“Não estamos vivendo um estado de guerra absoluta da época de Clausewitz [século XIX], mas de guerrilha, de insurgência.” Foi com essa metáfora militar que Lucas Adib, CEO da Hapvida, resumiu o novo momento da operadora na teleconferência de resultados do primeiro trimestre, na tarde desta terça-feira, 12.
Enquanto Adib falava com investidores e analistas, as ações da Hapvida subiam mais de 10%, em reação a um balanço que trouxe melhora em frentes consideradas críticas pelo mercado, como a queda da sinistralidade caixa, o Ebitda acima das expectativas e a volta da geração de caixa positiva.
Adib foi confirmado na presidência na última semana, após Jorge Pinheiro deixar o comando da operação para assumir a presidência do conselho de administração. Apesar do cenário positivo em seus primeiros dias à frente da companhia de forma definitiva, o executivo deixou claro que o momento ainda não é de baixar a guarda.
“Não adianta ter um exército numeroso, mas de mobilidade complexa, numa batalha de litoral escarpado e acidentado”, disse Adib. “Para lidarmos com as particularidades locais, precisamos ter uma estratégia de dispersão geográfica maior e reduzir os gargalos decisórios a partir de uma descentralização responsável para a ponta.”
A mensagem por trás da metáfora é que a Hapvida quer passar a operar de forma mais regionalizada, com decisões praça a praça. Na prática, isso significa rever produto, preço, rede, marca e até a presença da companhia em determinadas regiões — incluindo a possibilidade de vender operações ou fechar unidades, ainda que temporariamente.
A própria nova estrutura de gestão indica essa mudança de prioridade. Ao apresentar Felipe Nobre como responsável por estratégia, relações com investidores, transformação e M&A, Adib disse que, por ora, a frente de fusões e aquisições será “só sell-side por um bom tempo” — em referência à venda de ativos.
A Hapvida não detalhou quais ativos ou regiões podem entrar na lista de venda, mas admitiu que pode fechar unidades em cidades onde houve redução relevante da base de vidas.
Nos últimos 12 meses, a companhia perdeu cerca de 115 mil vidas em planos de saúde, com a base recuando de 8,8 milhões para 8,68 milhões de beneficiários. No primeiro trimestre, a perda líquida foi de 44,5 mil vidas.
São Paulo é, ao mesmo tempo, o maior problema e o primeiro laboratório da nova estratégia da Hapvida.
No trimestre, a operadora perdeu 67,1 mil vidas no Estado, sendo 31 mil na região metropolitana e 36,1 mil no interior. Mas foi também em São Paulo capital que a companhia começou a revisar produtos, preços e a relação com corretores.
Nos últimos dois meses, porém, o varejo da região metropolitana registrou o melhor desempenho de adições líquidas desde a fusão com a NotreDame Intermédica, em 2022, segundo Adib. A ideia agora é replicar o modelo para outras praças, incluindo Sul, interior paulista, Rio e Minas.
O novo CEO afirmou que os primeiros resultados da mudança de abordagem na região animaram a companhia, mas ponderou que “ainda é cedo para comemorar”.
Apesar do recuo no número de vidas, a companhia conseguiu aumentar sua receita líquida em 5,2% na comparação anual, para R$ 7,89 bilhões. O crescimento da receita, mesmo com uma base menor em planos de saúde, é explicado principalmente pelos reajustes dos contratos. No trimestre, o ticket médio dos planos de saúde teve alta de 7,3% na comparação anual, para R$ 305.
“A discussão é muito específica, praça a praça, canal a canal”, afirmou Lucas Garrido, CFO da Hapvida, ao comentar a estratégia de precificação. A decisão, segundo ele, leva em conta “a competição, a nossa presença na praça, os competidores”.
O aumento de receita, somado à queda da sinistralidade no trimestre, ajudou a impulsionar o Ebitda ajustado da Hapvida para R$ 803,3 milhões, alta de 12,5% em relação ao quarto trimestre. Na comparação anual, porém, o Ebitda ajustado ainda caiu 20%. A margem Ebitda ajustada ficou em 10,2%, ante 9% no 4T25 e 13,4% no 1T25.
Na última linha, a companhia registrou prejuízo líquido de R$ 154,3 milhões, revertendo lucro de R$ 54,3 milhões no primeiro trimestre de 2025.
No primeiro trimestre, a sinistralidade caixa caiu de 75,5% para 72,2%, melhora atribuída principalmente a uma demanda menor por procedimentos médicos no início do ano e ao fato de que o trimestre anterior havia sido pressionado por cobranças de atendimentos realizados meses antes.
Segundo Adib, a Hapvida vem adotando uma postura mais seletiva, com uma leitura “praça a praça e contrato a contrato” da operação, priorizando receita e margem em vez de adições líquidas a qualquer custo.
Apesar da alta das ações nesta terça-feira, os papéis da Hapvida ainda acumulam queda de 14,6% no ano. Desde abril, quando os controladores aumentaram participação no negócio diante da tentativa da gestora Squadra de emplacar três conselheiros na companhia, as ações subiram cerca de 25,75%.