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A Afterpay conquistou os EUA com o “jeitinho brasileiro”

O velho e surrado crediário, que fez a fama e fortuna da Casas Bahia, foi levado aos EUA pela startup australiana. O NeoFeed conversou com o fundador da empresa que está conquistando o consumidor americano e os investidores. Sua ação, desde o IPO, em 2017, já subiu mais de 1.000%

 

Plataforma que permite que os usuários comprem diversos bens e paguem o valor total em quatro parcelas, sem juros.

O “jeitinho brasileiro” de pagar parcelado está conquistando o consumidor americano e sendo exportado para diversos países pela Afterpay, startup australiana fundada pelo empreendedor Nick Molnar, em 2015.

Ele criou um sistema que lembra o bom e velho crediário, estratégia que fez o sucesso, a fama e a fortuna da Casas Bahia. Trata-se de uma plataforma que permite que os usuários comprem diversos bens e paguem o valor total em quatro parcelas, sem juros.

No Brasil, nada mais velho do que essa “disrupção”. Mas, nos Estados Unidos e na maioria dos países do mundo, a compra parcelada não existe. O máximo que os consumidores americanos conseguem fazer é parcelar sua fatura de cartão de crédito, mas pagando taxas de juros altas.

O modelo da Afterpay é bastante simples. Em vez de cobrar do consumidor, ela prefere taxar os varejistas entre 4% e 6% por cada transação que intermedeia. O consumidor só paga uma taxa se atrasar uma das parcelas.

Para entender melhor, suponhamos que uma pessoa está interessada em um par botas que custa US$ 100. No ato da compra, o consumidor paga US$ 25 e a cada quinze dias outros US$ 25 são debitados automaticamente da conta do usuário, até chegar aos US$ 100.

Caso honre as parcelas no prazo combinado, o cliente não paga nada por essa facilidade. Mas se uma das cobranças deixa de ser atendida, então o Afterpay aplica uma multa fixa de US$ 8. Outros US$ 8 são taxados semanalmente até que o pagamento seja efetuado. As penalidades por atraso têm o teto máximo de 25% do preço total do item comprado. “Mais de 95% de nossas cobranças não incluem nenhum tipo de taxa”, disse Molnar em entrevista ao NeoFeed.

Essa estreita margem de clientes inadimplentes existe graças à análise de dados que permite a Afterpay rejeitar clientes com perfis “pouco confiáveis”. Molnar diz ainda que o varejista, por sua vez, não enxerga a taxa como uma cobrança, pois a plataforma é “uma forma de pagamento focada no consumidor, que aumenta o número de vendas, de conversões e de clientes”.

Em entrevista ao portal eMarketer, o vice-presidente executivo de vendas da empresa, Ben Pressley, explicou que em vez de comprar três itens de uma marca que gostam, os usuários passaram a comprar sete. “Isso fez com que o carrinho de compras fosse de US$ 50 para mais de US$ 100, sendo que a média é de US$ 125”, disse Pressley.

Nick Molnar, fundador da Afterpay

De acordo com o último relatório anual da companhia, divulgado em agosto do ano passado, a plataforma conta com 5,2 milhões de usuários cadastrados, dos quais 4,6 milhões são ativos.

A receita chegou a US$ 112,3 milhões. Mas a Afterpay é deficitária. Suas perdas atingiram US$ 22,2 milhões. O prejuízo, segundo o empreendedor, é atribuído a abertura das operações nos EUA e Inglaterra.

O documento cita ainda que uma média de 12,5 mil novos clientes se inscrevem diariamente no Afterpay, que conta com aproximadamente 90 mil lojistas nos Estados Unidos e 40 mil em outros países que usam a plataforma para parcelar as compras. Ela está presente em mais de 40 países, como Inglaterra,Bélgica, Dinamarca e Nova Zelândia.

Quem cresceu junto com os números foram as ações da empresa. Os papéis que são negociados na bolsa de valores australiana desde junho de 2017 subiram mais de 1.000% desde a abertura de capital, indo de US$ 2,21 aos atuais US$ 26,05. O valor de mercado atual é de US$ 6,6 bilhões.

O bom desempenho no mercado e no varejo faz com que o Afterpay sonhe com voos mais altos. “Esperamos inaugurar operações em novos territórios nos próximos meses e anos”, disse Molnar, mas sem deixar pistas se a América do Sul e o Brasil fazem parte do plano da empresa.

Ampliando a oferta de suas atividades a setores como turismo e até saúde, o empreendedor australiano e sua equipe estão, por ora, focados nos grupos e setores que lhe trazem grande sucesso. “Mais de 85% dos nossos clientes são millennials e geração Z (nascidos em meados de 1990 até o início de 2010), a população que tem mais poder de compra, mas que também é mais cautelosa com o dinheiro”, afirma Molnar.

Segundo ele, esses jovens poupam duas vezes mais que os pais, parte deles da geração Baby Boomer, nascidos depois da Segunda Guerra Mundial. “Aliás, seis a cada dez millennials americanos garantem que poupam para fazer uma aquisição e 71% deles fazem uso de ferramentas de equilíbrio de finanças pessoais”, diz Molnar.

Mas nem tudo são flores na Afterpay. Sete meses atrás, o Australian Transaction Reports and Analysis Centre (Austrac), órgão que fiscaliza as transações no país, afirmou que investigaria a empresa por violar as leis de combate à lavagem de dinheiro e financiamento de terrorismo. A companhia nega todas as acusações, cujo processo segue em andamento.

Paralelo a isso, a empresa também ganhou as manchetes por sobretaxar seus consumidores. Ao optar por finalizar uma compra utilizando a forma de pagamento australiana, os clientes viam o valor total subir — o que não poderia acontecer.

“Quero deixar claro que faz parte do acordo firmado entre Afterpay e seus varejistas parceiros que nenhuma forma de sobretaxa é permitida. O Banco Federal Australiano não tomou uma decisão e nem tornou pública sua posição neste caso, mas, como de costume, estamos colaborando com todas as investigações”, declarou Molnar.

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