Brasília — Em pouco mais de um mês à frente da Pasta, o novo ministro do Planejamento, Bruno Moretti, vem ganhando protagonismo dentro da equipe econômica, numa espécie de figura ascendente no governo, que já conta com a confiança pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo fontes do governo e Congresso ouvidas pelo NeoFeed nas últimas semanas.
Egresso da Casa Civil — onde era braço-direito do ministro Rui Costa — , técnico conhecido, com bom trânsito no Congresso Nacional e tido como um "executivo de governo", ele já conduziu desde abril as negociações na reta final sobre o projeto de lei que regulamenta a exploração de minerais críticos no Brasil, em nome do governo. E participou ativamente no desenho do pacote de medidas para conter os preços de combustíveis em meio à guerra no Irã.
Sem falar da proposta de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e do Projeto de Lei Orçamentária (PLOA), ambos para 2027, ou seja, o Orçamento que o próximo presidente terá que executar.
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Em algumas ocasiões, Moretti inclusive comandou entrevistas à imprensa no Palácio do Planalto, para explicar medidas fiscais também do escopo do Ministério da Fazenda contidas em decretos e outros normativos.
Como chefe do Planejamento, sua principal missão é encaminhar e gerenciar o Orçamento, em parceria com a Fazenda. Mas essa função chegou a ser desidratada, dada a presença apagada da ex-ministra Simone Tebet, na avaliação de fontes da Esplanada. Era comum ouvir até de seus auxiliares em Brasília que Tebet era da cota do partido (MDB) — ela foi senadora pelo Mato Grosso do Sul e tinha perfil mais político, diferente de Moretti.
Funcionário de carreira do próprio Planejamento desde 2004 e especializado em orçamento e políticas públicas, porém, o atual ministro tem intimidade também om outros temas de governo. E até pela trajetória anterior, como secretário especial de Análise Governamental na Casa Civil, ele carregou consigo, na volta ao Planejamento, pautas e ações que já vinha tratando antes, algumas até alheias à própria Pasta, conta uma fonte do ministério.
“Ele é uma figura ascendente dentro do governo”, diz ao NeoFeed o deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), que não é da base governista, mas como relator do PL de terras raras teve grande contato com Moretti nas últimas semanas.
Jardim conta que Moretti foi o ministro escolhido pelo Planalto como interlocutor do governo na discussão em torno da proposta, que foi aprovada pela Câmara na semana passada.
Antes de o projeto ir à votação, o ministro inclusive intercedeu junto ao relator a respeito da “anuência prévia”, atribuição de um novo conselho de governo que vinha causando ruído entre as empresas e advogados do setor de mineração.
Moretti, que foi presidente do Conselho de Administração da Petrobras até março, argumentou que seria inviável que todo o projeto de exploração, produção ou exportação de minerais críticos precisasse de uma autorização desse novo órgão colegiado previsto na proposta de lei.
O relator acabou retirando a anuência e passou a prever que os projetos deverão ser apenas homologados pelo novo comitê. “Ele concordou com a mudança, mas dialogamos antes e ele alertou que se isso não fosse bem colocado poderia gerar interferência no mercado.”
Ainda na época de Casa Civil, o deputado também lembra que chegou a tratar com Moretti sobre diversos projetos que também relatou na Câmara: "Combustível do Futuro”, marco do hidrogênio verde, e regulamentação de debêntures incentivadas.
Ao NeoFeed, Moretti disse que atuou em assuntos como o PL das terras raras e nas medidas de redução tributária dos combustíveis, sempre a pedido da Presidência da República. "Houve uma orientação para que eu apoiasse [esses dois assuntos do governo], sem prejuízo dos debates setoriais."
Ele pondera, contudo, que sua atuação fora do Planejamento foi pontual e ainda assim sempre se restringe a temas fiscais inerentes às competências do Planejamento. "Creio que sempre é dentro das minhas atribuições. Não acho que tenha uma formulação geral [do governo]. Vai depender caso a caso."
Casa Civil
O NeoFeed apurou que nos tempos de Casa Civil, Moretti também teve participação importante, por exemplo, da PEC da autonomia financeira e administrativa do Banco Central. E chegou a defender, em reuniões com parlamentares e técnicos do BC, que a proposta não afetasse as despesas primárias do governo.
Na Casa Civil, que coordena todos os demais ministérios, Moretti atuava na prática como um secretário-executivo, “tocador de piano”, que tratava e participava de praticamente todos os grandes temas do governo, muitos deles de política fiscal.
“O ministro era o Rui Costa, mas muitas vezes quem fazia a máquina girar era o Moretti”, relata uma fonte que conviveu com ele, na época de secretário.
O ex-ministro Costa, que saiu do governo para disputar uma vaga ao Senado pela Bahia, era conhecido como uma figura dura e acostumado a discussões acaloradas dentro do governo, principalmente com a Fazenda. Na Esplanada dos Ministérios era comum ouvir divergências entre Rui e Haddad, por exemplo.
Contudo, Moretti chegou até a ser cogitado para o Ministério da Fazenda, enquanto ainda se discutia quem seria o sucessor de Haddad. O fato de ser economista e já lidar com os temas fiscais do governo na Casa Civil fizeram despertar essa possibilidade, mas agora ministro ele tem uma relação azeitada com Durigan, diferentemente de seu ex-chefe Rui Costa, que protagonizou vários embates com o ex-ministro da Fazenda.
Uma fonte do setor elétrico que conhece Moretti avalia que sua postura discreta o habilita para transitar em diferentes áreas do governo e também no Congresso – o ministro também já trabalhou no Senado. E que sua posição na Casa Civil o credenciou para participar de grandes pautas do Executivo, mesmo como secretário. “Então é natural esse protagonismo”, diz a fonte.
Cofres públicos
Mesmo com prestígio dentro do governo e voz ativa em diversos assuntos, Moretti no entanto não escapa das incertezas nutridas por agentes econômicos e mercado em torno dos desafios fiscais, especialmente no ano que vem.
Para 2026, ainda na gestão Tebet, o governo se comprometeu com um superávit primário em ano de eleição (0,25% do PIB). E ainda repetiu a pedida para o ano que vem, independentemente de quem será o presidente da República, com projeção de novo superávit também, de 0,5%.
Para Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, que inclusive conhece Moretti “há tempos”, o ministro tem conhecimento e experiência em matérias fiscais e já desempenhava papel importante de endereçar também questões orçamentárias e tributárias, ainda no Planalto. E que agora ganha mais força nessa seara, como ministro.
Por outro lado, Salto argumenta que, apesar de caminhar para cumprir a meta fiscal de 2026 (por meio do abatimento de precatórios, combinado com o uso da banda inferior da meta e com a ajuda das receitas oriundas do petróleo), isso “não necessariamente indica um quadro positivo”.
“Não vemos dificuldade para a entrega do compromisso legal. Contudo, ainda vamos encerrar com déficit primário na casa de 0,4% do PIB, distante do superávit necessário para estabilizar a dívida/PIB”, afirmou ao NeoFeed. “Assim, a questão central não é cumprir a meta legal, mas como forjar um plano para elevar o resultado e voltar a gerar superávits a partir do ano que vem.”
Para o ano que vem, o economista é ainda mais cético. “Dificilmente a meta de 0,5% do PIB de superávit poderá ser cumprida. Considerando-se as informações que temos até agora, nossas projeções apontam para a necessidade de mudança da meta do ano que vem”, diz Salto.
De acordo com ele, é preciso lembrar que, após as eleições, ganhe quem ganhar, os meses finais deste ano devem ser usados para programar medidas que permitam fazer um ano inicial, no próximo mandato, mais duro, do ponto de vista fiscal. "Entendo que isso acontecerá, depois do segundo turno, mas é preciso aguardar que tipo de medidas e com qual profundidade virão.”