A disputa entre Shopee e Mercado Livre no Brasil ganhou uma nova frente: o crédito. Segundo levantamento do BTG Pactual com base em dados da CVM, os FIDCs ligados à Shopee cresceram 222% nos últimos 12 meses e atingiram uma carteira de curto prazo de R$ 5,8 bilhões.
“O ritmo de expansão sugere que a Shopee vem usando cada vez mais o crédito como parte de sua estratégia mais ampla de ecossistema no Brasil, indo além da competição no marketplace e avançando para fintech, funding e monetização de usuários”, diz o BTG Pactual em relatório.
O levantamento do BTG consistiu na análise dos dois FIDCs listados na CVM ligados à Shopee no Brasil: o Monee FIDC I e o Monee FIDC II. Segundo o banco, a principal engrenagem da expansão é o Monee FIDC I, veículo que existe desde cerca de 2022, mas que só passou a ganhar tração de forma mais agressiva a partir de 2025.
O tamanho da Shopee em FIDCs já equivale a cerca de 75% da carteira comparável do Mercado Livre nesse mesmo tipo de veículo, estimada em R$ 7,7 bilhões. O BTG, porém, observa que os FIDCs representam apenas 25% da carteira brasileira da companhia, que vem recorrendo cada vez mais a fontes alternativas de funding.
Ainda assim, para o banco, o avanço da Shopee chama atenção pela velocidade e pela escala já alcançada nesses veículos.
A carteira de curto prazo do Monee FIDC I saiu de R$ 1,47 bilhão em janeiro de 2025 para R$ 5,82 bilhões no dado mais recente — uma expansão de quase quatro vezes. A criação de um segundo fundo, o Monee FIDC II, no segundo semestre de 2025, é lida pelo BTG como um sinal de que a Shopee busca mais flexibilidade de funding e pode estar se preparando para uma ampliação adicional da oferta de crédito no País.
A documentação do Monee II também sugere uma estrutura pronta para ampliar o funding. Em maio, o fundo ajustou sua metodologia de provisionamento por atraso, e seu regulamento já prevê cotas seniores e subordinadas, com possibilidade de oferta automática.
Na avaliação do BTG, a expansão dos FIDCs da Shopee mostra que a disputa no e-commerce brasileiro deixou de estar restrita a GMV, subsídios de frete, take rates e logística. “O crédito está se tornando outra camada estratégica”, afirma o relatório.
Como os FIDCs da Shopee escalaram recentemente, porém, os analistas do BTG recomendam cautela com os níveis de inadimplência, que ainda podem estar favorecidos pelo baixo nível de maturação da carteira.
Nos dados compilados pelo banco, a inadimplência acima de 90 dias da carteira consolidada subiu de 1,4% em janeiro de 2025 para 3,0% em abril de 2026. Já os atrasos entre 1 e 90 dias caíram de 11,1% para 7,1% no mesmo período.
Para o BTG, os principais pontos a monitorar daqui em diante são a maturação da carteira e a migração para inadimplência acima de 90 dias.
A ofensiva da Shopee no crédito ocorre em um momento em que a disputa com o Mercado Livre vem se tornando cada vez mais intensa. Segundo o BTG, desde meados de 2025, o Mercado Livre acelerou investimentos em logística, preços, suporte a vendedores, frete grátis e crédito para sustentar sua liderança em escala, sortimento e experiência do consumidor.
O custo dessa estratégia já aparece nos números. No primeiro trimestre, a margem do Mercado Livre no Brasil caiu de 17,6% para 8,1%, pressionada por investimentos para manter o crescimento do e-commerce e por provisões ligadas à expansão do crédito.
Um relatório do BofA também mostra que a Shopee ainda liderava o tráfego combinado de app e site no Brasil, com 33,7% em fevereiro, mas o Mercado Livre reduziu a distância ao sair de 21,6% em maio de 2025 para 28%.