A Privatto aumentou a frequência das viagens entre Porto Alegre, onde está a sua sede, a Faria Lima e outros centros financeiros do País. Com R$ 1,5 bilhão em patrimônio sob gestão e aconselhamento, concentrado em clientes do Rio Grande do Sul, o multi family office quer, agora, conquistar famílias empresárias em outras regiões brasileiras.

À primeira vista, o movimento repete a corrida em curso no mercado brasileiro de gestão de fortunas, com bancos, assessorias e gestoras disputando clientes de alta renda, em busca de um pedaço do mercado de wealth management, que encerrou 2025 com R$ 542,3 bilhões administrados por gestores de patrimônio, segundo a Anbima.

A origem da Privatto, porém, é menos convencional. A casa nasceu como um single family office para administrar o patrimônio de uma das cinco famílias controladoras do Grupo Ipiranga. E, agora, quer transformar a experiência construída com o próprio dinheiro em uma tese para outros clãs.

“A Privatto foi montada com a lógica do cliente. A pergunta era qual seria a melhor estrutura de prestação de serviços de investimentos que eu poderia criar para a minha família”, diz Eduardo Tellechea Cairoli, fundador da Privatto e neto de João Francisco Tellechea, que foi um dos criadores da Ipiranga em 1937.

Se a Privatto tem um histórico de apenas três anos como multi family, o single family remete a 2007. Em março daquele ano, a família gaúcha Tellechea ao lado dos Gouvêa Vieira, Ormazabaal, Matos e Aguiar, assinou a venda do controle do grupo Ipiranga para o consórcio formado por Petrobras, Ultra e Braskem por US$ 4 bilhões - naquele que ainda é considerado o maior evento de liquidez de um grupo empresarial brasileiro.

“Minha família nunca tinha tido liquidez. Eles precisavam se acostumar com o papel de investidores”, diz Cairoli.

Especulou-se, na época, que cada uma das cinco famílias controladoras recebeu cerca de US$ 200 milhões pela sua participação na empresa, que tinha capital aberto, ações listadas e acionistas minoritários - a Privatto não confirma o capital inicial.

A venda foi comunicada à família em um domingo. Na segunda-feira, o fato relevante tornou públicos os valores da operação e os bancos começaram a procurar os familiares. Dois dias depois, José Paulo chamou o filho com a missão de apresentar, no sábado seguinte, um plano para organizar o patrimônio dos 14 integrantes da família - avó, tios, tias e primos.

Com poucos dias para construir a proposta, Cairoli recorreu a Roger Ian Wright, um dos mais respeitados gestores do País, amigo de seu pai, ex-sócio do Garantia e fundador da Arsenal Investimentos para estruturar o family office.

Wright, que morreu em um acidente aéreo em 2009 em Trancoso, aos 55 anos, havia sido também um dos responsáveis pela entrada de Cairoli no mercado financeiro alguns anos antes.

Foi estabelecido, desde o início, o fee based como modelo de remuneração - hoje a Privatto cobra uma taxa sobre o patrimônio, que começa em 0,5% ao ano e diminui progressivamente até 0,2%, conforme o volume administrado - e a transparência nas informações para evitar conflitos e desconfiança.

O objetivo era seguir o pedido de José Paulo. “Ele me disse assim: ‘nosso risco de não organizar é algum membro da família fazer um investimento errado e, daqui a alguns anos, a gente ter que socorrer. Precisamos centralizar esse movimento para evitar problemas na família’”, conta Cairoli.

Caberia a ele desenvolver um programa de educação financeira para que os familiares aprendessem a lidar com risco, volatilidade, liquidez e os conflitos que poderiam surgir nas decisões de investimento.

Na parte de alocação de recursos, Wright sugeriu ao fundador da Privatto dividir o dinheiro entre um gestor independente e um banco global, além de instituições com as quais os familiares já mantinham relacionamento. Fundos exclusivos seriam mantidos fechados durante cinco anos, permitindo comparar o trabalho das diferentes instituições.

Ao fim dos cinco anos, os dois fundos haviam rendido aproximadamente 85% do CDI. O período atravessou a crise financeira global de 2008 e o início do primeiro governo Dilma Rousseff. O resultado abaixo do benchmark levou a família a rever o modelo.

Alguns parentes preferiram passar a cuidar diretamente do próprio patrimônio e outros mantiveram a gestão com a Privatto - atualmente, nem todos os 14 integrantes que participaram da estrutura inicial permanecem como clientes.

O desempenho abaixo do CDI também ajudou a formar a filosofia que a Privatto adotaria nos anos seguintes. A estrutura passou a centralizar a inteligência das carteiras, usando bancos, corretoras e gestores como fornecedores, sem concentrar a estratégia em uma única instituição.

Da família para outras fortunas

A gestora foi formalmente estruturada em 2014, mas permaneceu por anos dedicada principalmente à família Tellechea Cairoli. A abertura para outros grupos familiares ganhou força a partir de 2021 e, há cerca de três anos, tornou-se uma frente de expansão da empresa.

Hoje, a Privatto atende 20 clientes distribuídos entre quatro famílias, com uma equipe de oito profissionais. A empresa não revela quanto desse patrimônio pertence aos Tellechea, mas informa que outros clientes já possuem participações mais representativas na estrutura - por questões de privacidade, a casa não identifica as demais famílias.

“Competimos com todo mundo, dos family offices dos bancos, inclusive os internacionais, às estruturas independentes. O nosso diferencial é a independência e a trajetória”, diz Cairoli.

O planejamento começa com uma projeção de até 40 anos da vida financeira de cada cliente. A Privatto reúne informações pessoais, familiares e empresariais, calcula as despesas previstas e estima como o patrimônio deve evoluir em diferentes cenários de retorno.

Em seguida, analisa a carteira existente, os relacionamentos bancários e a distribuição entre ativos financeiros, imóveis e participações empresariais. A estratégia pode ser executada em diferentes instituições, de acordo com os produtos, preços e serviços oferecidos por cada uma.

“Centralizamos a inteligência e usamos os bancos como estruturas operacionais”, diz Cairoli.

Para as famílias empresárias, o trabalho pode alcançar também a companhia operacional. A Privatto analisa estruturas de crédito, políticas financeiras e fundos de direitos creditórios capazes de financiar clientes e fornecedores das empresas.

A lógica é considerar o patrimônio familiar como um conjunto formado por empresa, imóveis e aplicações financeiras, em vez de administrar apenas o dinheiro mantido em bancos e corretoras.

Crescimento nos EUA, dívida no Brasil

A separação entre a estratégia doméstica e a internacional é uma das principais marcas da Privatto. A participação média dos investimentos no exterior passou de 11% em 2021 para 25% atualmente — e a tendência, segundo Cairoli, é de crescimento.

A diferença não está ligada à redução de risco político ou econômico brasileiro. Para o executivo, a internacionalização permite acessar empresas, setores e classes de ativos que não estão disponíveis no mercado local.

“O empresário tem a empresa no Brasil, os imóveis no Brasil e o dinheiro no Brasil. O que é mais rápido mover? O dinheiro”, afirma ele.

A tese defendida pela Privatto é comprar crescimento nos Estados Unidos e dívida no Brasil.

Em uma carteira considerada moderada, a parcela brasileira pode chegar a 95% de renda fixa. No exterior, o mesmo perfil pode ter aproximadamente metade dos recursos em renda variável, além de títulos de renda fixa, hedge funds, private equity, private credit e outros investimentos alternativos.

A baixa exposição às ações brasileiras é uma escolha estrutural. Juros e inflação persistentemente elevados aumentam o custo de capital das companhias e reduzem a quantidade de projetos capazes de produzir retorno suficiente para o acionista.

“Não acredito estruturalmente no mercado de ações brasileiro. O empresário precisa captar a um custo muito alto e rodar um projeto com retorno ainda maior para que ele se viabilize”, diz o fundador da Privatto.

“Nos Estados Unidos, um projeto com retorno menor pode fazer sentido porque o custo do capital é outro”, complementa.

No crédito privado brasileiro, a régua também é restritiva. A Privatto evita dívidas de bancos pequenos, ainda que os papéis estejam protegidos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), e prioriza títulos de companhias abertas, cujos balanços possam ser acompanhados.

Setores menos sujeitos aos ciclos econômicos, como infraestrutura e energia, recebem preferência. Operações estruturadas apenas para clientes de alta renda, mas sem informações financeiras públicas suficientes sobre o emissor, tendem a ser descartadas.

“No mercado financeiro, para performar, é preciso tomar risco. E o nosso papel é entender quanto risco faz sentido para preservar o patrimônio das família”, afirma Cairoli.

“Quem tem uma cultura transacional não muda a chave de uma hora para outra. A nossa é uma cultura de jornada. É um relacionamento para a vida inteira”, complementa.

Demanda, reserva e decolagem

A oferta pública inicial (IPO) de ações da SpaceX é um exemplo de como a união entre a inteligência de gestão e o acesso às operações restritas entregam valor que a Privatto quer oferecer para o cliente.

Em junho deste ano, clientes da empresa investiram R$ 10 milhões no IPO da SpaceX. A companhia de Elon Musk precificou as ações a US$ 135 e captou US$ 75 bilhões, no maior IPO da história. A oferta recebeu uma demanda equivalente a aproximadamente quatro vezes o volume de ações disponível.

A Privatto fez as reservas por meio do Goldman Sachs, um dos coordenadores da operação, e recebeu aproximadamente 95% do volume solicitado. Pela média da oferta, os investidores ficaram com cerca de 25% das reservas.

A operação, no entanto, não foi tratada como uma aposta de longo prazo na companhia. Cairoli afirma que analisou as condições da oferta, o nível de demanda e a perspectiva de valorização na estreia - e não apenas os fundamentos da SpaceX.

As ações foram vendidas no próprio primeiro dia de negociação, a um preço médio de aproximadamente US$ 157, gerando um retorno próximo de 17% sobre o valor da oferta.

“Analisei a oferta, não a empresa. Vimos um setor aquecido, uma demanda muito grande nos bancos e uma companhia cujo IPO teria procura elevada no curto prazo”, diz ele.

A estratégia contrasta com a preferência da Privatto por alocações de longo prazo e rebalanceamentos periódicos, mas mostra como o relacionamento com diferentes instituições pode ser utilizado quando a gestora identifica uma vantagem específica de acesso ou distribuição.

Além da SpaceX, a casa possui exposição à Anthropic por meio de uma operação de private equity realizada anteriormente.

Para Cairoli, o desafio é não confundir acesso exclusivo com qualidade do investimento. No dia a dia, a gestora prefere selecionar classes de ativos e manter as posições ao longo dos ciclos, em vez de tentar antecipar os melhores momentos de entrada e saída.