Após quatro anos e cinco meses, o sino da B3 voltou a tocar para anunciar uma oferta pública inicial de ações (IPO). Nesta segunda-feira, 11 de maio, a Compass, companhia de gás controlada pela Cosan, fez sua estreia na bolsa, com o ticker PASS3, mas a mensagem do mercado é que não vai ter tão fácil reabrir essa avenida com boas oportunidades.

No primeiro pregão, o papel da companhia operou em queda durante praticamente todo o dia, salvo os minutos, em que subiu quase 1%. Por volta de 16h30, as ações eram negociadas a R$ 27,20, 2,9% abaixo do preço inicial, de R$ 28.

No fim do dia, a companhia registrou uma desvalorização de 2,18%, fechando a R$ 27,39 por ação. A queda foi superior ao Índice Bovespa, que encerrou o pregão com retração de 1,19%.

O volume final de ações negociadas ultrapassou 10,2 milhões. O valor inicial já havia sido definido a partir do piso da faixa indicativa, entre R$ 28 e R$ 35 por ação.

Para o analista Caio Borges, da Eleven Financial, o mercado de ações no Brasil ainda enxerga preocupações com a retomada e, agora, é necessário entender a convergência entre o preço pelo qual a controladora está disposto a venda e o quanto o mercado aceita pagar.

“Ainda percebemos os investidores cautelosos com o mercado acionário, principalmente porque a renda fixa, com os juros nos patamares atuais, vem se mostrando uma concorrente forte pelo capital do investidor”, afirma Borges.

“Soma-se a isso a saída de capital estrangeiro do país observada nas últimas semanas, fator que também pode ter pressionado a empresa no pregão de hoje”, completamente.

De qualquer forma, segundo o analista, a tendência é que a curva se reverta ao longo do tempo, e que a ação da empresa do mercado de infraestrutura passe a fazer parte das recomendações de portfólio.

“A chegada de uma nova ação à bolsa é sempre bem-vinda para o investidor, isso porque amplia o leque de opções para alocação de capital. Acreditamos que, ao longo dos próximos anos, a empresa deve se consolidar como uma boa pagadora de dividendos, dada a previsibilidade de suas operações”, afirma o analista da Eleven.

O ponto-chave, ainda segundo Borges, está relacionado ao período de um possível “conflito” entre o que é melhor para a empresa, que ainda precisa realizar investimentos para ampliar sua área de cobertura, e o que é melhor para a Cosan, que ainda deve seguir firme no caminho para a desalavancagem.

Na visão de João Neves, analista da EQI Research, o IPO da Compass pode ser visto sob duas óticas distintas: a primeira é a de que, de fato, é um sinal claro da reabertura de mercado. Por outro lado, ainda não representa, necessariamente, uma normalização ampla do mercado de ofertas.

“Apesar de o Ibovespa estar próximo de suas máximas históricas e ter apresentado uma forte performance nos últimos 12 meses, esse movimento ainda se concentrou, em grande parte, nas empresas de maior capitalização e maior liquidez”, afirma Neves.

“As companhias de menor porte, que costumam compor uma parcela relevante da fila de potenciais IPOs, ainda negociam a múltiplos significativamente abaixo dos seus patamares históricos, o que tende a dificultar novas ofertas em condições atrativas para os acionistas vendedores”, completamente.

Esta não foi a primeira vez que a holding controlada por Rubens Ometto tentou abrir o capital da Compass. Em 2020, logo depois que foi criada, a companhia ensaiou sua oferta inicial, mas recuou devido às condições desfavoráveis do mercado, naquele momento.

A companhia divulga na próxima quarta-feira, 13 de maio, após o fechamento do mercado, o resultado financeiro do primeiro trimestre deste ano. A teleconferência com os executivos da empresa será no dia seguinte, 14.

Em 2025, a Compass alcançou receita líquida de R$ 16,6 bilhões, queda de 10% sobre o resultado alcançado no ano anterior. O lucro líquido, de R$ 1,46 bilhão, foi 31% inferior ao reportado em 2024.

A concepção da Compass surgiu a partir da aquisição, pela Cosan, de 60,05% do capital social da Companhia de Gás de São Paulo (Comgás), em 2012. A transação fez parte de uma estratégia de diversificação do portfólio da holding, ampliando sua exposição ao setor de infraestrutura e energia.

Em 2017, a Cosan adquiriu uma participação adicional de 16,77% no capital da Comgás, anteriormente detida pela Shell. Esse movimento foi concluído em 2019, por meio de uma oferta pública de aquisição de ações (OPA), que resultou no fechamento de capital da Comgás.

Com isso, a Cosan passou a ter 99,14% da empresa. Em 2020, então, a Cosan criou a Compass, com o objetivo de concentrar, em uma única plataforma, os investimentos da holding no mercado de gás no Brasil.