Nova York - Em 29 de junho, a Sotheby’s de Nova York levará a leilão a camisa azul número 10 que Pelé usou na mesma data, na final da Copa do Mundo de 1958, no Estádio Rasunda, em Estocolmo. Naquele jogo, o futebol brasileiro conquistou seu primeiro título mundial ao golear a Suécia por 5 a 2.
Aos 17 anos, Pelé marcou dois gols na partida, tornando-se o atleta mais jovem da história a marcar gols em uma final de Copa do Mundo, um recorde que permanece até hoje.
Estimada em mais de US$ 6 milhões (mais de R$ 30 milhões, pela cotação atual do dólar), a camisa é o principal destaque da série The Beautiful Game, que reúne objetos icônicos da história do futebol. Os lances podem ser feitos até 16 de junho e, nesse período, a camisa fica exposta com os demais itens em uma galeria da Sotheby’s, que recentemente se mudou para o Breuer Building, na Madison Avenue.
“Esta não é apenas uma camisa. Trata-se da peça usada por um dos maiores jogadores da história do futebol na noite em que seu reinado começou”, diz Brahm Watcher, diretor de Colecionáveis Modernos da Sotheby’s, ao NeoFeed.
“Ela foi entregue por ele próprio a um amigo [Dida] e preservada com cuidado por mais de seis décadas. Sua importância histórica não tem paralelo no mercado de memorabilia do futebol e está inseparavelmente ligada ao legado do primeiro verdadeiro ícone global do esporte”, complementa.
Em campo, o primeiro gol de Pelé, o terceiro do Brasil na partida, é considerado um dos mais belos já marcados em uma final: domínio no peito, um toque por cima do defensor e um chute sem pulo, antes que a bola tocasse o chão. Seu segundo gol, uma cabeçada espetacular nos minutos finais, confirmou a vitória.
Em 1958, quando os jogos ainda eram transmitidos via rádio, Pelé ainda não era o Rei do Futebol: o jovem ingressou naquela Copa como reserva. O time era composto por estrelas como Didi, Garrincha, Vavá e Nilton Santos.
Eles carregavam nas costas a responsabilidade de fazer bonito depois da goleada que o Brasil levou na final de 1950 contra o Uruguai no Maracanã. Inicialmente, a camisa número 10 pertencia a Dida (Edvaldo Alves Santa Rosa), seu companheiro de quarto durante os jogos. Foi Dida quem recebeu de Pelé a celebrada camisa da vitória.
Por décadas, a relíquia foi guardada pela família de Dida, em Maceió. Em 1993, ela foi doada ao acervo do Museu dos Esportes Edvaldo Alves Santa Rosa, na mesma cidade. Mas em 2004, o museu levou a camisa a leilão, na qual ela foi adquirida pelo atual proprietário.
A cor azul da camisa também faz parte da história: para se diferenciar do uniforme sueco, também amarelo, os brasileiros tiveram que providenciar camisas azuis às pressas, dias antes da partida - o chefe da delegação brasileira, Paulo Machado de Carvalho, disse aos atletas que a cor era em homenagem ao manto de Nossa Senhora Aparecida.
Os próprios jogadores improvisaram os números, cortando o tecido das bolsas de equipamento amarelas, além de transferir à mão o escudo da CBD (Confederação Brasileira de Desportos, nome usado até 1970) para as novas camisas.
The Beautiful Game inclui também o Alifabolaget #635 Pelé Rookie Card de 1958, uma figurinha de colecionador estimada entre US$ 150 mil e US$ 200 mil. Segundo o colecionador Ryan McCormick, a história do Alifabolaget data de quase um século, quando, em 1932, a empresa sueca Alifa passou a vender figurinhas junto com suas balas, começando com atletas olímpicos daquele ano, seguidas por coleções de estrelas de cinema e de personagens da Disney.
No site Hobby News Daily, McCormick escreveu que, para a Copa de 1958, a empresa produziu uma série de 35 figurinhas de papelão, medindo 3,2 cm por 4,7 cm. A coleção era composta por 31 jogadores e por quatro figurinhas das equipes finalistas: Suécia, Alemanha Ocidental, Brasil e França.
Numeradas de 615 a 650, a do Pelé é a 635. No verso, lê-se em sueco: “PELÉ, ponta-esquerda, o jogador mais jovem do torneio da Copa do Mundo, aos 17 anos. Talvez não seja tão estranho que ele tenha chorado quando a final da Copa foi vencida contra a Suécia. Recebeu muitas ofertas para se profissionalizar, mas, por enquanto, permanece no Brasil.”
Até 20 de maio de 2024, escreveu McCormick, 167 exemplares haviam sido identificados e avaliados por empresas certificadoras. De acordo com a ESPN, em 2022, um deles bateu recorde ao ser vendido à plataforma de colecionáveis Rally Rd por US$ 1,3 milhão. Naquele ano, a Sotheby’s de Londres leiloou uma camisa de Diego Maradona por US$ 9,3 milhões.
Em Nova York, a série The Beautiful Game leiloará ainda a braçadeira de capitão usada por Diego Maradona durante a Copa do Mundo de 1986, avaliada em mais de US$ 100 mil, e sete camisas usadas por Lionel Messi. Uma delas fez parte do jogo de vitória do Barcelona por 6 a 1 sobre o Paris Saint-Germain, em 8 de março de 2017, na famosa “La Remontada”, estimada entre US$ 200 mil e US$ 400 mil.
Levante a mão quem trocaria sete camisas do Messi por uma do Pelé.