed Tamar Renaud, especialista em saúde pública e diretora da Trust for Public Land do Estado de Nova York há dois anos.
“Estas iniciativas também servem para ensinar responsabilidade cívica às crianças, que participam do processo de design junto com arquitetos paisagistas”, complementa.
O processo de cada pátio envolve o engajamento de alunos, professores e funcionários para entender o que aquela comunidade deseja para o espaço. Um grupo de estudantes participa diretamente do design, aprendendo sobre planejamento, orçamento e profissões relacionadas.
Eles medem o terreno e decidem como organizar os elementos, equilibrando preferências e limitações de espaço e de orçamento. Após a construção, há acompanhamento para garantir a manutenção adequada das áreas verdes.
As renovações utilizam materiais e técnicas de infraestrutura verde, como superfícies permeáveis e plantio de árvores, embora ainda incluam áreas pavimentadas destinadas ao uso esportivo. Tamar nota que, hoje, muitos empreiteiros já têm conhecimento dessas práticas.
Normalmente, os projetos ocorrem em áreas com menor acesso a parques e espaços de lazer, muitas vezes em comunidades de baixa renda. Por isso, uma das condições para a renovação destes espaços é que eles sejam abertos ao grande público nos finais de semana.
“Muitas vezes, um vereador que busca impacto em sua comunidade nos procura porque sabe que concluiu projetos em 18 meses, um prazo considerado relativamente curto”, explica Tamar. "O próximo passo é verificarmos se há interesse da escola local. Em outros casos, são as escolas ou as associações de pais que nos procuram."
O financiamento vem de várias fontes. Em áreas com histórico de alagamentos, há o apoio do Departamento de Proteção Ambiental. Também há recursos provenientes da Autoridade de Construção Escolar, do Departamento de Educação, de vereadores, de presidentes de distritos, de congressistas e, em alguns casos, de iniciativas ligadas à prefeitura e à justiça climática.
“Esses órgãos querem evitar a sobrecarga dos sistemas de esgoto durante tempestades, que têm tornados mais frequentes. Nos últimos anos, uma cidade foi afetada por temporais que antes ocorriam a cada cem anos”, repara Tamar.
Nacionalmente, o Trust for Public Land já transformou mais de 350 pátios escolares em 26 estados, incluindo cidades como Atlanta, Filadélfia e Los Angeles. Segundo a organização, quase 28 milhões de crianças americanas ainda não têm acesso a um parque próximo de casa: os novos pátios são uma das formas mais eficazes de reduzir essa lacuna.
Em fevereiro passado, a organização anunciou, em parceria com outras instituições nacionais, uma versão repaginada da Agenda de Ação dos Pátios Escolares Verdes , prevendo que, até 2050, todas as comunidades dos Estados Unidos tenham acesso a pátios escolares verdes comunitários.
Uma agenda serve como um guia para que organizações, profissionais, formuladores de políticas, financiadores e defensores ajudem na expansão dessas áreas em larga escala.
“Trata-se de um modelo replicável globalmente: depende de prioridades locais, de fontes de financiamento e de apoio político”, diz Tamar — filha de uma carioca, ela fala português fluentemente e tem uma forte ligação com o Brasil:
"Uma infraestrutura verde pode ser um fator motivador, especialmente em locais com problemas de enchentes. A implementação é facilitada pelo fato do terreno já pertencer ao poder público. Também é importante identificar fontes de financiamento, como órgãos públicos ou a filantropia, e contar com uma liderança comprometida".
Tamar enfatiza que, quando há vontade política, os projetos avançam: investimentos em parques geram retorno econômico, economizam custos com saúde e, com a gestão de águas pluviais, melhoram a qualidade de vida.
Ela cita um estudo sobre a "epidemia da solidão" , divulgado em 2023 então pelo apelo-geral dos Estados Unidos, Vivek Murthy: “Pessoas com acesso a espaços verdes tendem a ser mais felizes, pois contam com locais para lazer, convivência e bem-estar”, ressaltando ela. Os parques que preservamos e os pátios revigorados fazem parte desta busca por conexão, saúde física e mental”.