A seis quarteirões de onde George Floyd foi assassinado, em maio de 2020, pelo então policial Derek Chauvin. A três quadras de onde Renee Good foi executada em janeiro por homens do serviço americano de imigração. A poucos metros de onde Alex Pretti foi morto a tiros, 17 dias depois, também por agentes do ICE.

Foi ali, no número 3200 da Chicago Avenue, ao sul de Minneapolis, que um pequeno restaurante transformou a comida em um ato de resistência à truculência do Estado. Em 26 de janeiro, o Modern Times passou a se chamar Post Modern Times e aboliu os preços do cardápio. A partir daquele dia, o cliente paga quanto quiser, quanto puder ou quanto achar justo — se pagar.

“Tomei a decisão no impulso de fazer o bem e oferecer conforto aos nossos moradores. E, ao mesmo tempo, parar de pagar impostos para um governo que, em vez de proteger, inflige danos a seus cidadãos”, conta o proprietário Dylan Alverson, em entrevista ao NeoFeed. “Naquele momento, não pensei em dinheiro.”

Se tivesse pensado, provavelmente não teria seguido adiante. Sob a lógica convencional dos negócios, a iniciativa equivalia a uma sentença de falência — desde a pandemia, a casa operava no vermelho. Aconteceu justamente o contrário, no entanto.

Pouco mais de seis meses depois, o que nasceu como uma resposta à violência estatal se transformou em um experimento sobre a viabilidade econômica de um modelo baseado na solidariedade. Embora entre 80% e 90% das pessoas hoje comam de graça, o Post Modern Times não só continua de portas abertas como prospera.

As refeições cresceram 55% — de uma média diária de cem para mais de 155. E o avanço não veio apenas dos clientes em busca de comida gratuita. Também aumentou o número daqueles que fazem questão de pagar para apoiar Alverson.

“Muitas vezes falta espaço”, diz o proprietário. “Estamos nos aprimorando para tentar integrar os dois grupos da melhor forma possível.”

Sucesso inesperado

O Modern Times não estava preparado para tanta demanda. Fundado em 2011, depois de Alverson levantar US$ 35 mil ao se desfazer de uma revenda de bicicletas usadas, o restaurante não tinha nem um site que funcionasse direito.

“Tivemos de correr para implementar os sistemas necessários às pressas”, lembra o empresário. A operação foi totalmente revista.

O cardápio ficou mais enxuto para simplificar o trabalho na cozinha. A equipe aceitou substituir o modelo tradicional de remuneração pelo compartilhamento das gorjetas e das doações recebidas. E o e-commerce precisou ser reorganizado.

Quando a iniciativa ganhou as manchetes, disparou a procura pela loja virtual do Post Modern Times — criada na urgência da covid-19, ela oferece camisetas, moletons, bonés, garrafinhas e canecas, com preços entre US$ 14 e US$ 65.

As vendas dos últimos três meses estão prestes a superar os US$ 60 mil arrecadados ao longo de todo o ano de 2025. "É a forma que as pessoas encontraram de nos apoiar online", afirma o empresário. Grande parte dos pedidos vem de fora do estado de Minnesota; alguns, inclusive, de fora dos Estados Unidos.

"Não acredito que estejamos em um modelo capaz de sustentar empresas que optam por não explorar seus trabalhadores", diz Dylan Alverson (Foto: Instagram @postmoderntimescafe)

O cardápio sem preço do restaurante de Minneapolis: paga quem quer (Foto: moderntimesmpls.com)

Desde o final de janeiro, o número de refeições servidas no Post Modern Times cresceu 55% (Foto: moderntimesmpls.com)

Em três meses, as vendas online de produtos com a marca do restaurante estão prestes a atingir os US$ 60 mil arrecadados ao longo de todo o ano de 2025 com o e-commerce (Foto: moderntimesmpls.com)

O aumento no fluxo de clientes não veio apenas dos fregueses em busca de comida gratuita, mas também daqueles que fazem questão de pagar para apoiar Alverson (Foto: moderntimesmpls.com)

Em post no Instagram, o proprietário comemora as doações, as cartas e os cartões de encorajamento recebidos na primeira semana de comida gratuita (Foto: Instagram @postmoderntimescafe)

No anúncio do Post Modern Times, Alverson diz que a comida é gratuita para todos, "com exceção aos nossos invasores" (Foto: Instagram @postmoderntimescafe)

À frente de um restaurante convencional, com 22 funcionários, Alverson jamais havia obtido desempenho semelhante.

Em 2025, o Modern Times faturou US$ 1,3 milhão, mas, apesar das medidas de contenção de custos, registrou prejuízo de US$ 18,5 mil.

Para economizar, por exemplo, o proprietário assume o maior número de funções possíveis na casa. De chef e gerente a faz-tudo, costuma tirar para si apenas US$ 23 mil anuais.

Essa realidade reflete a crise vivida por milhares de pequenos restaurantes americanos. Um levantamento realizado em fevereiro pela Independent Restaurant Coalition mostra que um em cada quatro estabelecimentos está na iminência de fechar as portas.

“Estamos localizados em uma área essencialmente da classe trabalhadora”, explica Alverson. “Por causa da inflação persistente, sobretudo depois da pandemia, fomos forçados a aumentar os preços sucessivamente, a ponto de muitas pessoas do bairro não terem mais condições de comer aqui.”

"Socialismo de mercado"

O fato de um restaurante que não cobra pela comida conseguir atrair mais clientes pagantes, ampliar as vendas e mobilizar uma rede de apoiadores, na opinião do empresário, é sinal de que há algo de muito errado no funcionamento do setor de alimentação fora do lar.

"Não acredito que estejamos em um modelo capaz de sustentar empresas que optam por não explorar seus trabalhadores", diz. "Parte do nosso papel é mostrar que precisamos pensar em novas formas de enfrentar esses problemas. Sem uma base econômica formada pelas pequenas empresas, as cidades não vão para a frente.”

E o problema vai muito além da inflação, defende ele: "Os investidores de risco concentram nossos sistemas alimentares em poucas empresas capazes de controlar os preços. Se esses preços deixam de acompanhar o poder de compra das pessoas, nos tornamos menos acessíveis às comunidades."

Sua proposta não é abandonar o mercado, mas redesenhar seu mecanismo de funcionamento. Em vez de perseguir lucros cada vez maiores, Alverson propõe um modelo capaz de equilibrar preços mais baixos para os consumidores, salários dignos para os funcionários e uma remuneração razoável para os proprietários.

"Estamos tentando ir além do capitalismo", afirma. "Queremos adaptar um modelo de socialismo de mercado que possa coexistir com o sistema capitalista e oferecer um caminho mais humano, com empregos dignos e comida acessível."

Ainda é cedo para saber se o modelo criado por Alverson se mantém no longo prazo. Por enquanto, o Post Modern Times segue como um "experimento radical", como ele próprio define. O desafio agora é transformar o entusiasmo inicial em uma base permanente de doadores.

Em uma publicação no Instagram, o empresário resume a ambição por trás do restaurante da Chicago Avenue: "O Post Modern Times é uma pequena manifestação em meio a uma luta gigantesca que pode moldar o futuro deste país. Inspiro-me na forma como nossa comunidade cresceu unida, com nossos corações se abrindo para dar e receber cuidado de todas as maneiras possíveis. Que possamos continuar nos encontrando nas ruas."