A Braskem planejava protocolar sua recuperação extrajudicial nesta quinta-feira, 25 de junho. A data consta nos documentos que a companhia teve de tornar públicos conforme acordo de confidencialidade assinado com seus credores (por contrato, ela era obrigada a compartilhar as informações sobre as negociações).

Mas, diante do impasse nas negociações, a petroquímica recorreu a uma Tutela de Urgência Cautelar protocolada na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, um mecanismo jurídico que suspende temporariamente o pagamento de obrigações financeiras enquanto a companhia tenta construir o acordo com os credores.

A cautelar foi protocolada com o dispositivo que permite à empresa buscar proteção judicial antes de protocolar a recuperação extrajudicial - uma espécie de standstill brasileiro, ou seja, um escudo que impede credores de executar enquanto as negociações continuam.

A Braskem também sinalizou que pode adotar "medidas protetivas no exterior", o que aponta para um possível processo paralelo nos Estados Unidos para proteger os ativos internacionais.

Mas são os documentos que explicam o porquê a Braskem não conseguiu levar seu plano de RE adiante. Batizado internamente de Projeto Catalyst, e assessorado pelo banco Lazard, ele mostra uma negociação que quebrou antes de chegar a qualquer resultado.

Aconteceram três rodadas de propostas entre a companhia e o Ad Hoc Group (AHG) de bondholders, que reúne gestoras como Capital Group e AllianceBernstein, além de distressed funds como Elliott Investment Management e Strategic Value Partners (SVP).

Esse comitê organizado pelos credores com Steering Committee próprio terminou sem acordo. Cada lado rejeitou a proposta do outro. E os documentos deixam claro que as posições são, por ora, irreconciliáveis.

A proposta da Braskem era, segundo fontes ouvidas pelo NeoFeed, “austera para quem está pedindo um favor”.

A companhia queria alongar todos os vencimentos em cinco anos, reduzir o cupom (juro) dos títulos em 2 pontos percentuais e ter a opção de pagar 100% dos juros em PIK — ou seja, diferir o pagamento em dinheiro e acumular a dívida — entre julho de 2026 e dezembro de 2028.

“Em troca, não oferecia dinheiro novo, não dava garantia sobre ativos e não aceitava qualquer redução de principal”, disse a fonte.

A resposta do Steering Committee do AHG foi direta ao chamar a proposta de wholly unsatisfactory (inteiramente insatisfatória, em tradução livre). Além disso, afirmava que incluir uma redução de cupom numa reestruturação corporativa é algo "inaudito" e que "questiona a seriedade" com que a Braskem conduziu as negociações - especialmente considerando o nível de sofisticação dos assessores envolvidos.

A posição dos credores era oposta em quase todos os aspectos. Qualquer concessão em prazo precisaria ser compensada com aumento - não redução - de cupom.

O comitê exigiu também que a Petrobras, como acionista controladora, participasse diretamente das negociações e contribuísse com algum tipo de burden-sharing (dividir os encargos, em tradução livre).

E impôs restrições ao uso de caixa durante o período de negociação, incluindo a proibição de usar recursos de dívida subsidiada do BNDES para financiar o projeto Transforma Rio enquanto pede alívio aos bondholders.

A Braskem respondeu na quarta-feira, 24 de junho, um dia antes da data planejada para o protocolo da RE, dizendo que a contraproposta dos credores também era inaceitável.

Um caixa que some

O que torna o impasse perigoso para a companhia é o que os próprios documentos da Braskem mostram uma liquidez  delicada.

Nas projeções de fluxo de caixa sem reestruturação, a companhia termina dezembro de 2026 com saldo de caixa livre negativo em US$ 821 milhões (mais de R$ 4,2 bilhões).

Nesse número, que a própria Braskem apresentou aos credores como argumento para a urgência da negociação, mostra um calendário de obrigações apertado.

O serviço de dívida total previsto para o terceiro trimestre de 2026 soma US$ 878 milhões (cerca de R$ 4,5 bilhões), entre pagamentos de bonds e debêntures, dívidas bilaterais e cartas de crédito (LCs). Só em juros de bonds, a companhia tem US$ 188 milhões (pouco menos de R$ 1 bilhão) a desembolsar entre julho e setembro.

A estrutura da dívida financeira total, de US$ 9,5 bilhões em abril de 2026, é dominada por bonds internacionais em dólar, todos com vencimento bullet, ou seja, sem amortização ao longo do tempo.

O Bond 2028, de US$ 1,19 bilhão a 4,5% ao ano, é o mais urgente. O Bond 2030, de US$ 1,51 bilhão, vem logo atrás. Juntos, representam quase US$ 2,7 bilhões que vencem nos próximos quatro anos — e cujos juros semestrais já começam a pressionar o caixa agora.

Há ainda o Revolving Credit Facility (RCF) de US$ 1 bilhão, com vencimento em dezembro de 2026. Com um detalhe: esse instrumento representa um gatilho de liquidez relevante independentemente de qualquer negociação com os bondholders.

O próximo passo

Com esse impasse nas negociações, fontes de mercado disseram ao NeoFeed que trabalham com dois cenários.

O primeiro é uma nova rodada de negociações, desta vez com a Petrobras sentada à mesa - o que o AHG exigiu explicitamente como condição para avançar.

A participação da estatal, que controla a Braskem em conjunto com o grupo Novonor, abre a possibilidade de suporte do acionista, seja em garantias, seja em aporte. Sem isso, os credores sinalizaram que não há base para um acordo.

O segundo cenário - e que os bondholders já estão precificando - é uma cautelar. A Braskem deverá recorrer a esse mecanismo jurídico para suspender temporariamente o pagamento de suas obrigações enquanto tenta construir um acordo.

O movimento daria à companhia um respiro operacional que ela não conseguiu até aqui.