Após anos de turbulência, agravados recentemente pela guerra no Irã, a Boeing começou a demonstrar sinais de retomada em sua unidade de aviões comerciais, para alívio dos investidores. Mas os custos extras relacionados à reforma do jato presidencial dos Estados Unidos mantiveram a última linha do balanço no vermelho.
Ainda se recuperando das consequências da queda de duas aeronaves 737 Max, em 2018 e 2019, a fabricante americana apresentou números que impressionaram o mercado, levando muitos analistas a avaliar que os esforços de reestruturação promovidos pelo CEO Robert “Kelly” Ortberg em quase dois anos no comando estão dando frutos.
A Boeing registrou na terça-feira, 28 de julho, uma receita de US$ 24,6 bilhões no segundo trimestre e um fluxo de caixa livre de US$ 631 milhões, representando um aumento de 8% e uma reversão do saldo negativo reportado no mesmo período de 2025, respectivamente.
O fluxo de caixa foi impulsionado pelas entregas de jatos comerciais, que subiram de 143 nos primeiros três meses do ano para 171, enquanto o backlog atingiu o valor recorde de US$ 597 bilhões, com 6,8 mil aeronaves.
Os números agradaram os investidores, com as ações chegando a subir mais de 5% no pregão. Por volta das 16h45, os papéis avançavam 4,86%, a US$ 221,78. No ano, as ações recuam 2,47%, levando o valor de mercado a US$ 175,3 bilhões.
Desde que assumiu o leme da Boeing, Ortberg vem trabalhando para melhorar a eficiência da companhia, revisando o processo de produção e reaproximando os executivos das fábricas, diante da avaliação de que esse aspecto ficou em segundo plano nos últimos anos.
A queda dos dois 737 Max, que resultou na morte de 346 pessoas e levou à suspensão global das operações do modelo por cerca de 20 meses, evidenciou essa necessidade.
Depois dos acidentes, começaram a surgir acusações de que houve negligência da empresa nos processos de certificação de segurança desse e de outros modelos de aeronaves da Boeing, gerando uma crise de confiança em torno da companhia.
Ortberg também reforçou o caixa da empresa com a emissão de ações e encerrou projetos cujos resultados não apareceriam no curto e médio prazo, concentrando-se nos negócios principais. Essa mentalidade resultou na venda de parte da divisão de aviação digital, em abril do ano passado, para o fundo de private equity Thoma Bravo por US$ 10,5 bilhões.
Os resultados reforçaram a percepção de que a estratégia de Ortberg está começando a produzir efeitos, com os investidores avaliando que a Boeing está no caminho certo para a retomada e deve atingir as metas traçadas para este e os próximos anos.
Analistas projetam que a Boeing pode entregar cerca de 670 aeronaves em 2026, ante 600 em 2025, segundo reportagem do site Barron’s. O consenso também aponta para um fluxo de caixa livre próximo de US$ 3 bilhões neste ano. No horizonte de 2028, as estimativas indicam mais de 850 aeronaves entregues e geração superior a US$ 10 bilhões em fluxo de caixa livre.
“Estou muito satisfeito com o progresso que nossa equipe está alcançando à medida que executamos nosso plano. Nossas operações estão mais estáveis e os principais programas de certificação seguem dentro do cronograma”, afirmou Ortberg, em nota. “Embora ainda haja muito trabalho pela frente no segundo semestre do ano, o impulso que estamos construindo continua a levar a Boeing na direção certa.”
Air Force One pesa
Os resultados só não foram “impecáveis” em razão dos custos relacionados à reforma do Air Force One, o avião presidencial dos Estados Unidos.
A divisão de defesa da empresa registrou um prejuízo inesperado após US$ 280 milhões em novos custos incorridos pelo programa de reforma do Air Force One, negociado por Donald Trump durante seu primeiro mandato, em 2018, como um contrato de preço fixo de US$ 3,9 bilhões.
O contrato, que acumula quatro anos de atraso e envolve a reforma de dois jatos 747-8, deixou a Boeing exposta a bilhões de dólares em custos extras, sem a possibilidade de repassá-los à Casa Branca.
A situação fez com que a Boeing fechasse o segundo trimestre com um prejuízo de US$ 428 milhões. Ainda assim, o resultado representou uma melhora em relação à perda de US$ 612 milhões registrada no mesmo período de 2025.
Apesar dos avanços na reestruturação, a companhia segue sob escrutínio das autoridades regulatórias após os acidentes com o Max e um incidente em 2024, quando um plugue de porta se soltou de um jato da Alaska Airlines.
A Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) emitiu uma diretiva na segunda-feira, 27 de julho, instruindo as companhias aéreas americanas a inspecionarem os assentos de centenas de jatos 737 Max, pois eles podem não ter sido instalados corretamente.
Aos investidores, Ortberg afirmou que a situação envolvendo o Air Force One “não deve ofuscar todo o progresso significativo que estamos fazendo para reduzir o risco em nosso portfólio de defesa, e estamos em uma situação muito melhor do que estávamos há dois anos”.
“Assim como em nossos negócios comerciais, a demanda por nossos produtos de defesa e espaciais permanece muito forte, com um aumento notável na procura por programas de mísseis, munições e satélites de comunicação segura”, acrescentou, segundo o jornal Financial Times.