A três semanas do primeiro turno da eleição presidencial, e em um panorama de extrema polarização, o empresariado brasileiro tem procurado medir as palavras sobre o atual cenário macroeconômico, as medidas consideradas eleitoreiras, como o fim da taxa das blusinhas e da escala 6x1, e até sobre a crise no Supremo Tribunal Federal (STF).
Mas, definitivamente, este não é o caso do empresário Sérgio Zimerman, presidente do conselho da Petz Cobasi, companhia que se tornou a maior rede varejista do setor pet na América Latina. Em entrevista ao NeoFeed, ele falou sobre STF, taxas de blusinhas, escala 6x1, taxas de juros e muitos mais.
Zimerman chamou de “inconsequência” do governo federal acabar com a taxa das blusinhas, que afeta o setor pet, mas também não poupou críticas à oposição, que insiste no discurso de polarização. Foi também direto sobre o caminho para o ministro Alexandre de Moraes, após revelações das trocas de conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro.
“Alexandre de Moraes deve se afastar ou ser afastado. Pela credibilidade do Supremo Tribunal Federal. Ele deve responder à lei, como qualquer cidadão”, diz Zimerman. “Se eu estivesse no lugar do Alexandre de Moraes, eu mesmo tomaria a medida de me afastar. Uma licença de 90 ou 120 dias. Seria uma atitude digna.”
E prosseguiu: “Um ministro da Suprema Corte de um país não pode ser um assessor pessoal, um advogado de quem quer que seja, muito menos de um banqueiro que deu um dos maiores golpes financeiros no Brasil”, afirma o chairman da Petz Cobasi.
Zimerman se refere às consultas feitas por mensagens pelo banqueiro ao ministro, sobre os rumos da investigação sobre o escândalo financeiro. Vorcaro pagou R$ 130 milhões para contratar o escritório da esposa de Moraes, a advogada Viviane Barci de Moraes.
No campo da economia, ele diz que o fim da taxa das blusinhas, que eliminou a cobrança de 20% de imposto federal de importação sobre compras internacionais de até US$ 50, sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na quinta-feira, 10 de setembro, representa uma tática política com interesse eleitoral.
“Com que autoridade um governo que gasta mais do que arrecada pode propor uma lei que vai diminuir a arrecadação? Por todos os ângulos deste assunto, é eleitoreiro, irresponsável e não é justo com quem acredita no Brasil”, diz Zimerman . “Ela é tão eleitoreira que há até candidato de oposição está defendendo o fim da taxa das blusinhas.”
Segundo o empresário, o IDV (Instituto para o Desenvolvimento do Varejo), do qual a companhia faz parte, estuda ir à Justiça para sustentar a inconstitucionalidade do fim da taxa de importação.
Outro ponto que Zimerman levanta é a pressa do governo em aprovar o fim da escala 6x1, também no meio de uma disputa eleitoral. Para o empresário, a medida vai aumentar o custo da mão de obra e, com isso, gerar um inevitável efeito inflacionário.
“É um jogo de palavras. A população está sendo literalmente enganada, por quem defende de uma maneira equivocada este tipo de proposta. Outra pauta irresponsável e populista”, afirma.
Em 2026, as ações AUAU3 na B3 valorizaram 4,13%. O Grupo Petz Cobasi tem valor de mercado de R$ 3,3 bilhões.
Acompanhe os principais trechos da entrevista de Zimerman ao NeoFeed:
Em meio à enorme polarização a partir da disputa eleitoral, o Brasil assiste hoje a uma crise sem precedentes no STF. Onde isso vai parar?
Nunca vi o Supremo em uma situação tão fragilizada como essa, do ponto de vista da confiabilidade. Se o presidente Edson Fachin não tomar as rédeas e resgatar a credibilidade da instituição, a gente vai para um caminho muito ruim. E há muita politização nas pautas. A corrupção pega a direita e a esquerda. A corrupção não pergunta em quem votou. Isso deveria reunir todos os brasileiros de bem, que não aceitam essa situação. Quando há indícios, é preciso investigar e dar direito de defesa. O que não dá é para não investigar ninguém.
Isso vale para o ministro Alexandre de Moraes?
Sim. Um senador [Flávio Bolsonaro] pedir patrocínio para um filme é algo absolutamente impróprio, mas não é crime. Passa a ser se for comprovado que havia contrapartida. Almoçar com um banqueiro não é crime. O vazamento das conversas enviadas para o ministro Alexandre de Moraes, por si só, não é crime, mas são indícios que há algo errado. Agora, quando Daniel Vorcaro procura o ministro, ao invés de acionar a esposa, que foi a advogada que ele contratou, há claramente um problema muito sério. Um ministro da Suprema Corte de um país não pode ser um assessor pessoal, um advogado de quem quer que seja, muito menos de um banqueiro que deu um dos maiores golpes financeiros no Brasil. Aí se leva a discussão se as provas são nulas ou não. Que país é esse que anula a Lava Jato e se desconsidera o conteúdo? Agora vai anular de novo? As conversas não importam? O Brasil vai para um caminho ruim, do ponto de vista econômico, e de estabilidade jurídica, pior ainda. Não dá para ficar calado. Espero que o Supremo aja à altura ou que a sociedade responda à altura.
“Alexandre de Moraes deve se afastar ou ser afastado. Pela credibilidade do STF”
E como o STF pode agir à altura?
De que se há indício de algo errado, que se afaste preventivamente, com direito à defesa. Alexandre de Moraes deve se afastar ou ser afastado. Pela credibilidade do Supremo Tribunal Federal. Ele deve responder à lei, como qualquer cidadão. E um ministro do Supremo deve saber disso. Não dá para comparar um contrato de R$ 130 milhões com um terno que supostamente seria um presente, ou uma carona em um jatinho. Como alguém acessa um ministro com as demandas que o Vorcaro trouxe? A gente tem o direito de saber.
Na sua visão, ele não deveria seguir na cadeira de ministro, a partir das conversas descobertas?
Se eu estivesse no lugar do Alexandre de Moraes, eu mesmo tomaria a medida de me afastar, para cuidar da defesa. Uma licença de 90 ou 120 dias. Seria uma atitude digna. Imagina se um juiz de primeira instância que tivesse uma esposa, com um contrato com Vorcaro? E se ele tivesse acionado esse juiz? Se essa situação caísse na mão do Alexandre, o que ele faria? A julgar pelo rigor em outros casos, ele seria muito duro. Se um batom na estátua rende tanta coisa, essas também deveriam. O que a sociedade espera é pela coerência do Supremo. Ou a instituição restabelece sua credibilidade, ou não sei qual vai ser o futuro do Brasil. Se eu fosse o Fachin e tivesse a prerrogativa do afastamento, eu não teria dúvida em fazer isso. Não é de bom tom as coisas seguirem como se nada estivesse acontecendo. Cria um desconforto muito grande.
Falando de economia, qual a mensagem que o governo Lula passa ao sancionar o projeto que acaba com a taxa das blusinhas?
É algo inédito o que o Brasil está fazendo. Existem países liberais que tratam com as mesmas regras quem está do lado de fora e do lado de dentro. Há um segundo bloco que são os protecionistas, que estão em ascensão, especialmente na era Trump. Eles erguem muros para que as empresas produzam em seus países. E há o terceiro bloco que o Brasil é membro único. A mensagem é ‘se você quiser produzir no Brasil e gerar empregos, pode fazer, mas saiba que você vai ter 100% sobre todos os custos. Mas se você optar por fazer isso fora do Brasil, e quiser vender aqui, aí o imposto é zero’. É um modelo absolutamente contra a indústria e o varejo nacional, que leva, em médio e longo prazos, ao desemprego e à queda de arrecadação. É um desastre por completo.
E o quanto vai impactar o varejo brasileiro daqui para a frente?
Vou usar o exemplo das blusinhas, mas essa taxa afeta muitos outros setores, como o pet. Por que uma blusa fabricada no Brasil, vendida por um varejista brasileiro, merece uma carga tão gigante de impostos e a mesma blusinha, produzida em outro país e vendida para o mesmo consumidor, deve ter zero de impostos federais e só com o ICMS? Por que essa diferença?
E por que essa diferença?
Pois é. Já fiz esta pergunta para inúmeras autoridades, para o [ex-]ministro Fernando Haddad. Não existe resposta. Mas habilmente o governo tenta jogar o empresário contra a população. Se coloca como se nós quiséssemos encarecer o produto para as classes C, D e E, como se fôssemos o grande vilão da história. Isso é mais absurdo ainda. É claro que nenhum empresário defende imposto. O que o empresário defende é isonomia. A gente quer ter tratamento igual. Neste caso, tratamento igual seria tirar então o imposto para todas as compras de até R$ 250, o equivalente a US$ 50. Aí seria igual. Praticamente tudo de consumo recorrente no Brasil fica nesta faixa. Mas ele não faz isso porque aí quebraria as contas públicas e aí só renuncia do cross-border. É algo escandaloso, de uma pauta absolutamente eleitoreira. Não tenho a menor dúvida que é uma tática para tentar ganhar a eleição.
“É um crime o que estão fazendo com o varejo brasileiro”
Para o setor pet, o que o fim da taxa de importação vai causar a partir de agora?
No impacto direto, vai afetar cerca de 20% do negócio, com acessórios e brinquedos. Afeta diretamente, porque há produtos e até roupinhas que entram no Brasil sem nenhum imposto. E, nas lojas do Brasil, são fortemente tributadas. Isso cria uma assimetria e pressiona as vendas destes produtos. Mas em médio e longo prazos, vai afetar mais. As pessoas vão começar a perder renda e emprego, e elas são clientes da rede. E um país em que a economia gera renda lá fora e não aqui dentro, não pode ser bom para nenhum setor. E os juros ajudam a aprofundar a desigualdade no país. A minha indignação é muito mais como cidadão brasileiro e menos como empresário. É um crime o que estão fazendo com o varejo, em especial com o setor de vestuário.
Essa é uma pauta que tem diretamente o tempo do calendário eleitoral?
Sim. Ela é tão eleitoreira que há até candidato de oposição está defendendo o fim da taxa das blusinhas. A pergunta que se faz para o governante atual e para os próximos é se quando tiver que construir um hospital, uma escola ou uma estrada, se vão buscar o dinheiro na China. Porque o governo está gerando desenvolvimento para a China, para outros países, e não para o Brasil. Por isso que a gente sempre escuta que o Lula é o melhor presidente que o Paraguai já teve. Mas a única certeza que tenho é que isso não vai ficar assim.
Qual deve ser a consequência desta medida do governo para a economia?
Cada vez mais estas plataformas vão vender mais, o comércio local vai vender menos, vai cair arrecadação. E o governo vai precisar fazer alguma coisa. Mais quantas empresas vão precisar quebrar? Por que está se judiando tanto do varejo? Não é coincidência esta onda de recuperações judiciais. A taxa de juros alta deste jeito é outra razão. Taxa de juros elevada tem a ver com o governo gastar mais do que arrecada. E com que autoridade um governo que gasta mais do que arrecada pode propor uma lei que vai diminuir a arrecadação? Por todos os ângulos deste assunto, é eleitoreiro, irresponsável e não é justo com quem acredita no Brasil. E, sobretudo, não é justo com a população.
Há como explicar esta renúncia fiscal do governo com o fim desta cobrança sobre os produtos importados?
A troco do quê que o governo está abrindo mão de R$ 5 bilhões de arrecadação, com a taxa das blusinhas, para agradar as plataformas asiáticas? É incompressível. Ele [Lula] deve conseguir mais alguns votos por causa disso e talvez o ajude a ganhar a eleição. Mas que é irresponsável para o país, não há nenhuma dúvida. Se isso fosse coerente, outros países fariam isso.
Também é responsabilidade da enorme polarização que hoje o Brasil enfrenta?
Com certeza. A polarização tem levado a gente a um estado de coisas muito tristes. Não se pensa no Brasil, no combate à corrupção, não se pensa em nada. Se pensa só em ganhar eleição e politizar tudo. Qualquer coisa vira Fla-Flu e guerra de versões. A história do fim da escala 6x1 é outra questão. Há uma lei antiga para um mundo diferente, em que cada um tem sua necessidade. Tem gente que quer trabalhar mais, gente que quer trabalhar menos. E, ao invés de atender a estes novos tempos, esta medida empurra as pessoas para a informalidade.
“A taxa das blusinhas é uma pauta eleitoreira, irresponsável e injusta”
Qual seria a melhor saída para esta discussão da redução da jornada de trabalho?
Seria muito mais interessante poder pagar por hora, com todos os direitos trabalhistas. É uma mentira que reduzir a jornada não vai mexer no salário. Quando aumenta o custo da mão de obra, vai gerar efeito inflacionário. E isso significa o mesmo salário com menos poder de consumo. É um jogo de palavras. A população está sendo literalmente enganada, por quem defende de uma maneira equivocada este tipo de proposta. Outra pauta irresponsável e populista.
Como essa medida vai impactar o Grupo Petz Cobasi?
O Grupo Petz Cobasi tem 15,8 mil colaboradores. Se a gente tivesse essa flexibilidade para adequar os horários, a produtividade seria melhor e as pessoas iam poder descansar mais. A pauta eleitoral está com uma agenda de curto prazo que pode ajudar o candidato a se reeleger, mas não fará o menor sentido em médio e longo prazos. Em algum momento, esta conta vai chegar. O nosso banhista, que é CLT, se trabalhar 10% a menos, com o mesmo salário, significa que a mão de obra vai ficar 10% mais cara. O que vai acontecer? Isso vai entrar na planilha e o preço vai aumentar. E vai gerar inflação. O que o governo está fazendo, nos dois casos, é diminuindo possibilidade de emprego. As empresas vão fazer conta e vão repassar. As medidas são inconsequentes, que vão trazer consequências nefastas para o Brasil.
O CEO da Riachuelo afirmou que o fim da taxa de importação vai acabar gerando demissões. Isso pode acontecer também no setor pet?
Espero que não, em curto prazo. Se este cenário de uma economia retraída permanecer, é evidente que pode acontecer. Não conheço nenhum local no mundo em que o varejo prospere em um país que não esteja bem. E o Brasil não está bem.
Há uma previsão de revisão da medida em três meses, já depois da eleição. Também não é ruim?
É um aceno para a racionalidade, mas é muito ruim esta situação. Se há intenção de voltar a taxa e criar a isonomia, deixar zerada durante o período de eleição, é equivocada. E se não houver revisão, é um desastre. Nada aqui é bom. A medida provisória do governo e a aprovação do texto pelo Congresso representam a absoluta falta de compromisso com o futuro do Brasil. Isso inclui a irresponsabilidade da oposição, que criticou o governo quando a taxa foi criada. É uma guerra de narrativas e todos estão envolvidos.
O setor varejista pretende judicializar o assunto?
É uma possibilidade. O IDV, do qual faço parte, está avaliando medidas jurídicas sobre a inconstitucionalidade desta medida, que fere a isonomia tributária. Os estudos serão encomendados. Se houver elementos para isso, vamos buscar este caminho.
Com esta perspectiva, em que condições chegamos a esta eleição, em termos de economia?
A uma economia que não está fazendo o dever de casa. Que, no cenário macro, tem um governo que não faz a lição de gastar menos do que arrecada, que cria uma desconfiança generalizada dos agentes econômicos. Os juros têm muito mais cara de veneno do que remédio. Ela não contém a inflação e ainda destrói a economia. Um governo que não tem essa preocupação. Seja Lula ou um novo governo eleito, se a lição de casa for feita, os juros vão cair de forma rápida.
E quais os caminhos, com base nas duas opções mais bem colocadas, que são Lula e Flávio Bolsonaro?
A considerar os cenários de pesquisa, o que está em questão é se o governo atual vai fazer nos próximos quatro anos o que não fez até agora, ou se vale colocar alguém que diz que vai fazer isso, mas que não estava no governo. Aí é uma avaliação individual. A pior opção é não escolher. Não dá para escapar que um dos dois vai ser eleito.