A partir das minhas reflexões publicadas aqui no NeoFeed em novembro, compartilho agora uma segunda camada de aprendizados e percepções relativas a estes primeiros meses de experiência de vida solo, em que combino novas atividades e experimento a liberdade.

A liberdade nasce da combinação entre o desejo de autonomia, um novo projeto pessoal e o equilíbrio financeiro. Ela só é possível quando estamos totalmente reconciliados com a nossa própria história como principal referência de valor — e quando não nos incomodamos com os eventuais vazios associados à ausência de rotina e de uma plataforma definida.

Sob essa perspectiva, tem sido incrivelmente prazeroso — para não dizer delicioso — escolher o que fazer, com quem e quando. Não temos dimensão do valor de definir a própria agenda com tranquilidade, flexibilidade e sem culpa ou necessidade de prestar contas. A pressão contínua de gerenciar e maximizar o tempo frente a milhões de demandas simplesmente desaparece.

Posso estar vivendo algo efêmero, mas minha intuição enxerga esse momento como um ajuste de vida importante, uma grande conquista — possível apenas após uma jornada de evolução de consciência e redefinição de prioridades.

Uma das coisas mais incríveis que a liberdade permite é simplesmente ser você mesmo. Não há mais necessidade de negociar ou se moldar. As novas pessoas, temas e territórios são aqueles que você escolhe, com os quais se identifica e encontra sentido.

Esse universo pode ser menor, mais seletivo e menos visível — mas isso já não importa. Não há forma ou caixinha em que seja preciso se encaixar, nem medo de não ter confirmações, de rejeição ou de perdas. É um sentimento inédito, quase difícil de acostumar: a opinião do outro deixa de importar, e a sensação de pertencimento é plena quando você deixa de querer se provar ou dar respostas.

Tempo de experimentação

Com esses fundamentos, você entra em uma fase de experimentação. Pode testar novas atividades, temas, universos, pessoas, lugares e rotinas sem a obrigação de gostar, de dar certo ou de garantir qualquer estabilidade. A análise se torna mais tranquila e imparcial, permitindo aprofundar sem pressa e mudar de rumo quando quiser, fazendo escolhas totalmente conscientes.

A abundância e a seletividade

Agora você vive uma abundância de disponibilidade: tempo, recursos, intenções e possibilidades. De certo modo, quer se ofertar a esse novo mundo sem grandes amarras. Vive em modo “discovery”: explorando, aprofundando, mas com mecanismos sofisticados de “red flags”. Essa oferta genuína rapidamente se traduz em seletividade, com a facilidade de perceber o que já não faz sentido.

A ansiedade como energia para o movimento

A ansiedade continua sendo um elemento propulsor — move e consome ao mesmo tempo. Seria ilusório pensar o contrário. Mas o eixo dessa energia deixa de estar ligado ao quebra-cabeça exigente do mundo corporativo, com seus processos emergenciais, conflitos e influências estratégicas, e passa para o campo da mobilização em movimentos conceituais, emocionalmente significativos e de longo prazo.

A sensação é que você não empurra mais infinitos blocos móveis, mas sim paredes maiores e mais inertes. É um espaço cheio de intencionalidade para o bem, porém menos acostumado a mudanças constantes e decisões rápidas. Surge um novo aprendizado: calibrar a energia para o movimento — menos intensidade pontual, mais constância e paciência.

Da blindagem ao compartilhamento

Estando mais inteira, presente, sem camadas de proteção, blindagem ou defensividade — feliz e confiante — você consegue se aprofundar em teses, estudar, dedicar-se a temas e projetos complexos, compartilhando o seu melhor e alocando seus recursos em terrenos mais escassos. Surpreendentemente, isso amplia o apetite ao risco, a agendas mais ousadas e à identificação de novos talentos, com um novo ferramental à disposição.

Surge também uma nova capacidade de aprofundar relações: com pessoas que já eram importantes e com muitas novas. Relações em novos patamares, em universos similares ou muito diferentes, onde todos buscam significado, propósito, profundidade e verdadeira satisfação — querendo, de alguma forma, fazer diferença para si, para os outros e, quando possível, para a sociedade.

E como reconhecer o valor do seu tempo?

Mas o nosso histórico nos prega peças, e nos debatemos com essa nova forma de produtividade — agora com todo o tempo a nosso favor. Como definir o novo valor do tempo? Quando investir do próprio recurso nas novas causas? E será que essa nova oferta deveria ser parcialmente monetizável?

Esse elemento traz complexidade e um viés de vaidade que, a princípio, não queremos revisitar. É mais óbvio otimizar e trabalhar o próprio capital, investindo melhor ou empreendendo. Porém, transitar para novos critérios de performance, desassociados de resultados e reconhecimentos objetivos — onde existe uma dinâmica de reciprocidade mais intangível e fluida — segue sendo um ponto de interrogação.

Pergunto-me se isso ainda é relevante para mim, se exigirá uma atuação híbrida ou se é apenas uma inércia que ainda não superei.

A saúde se torna o seu principal ativo

Independentemente dos questionamentos, é impressionante como nos voltamos — quase obsessivamente — à questão da saúde em sua integralidade: física, mental e espiritual. Temos clareza de que, sem ela, não poderemos aproveitar essa nova fase com disposição e intensidade, ao mesmo tempo em que sentimos o peso dos anos de forma mais presente.

Há um acúmulo de práticas e convivência intensa com o estresse que cobrou seu preço. Dedicamo-nos fortemente ao resgate: alimentação, suplementos, atividade física, check-ups, conexões emocionais e espirituais — agora com mais espaço. Mas esse processo não é automático: são músculos negligenciados, novas atividades desconhecidas, inúmeras interpretações do que é saúde equilibrada e um certo medo de errar na dose, enquanto se quer viver as indulgências que essa fase permite.

As novidades

Viver uma nova fase é uma grande novidade. Tudo o que acontece no dia a dia se torna estimulante e divertido. Há leveza no ar.

Você descobre o mundo das ruas, as rotinas da cidade e das pessoas fora dos escritórios. Torna-se um nômade, descobrindo cafés, pontos de apoio e encontros pela cidade. Carrega tudo na bolsa porque tudo pode acontecer e mudar ao longo do dia. Explora a vida cultural e se permite pausas, atividades e viagens fora das agendas padrão — e o mais incrível: há muita gente fazendo o mesmo.

O tempo para o ajuste

O ajuste leva tempo. Você oscila entre o velho e o novo — o velho perdendo cor, o novo se firmando. Fica claro o que realmente te sustenta: seus pilares, suas competências verdadeiras e as relações que são genuinamente valiosas.

Não há mais cortinas, fumaça ou narrativas bem trabalhadas. É só você — pronta, forte — diante do mundo que quer construir. O melhor teste possível de competência e autoestima.

* Maitê Leite atua hoje como conselheira, mentora estratégica e investidora dedicada integralmente à agenda de impacto. É conselheira do Funbio, do Instituto Reciclar e da Soul Brasil, além de apoiar estrategicamente a Fundação Certi e o The Human Project. Também é embaixadora do Programa Legacy da Fundação Dom Cabral, contribuindo com a agenda de transformação socioambiental. Antes de se dedicar ao ecossistema de impacto, construiu uma carreira sólida como executiva do mercado financeiro, ocupando posições de liderança em grandes bancos estrangeiros.