Em termos relativos, o Brasil hoje está melhor do que estava anos atrás em relação ao resto do mundo, segundo Ana Botín, presidente executiva do Banco Santander. Para ela, o País evoluiu em termos institucionais e reúne oportunidades alinhadas às necessidades do século 21.
Mas há um tema que ainda teima em prejudicar o País: o Custo Brasil. Para a executiva, o custo de fazer negócios no País continua sendo um dos principais desafios para investidores e empresas que atuam no mercado brasileiro.
A avaliação é de que o ambiente regulatório é um dos pontos que precisam ser enfrentados para ampliar a eficiência e estimular investimentos. Para transformar suas vantagens estruturais em crescimento, o Brasil precisará reduzir entraves, aumentar a produtividade e integrar o País às cadeias globais.
“Uma questão que tem sido e continua sendo um problema no Brasil é o custo de fazer negócios no Brasil”, afirmou Botín, em fala por vídeo, na 27ª Conferência Anual Santander, organizada pela subsidiária brasileira.
Segundo ela, a percepção sobre esse obstáculo é especialmente relevante para investidores que avaliam a construção ou a expansão de negócios no País, desestimulando investimentos.
Botín, non entanto, acredita que essa situação não é mais uma exclusividade do Brasil. Segundo ela, a Europa também tem adotado medidas regulatórias que prejudicam suas economias e empresas. “Nós também deveríamos tentar ser mais eficientes na forma como administramos nossas economias em termos de regulação”, disse.
Apesar do Custo Brasil, Botín disse que está “incrivelmente otimista” com o Brasil. Ela destacou a força das instituições brasileiras, especialmente a credibilidade do Banco Central (BC).
Segundo ela, a autoridade monetária é um dos ativos importantes para a economia brasileira e oferece uma base sólida para os próximos ciclos de crescimento e investimento. “É uma instituição com credibilidade muito forte e isso é um ativo fundamental para a economia”, afirmou Botín.
A executiva também apontou o setor elétrico, as reservas e os minerais críticos e o tamanho do mercado consumidor como vantagens estruturais do Brasil. Na avaliação dela, o País reúne ativos relevantes em um momento de reorganização das cadeias globais de produção e de maior preocupação com segurança energética.
Outro diferencial, segundo Botín, é a matriz elétrica brasileira. Ela ressaltou que cerca de nove em cada dez unidades de eletricidade geradas no País vêm de fontes renováveis, característica que pode se tornar ainda mais relevante diante da transição energética global e da crescente demanda por energia associada à inteligência artificial e à digitalização da economia.
Para a presidente executiva do Banco Santander, o próximo passo é transformar essas vantagens em maior integração às cadeias globais de valor. “O Brasil tem os ativos. Agora é importante integrá-los às cadeias globais de valor. Isso exige investimentos, capital, capacidade de produção e inovação”, afirmou.
Nesse sentido, ela citou a possível conclusão do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE) como uma oportunidade relevante para o País. “Este é um dos grandes temas para os próximos anos, para onde devemos direcionar o foco como investidores e empresas”, disse.
O otimismo de Botín se refletiu também nas operações do Santander no Brasil. Segundo ela, o País é “absolutamente central” para a instituição, ainda que o banco tenha aprovado uma oferta pública de aquisição (OPA) voluntária de permuta para adquirir a fatia de 10% das ações e units que ainda não detém da subsidiária.
Segundo ela, o Santander trabalha na diversificação geográfica e de serviços, tendo apostado fortemente em investment banking nos últimos anos. O avanço mais relevante foi a expansão nos Estados Unidos, com a compra do Webster Bank, em fevereiro, por US$ 12,2 bilhões. A aquisição posiciona o banco espanhol entre os dez maiores bancos de varejo e comerciais dos Estados Unidos em ativos.
A proposta é que o Santander combine escala global com a atuação local. Para Botín, essa posição permite ao banco conectar empresas brasileiras a outros mercados, especialmente Estados Unidos e Europa, e oferecer uma rede de relacionamento que ultrapassa as fronteiras do País.
E, diante desses planos, Botín deixou uma mensagem para Gilson Finkelsztain, novo CEO do Santander Brasil: apesar dos avanços recentes da operação, ela vê espaço para o banco crescer e aproveitar as oportunidades da economia brasileira.
“Fizemos grandes progressos no Brasil, mas não o suficiente. Gilson, o céu é o limite”, afirmou Botín, em uma sinalização de que espera uma atuação ainda mais ambiciosa da operação brasileira nos próximos anos. “Quero que você faça grandes coisas.”