Em meio ao furor global causado pelo IPO da SpaceX, outra abertura de capital nos Estados Unidos tem chamado a atenção do mercado. A empresa italiana de tecnologia Bending Spoons pretende levantar até US$ 1,6 bilhão em sua oferta pública inicial, com o objetivo de alcançar um valuation de US$ 19 bilhões.

O ponto central para esta atenção está justamente no mercado de atuação da Bending Spoons. A empresa europeia adquire negócios de SaaS já existente e reconstroi os produtos. Na prática, gera receita a partir da compra de “relíquias” da internet.

Desde sua fundação, em 2013, a Bending Spoons já adquiriu mais de 50 empresas. Entre elas, estão a plataforma de vídeos Vimeo, o serviço de compartilhamento de arquivos WeTransfer, a empresa de ingressos Eventbrite e a marca de internet AOL, que já foi muito popular.

Atualmente, a Bending Spoons tem uma ampla lista de potenciais aquisições. As ações tradicionais de empresas de software sofreram forte desvalorização diante do temor dos investidores de que a inteligência artificial transforme o setor, e muitos fundos de venture capital passaram a concentrar seus investimentos em IA.

Isso deixou uma geração de startups e empresas de tecnologia criadas antes do boom da inteligência artificial com menos alternativas. Em seu prospecto de IPO, a empresa italiana informou que possui uma lista com mais de mil potenciais aquisições.

“Essas não são empresas mortas-vivas”, diz ao The New York Times Joe Hyrkin, que vendeu sua empresa, a plataforma de publicação digital Issuu, para a Bending Spoons em 2024. Segundo ele, essas empresas simplesmente deixaram de despertar o interesse dos investidores de venture capital.

Para Kerry Trainor, fundador da Creator Partners, empresa de investimentos que investiu na Bending Spoons em 2022, muitas marcas conhecidas, mesmo da era digital, mantêm uma conexão com o público muito mais profunda do que muitos imaginam.

Algumas serão substituídas pela inteligência artificial, observou, mas muitas outras simplesmente conseguirão se adaptar. “Os mercados frequentemente exageram ao acreditar que tudo será substituído”, afirma.

O CEO da Bending Spoons, Luca Ferrari, afirmou, em 2024, que sua empresa promove mudanças drásticas nas companhias que são adquiridas, com o objetivo de melhorá-las. “Se alguém quer que nada mude, nós não somos um bom comprador”, disse, na ocasião.

A Bending Spoons nasceu de um aplicativo de diário digital criado por Ferrari e alguns amigos engenheiros. O aplicativo, chamado Evertale, não teve sucesso.

O grupo decidiu utilizar o dinheiro que restava e suas habilidades de engenharia para melhorar produtos digitais que já possuíam uma base de usuários. Compraram um aplicativo de teclado virtual por US$ 10 mil e utilizaram os lucros obtidos com ele para financiar novas aquisições.

A holding recebeu o nome Bending Spoons ("dobrando colheres"), em referência à ideia de dobrar colheres com a mente, conceito popularizado por uma cena do filme Matrix.

Com o tempo, as aquisições cresceram de tamanho, levando a empresa a captar recursos de investidores e assumir dívidas para continuar expandindo seu portfólio.

Em 2022, a Bending Spoons comprou o aplicativo Evernote. Fundado em 2004, o Evernote foi uma das primeiras empresas de aplicativos a ganhar destaque com a popularização dos smartphones.

Com o passar do tempo, porém, o crescimento da empresa desacelerou e ela passou por diversas tentativas frustradas de recuperação. A aquisição do Evernote pela Bending Spoons chamou a atenção da indústria de tecnologia.

Em outubro do ano passado, a empresa comprou o portal AOL. Embora os números não tenham sido revelados, o mercado avaliou a compra em US$ 1,5 bilhão.

A negociação foi concretizada com a gigante de private equity Apollo e marcou mais um passo importante na expansão da companhia italiana. Para financiar a transação, anunciou uma captação de US$ 2,8 bilhões.

O portal foi o primeiro destino na internet para milhões de americanos durante o primeiro boom da bolha da internet, e ainda é usada por mais de 30 milhões de pessoas todos os meses.

Em sua newsletter Dealflowbr, Guilherme Lima, da Astella,  diz que o IPO da companhia caminha para ser um dos mais interessantes dos últimos tempos, em relação a empresas de venture capital.

“Você não controla o timing, o gosto do mercado, o momento cultural. Mas operar bem um negócio digital exige habilidade, e habilidade vira processo”, escreveu.

“Então, em vez de apostar em encontrar o próximo product-market fit (PMF), eles compram produtos que já funcionam de alguma forma e os fazem funcionar melhor, com mais escala”, completa.

No ano passado, a Bending Spoons alcançou receita de US$ 1,3 bilhão. Somente no primeiro trimestre de 2026, a empresa registrou US$ 601 milhões.