Conhecido por prever a bolha do mercado imobiliário em 2008, o que inspirou um livro e um filme, batizados de “A Grande Aposta”, Michael Burry ampliou sua fama nos anos seguintes ao disparar suas opiniões controversas sobre o mercado financeiro e o mundo dos investimentos.

Nesta semana, ele exercitou novamente sua "bola de cristal", por meio da sua newsletter na plataforma Substack. E voltou a abordar um tópico recorrente em suas previsões: a comparação entre o frenesi atual em torno da inteligência artificial (IA) e a bolha pontocom do fim da década de 1990.

“A história não é um guia perfeito, mas vejo muitos indicadores, tanto técnicos quanto fundamentais, convergindo para a mesma conclusão”, escreveu Burry, ressaltando que o hype em torno da IA é uma réplica das empresas de internet há quase trinta anos.

“O mercado de 1999 foi aonde nenhum outro mercado jamais foi. E eu diria que este também pode ir. Já está chegando lá, de acordo com vários indicadores”, prosseguiu ele, revelando que havia comprado mais ações da Adobe, PayPal e Lululemon. E adicionando uma série de paralelos entre os dois períodos.

“Essas ações fazem parte da queda em massa que está acontecendo longe do foco principal”, afirmou Burry. “Em 1999, isso também aconteceu. A velha economia e os investimentos internacionais foram simplesmente descartados em favor da bolha totalmente americana”.

Na sequência, ele citou Torsten Slok, sócio e economista-chefe da Apollo Global Management, que, em uma nota recente, disse que 87% do financiamento de capital de risco foi destinado à IA em 2026. E acrescentou que, em 1999, o volume destinado às empresas de internet era inferior a 40%.

Em outro dado, Burry pontuou que um índice semelhante de emissão de títulos de alto risco está relacionado à IA, assim como aconteceu com os setores de tecnologia, mídia e telecomunicações naquela época.

“A dívida de alto rendimento a 38% hoje, contra 40-50% naquela época, contradiz a ideia de que a emissão de dívida de IA de hoje é mais limpa, apoiada por empresas mais lucrativas”, escreveu. “É simplesmente uma bolha de ativos, pura e simplesmente.”

Ele também rebateu os argumentos de que o boom da IA não é como a bolho pontocom porque há mais empresas lucrativas sendo financiadas hoje do que naquele período, ao ressaltar que, hoje, os fundos de venture capital estão financiando empresas deficitárias como nunca antes na história. E muito mais do que em 1999.

“Quando as pessoas falam sobre empresas pontocom deficitárias, elas não só ignoram o fato de que as maiores máquinas de fluxo de caixa na época – empresas de telecom e de TV a cabo – faziam parte da bolha”, afirmou.

Ele prosseguiu: “Como também ignoram que, desta vez, há muito mais empresas deficitárias perdendo muito mais dinheiro, só que elas não abriram capital”.

Burry observou ainda que, assim como a atual corrida por data centers, a virada dos anos 2000 foi marcada pelo discurso da necessidade de expandir a infraestrutura global para apoiar e acompanhar o desenvolvimento da internet.

Ao mesmo tempo, ele questionou se a demanda das empresas por essa tecnologia crescerá nos próximos anos ou recuará em função de questões como recessão, guerras e revisões anuais de orçamento passado o “medo de ficar de fora” dessa onda.

Na outra ponta, o investidor disse que os consumidores não demonstraram nenhuma disposição para serem fontes significativas de receita para produtos de IA, dado que eles podem usar ferramentas como o ChatGPT para praticamente tudo, “de graça ou quase”.

Em outra postagem na plataforma, no início do mês, Burry já havia feito outros alertas sobre essa corrida, ao destacar que esse boom estava se encaminhando para um fim tão catastrófico quando à bolha da internet.

“O mercado já passou do ponto”, escreveu ele na oportunidade. “O fim disso está próximo. Tudo isso é a cena de um acidente sangrento de carro, minutos antes de acontecer”.