Desde a semana passada, Carlos Eduardo Mazzei cumpre uma agenda intensa no exterior. A primeira parada foi na Stanford University. Ainda em maio, ele irá participar de um encontro com CIOs de todo o mundo, também em solo americano. Já no início de junho, seus destinos serão a China e Cingapura.

Nessa peregrinação, o diretor de tecnologia do Itaú Unibanco está levando o crachá e os planos de outra área do banco, ainda recente, mas que começa a ganhar relevância na operação, inclusive nos produtos ofertados a clientes: o Instituto de Ciência e Tecnologia Itaú (ICTi).

Criado oficialmente em abril de 2025, exatamente um ano depois de nascer como projeto-piloto, o ICTi estabeleceu suas bases no mercado brasileiro. E agora, em uma nova etapa desse roteiro, quer ganhar mais escala internacional.

“Hoje em dia, a ciência é muito conectada e, cada vez mais, as barreiras de fronteiras estão caindo por terra”, diz Mazzei, em entrevista ao NeoFeed. “Então, essas conexões lá fora permitem que a gente faça um catch-up em linhas nas quais o Brasil, de fato, ficou um pouco para trás.”

O instituto não está partindo do zero nessa jornada. O ICTi já acumula parcerias internacionais em estudos com a própria Stanford University e o MIT. Mas quer estender esse diálogo a outras instituições. E, para isso, um primeiro passo foi a abertura de um hub em Palo Alto, na Califórnia, no fim de 2025.

“Ainda é algo pequeno. É literalmente um escritório. O foco não é necessariamente criar um time local”, diz Mazzei. “Mas é importante estar ali. Para facilitar a interlocução com universidades e empresas, criar esses vínculos e fazer essas trocas. E um próximo passo é ir além dos Estados Unidos.”

Do discurso à prática, na largada dessa estratégia, o ICTi já mantém conversas, ainda em estágio inicial, com cerca de dez universidades fora do Brasil, e não apenas nos Estados Unidos. Na Europa, esse diálogo inclui, por exemplo, uma faculdade na Suíça.

Nesse mapa, uma das próximas e principais ambições, porém, é explorar as oportunidades na China, país onde Mazzei visitará quatro cidades, em duas semanas. E com o qual o Itaú já mantém um diálogo, mas como banco, e não via ICTi.

“A China tem uma dinâmica bem diferente dos EUA, 99% open source, com empresas que efetivamente abrem seus modelos ao público, como Alibaba, DeepSeek e Huawei”, diz. Ele observa que a ideia é encontrar linhas de colaboração com universidades no país, assim como já acontece no Brasil e nos EUA.

“Hoje, no mundo, mais de 50% dos pesquisadores de inteligência artificial (IA) nos laboratórios de ponta são chineses”, afirma Mazzei. “Fico impressionado com a capacidade do país olhar para a cadeia inteira e com a disciplina de execução. E numa escala surreal. É uma máquina.”

Enquanto mira essas engrenagens, o ICTi já mantém laços com 11 universidades brasileiras, entre elas, a Escola Politécnica da USP e a Universidade Federal de Goiás. Seu time inclui cerca de 90 profissionais, boa parte deles, cientistas de dados, além de 195 pesquisadores e bolsistas alocados em parceiros.

Alvo de um investimento de aproximadamente R$ 100 milhões do Itaú em 2025, o instituto tem cerca de 70 pesquisas em curso, centradas, principalmente, em cinco grandes temas: IA, computação quântica, robótica, neurociência e realidade estendida.

Carlos Eduardo Mazzei, diretor de tecnologia do Itaú Unibanco
Carlos Eduardo Mazzei, diretor de tecnologia do Itaú Unibanco

“O ICTi foi o instrumento perfeito no ecossistema do Itaú”, diz Mazzei. “O banco já tinha o Cubo, que se conectava com as startups e empresas. Faltava essa via de troca também com a academia.”

Da academia aos clientes

Ao fazer essa ponte, o instituto tem dois papéis bem definidos. O primeiro, de colaborar com o ecossistema científico brasileiro, produzindo propriedade intelectual para o País como um todo. E, o segundo, claro, de incorporar o que está sendo desenvolvido no portfólio e nas operações do banco.

Na primeira ponta, o ICTi já acumula 21 patentes depositadas – a meta é chegar a uma faixa de 40 a 50 até o fim de 2026. E, em abril, quando completou um ano, teve sua primeira patente concedida. Para se ter uma dimensão do feito, até então, o Itaú contabilizava duas concessões em 102 anos de operação.

A patente que inaugurou essa nova fase envolve o Enviesador, que identifica vieses implícitos e cria guard rails em sistemas de recomendação e modelos de inteligência artificial. E que teve origem no projeto da Inteligência Itaú, plataforma proprietária de IA generativa lançada no fim de 2024.

“Começamos a ver que os modelos, que são treinados com dados públicos, tinham diversos vieses não alinhados à nossa visão. De raça, de gênero, de região”, diz Mazzei. “Hoje, a nossa IA generativa está em diferentes áreas, tocando milhões de clientes. E essa solução já está embarcada em todas elas.”

Lançada em meados de 2025, uma dessas ofertas é a Inteligência de Investimentos Itaú, um agente de investimentos baseado em IA generativa. E que ajuda a ilustrar uma outra linha que, ao lado dessa tecnologia, responde hoje por cerca de 90% das pesquisas do ICTi: a computação quântica.

Para viabilizar uma assessoria de investimentos mais escalável e acessível, o ICTi criou um modelo inspirado em algoritmos quânticos que, diante do desafio de combinar um portfólio de milhares de ativos com os perfis de milhões de clientes, demanda menos capacidade computacional.

“Antes, nós tínhamos clusters de clientes e dizíamos e criávamos uma carteira recomendada para esses perfis”, explica Mazzei. “Agora, nós olhamos cada item num universo de milhares de produtos e recomendamos uma carteira efetivamente personalizada para cada cliente.”

Ele ressalta outro ponto além desse caminho para a hiperpersonalização. “Hoje, nós conseguimos fazer esse processo em um segundo e meio, dois segundos por cliente”, afirma. “O que antes levávamos horas para fazer para um cluster.”