A adoção da inteligência artificial pelas grandes empresas brasileiras está atravessando uma nova fronteira. Depois de ser usada como uma ferramenta individual de produtividade e, em seguida, incorporada à rotina das equipes, a tecnologia começa a chegar às atividades centrais dos negócios — aquelas que afetam diretamente receita, conversão e prevenção de perdas.

Essa é a terceira etapa de uma jornada identificada pela Amazon Web Services (AWS) entre seus clientes no país, segundo Luis Liguori, diretor de arquitetura de soluções da companhia no Brasil, em entrevista ao NeoFeed.

A primeira fase acontece quando um funcionário utiliza a IA para resumir documentos, organizar informações ou preparar uma apresentação. Na segunda, a ferramenta passa a fazer parte do fluxo de trabalho de um departamento. A terceira começa quando deixa os bastidores e chega aos produtos e serviços entregues ao consumidor.

Na própria AWS, Liguori viveu essa mudança em uma tarefa cotidiana. Um documento que consumiria entre dez a 12 horas de trabalho foi reescrito com o Amazon Q em aproximadamente duas horas. O ganho, porém, não veio apenas da velocidade. A ferramenta absorveu o contexto e ajudou a reorganizar o conteúdo, permitindo que o executivo concentrasse seu tempo na tomada de decisão.

O ponto de virada para as empresas está justamente em levar essa lógica para o core da operação. No Grupo Boticário, um assistente desenvolvido com o Amazon Bedrock funciona como consultor digital de beleza, recomenda produtos, monta rotinas de cuidados e sugere presentes. Segundo a AWS, a conversão no canal digital aumenta 47% quando a ferramenta é utilizada.

No Inter, a solução baseada em inteligência artificial generativa elevou em 1.480% a identificação de casos de financiamento de crimes financeiros. Em vez de apenas automatizar uma tarefa administrativa, a tecnologia passou a interferir diretamente na capacidade do banco de identificar operações suspeitas.

A carteira acompanhada pela área de Liguori reúne cerca de 40 dos maiores clientes da AWS no Brasil. Estão nesse grupo companhias como Itaú, BTG Pactual, Inter, Nubank, iFood, Mercado Livre, Ânima Educação, Grupo Elfa, Hospital Israelita Albert Einstein, Sírio-Libanês e Petrobras.

O avanço da IA também ajuda a explicar a aceleração da AWS. No trimestre mais recente, a receita da divisão cresceu 37%, o ritmo mais forte em 18 trimestres, e atingiu uma base anualizada próxima de US$ 169 bilhões, segundo dados oficiais da Amazon.

No Brasil, a AWS prevê investir US$ 5,6 bilhões até 2034. Desde 2011, a Amazon já investiu mais de R$ 75 bilhões no Brasil em áreas como infraestrutura, logística, tecnologia, computação em nuvem, qualificação profissional e estímulo ao empreendedorismo. Somente em 2025, os aportes superaram R$ 19 bilhões, quase cinco vezes a média anual registrada desde a chegada da companhia ao país.