A arte para ser vivida com Lygia Clark

A estreia da peça “Lygia.” e a mostra “A linha orgânica de Lygia Clark”, na galeria Bolsa de Arte, convidam o espectador a conhecer a artista que transitou entre as artes visuais e a psicologia

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“Respire Comigo”: Lygia Clark trazia objetos do cotidiano em suas obras, como o tubo que o mergulhador usa para respirar

Ao observar a fresta presente entre a porta e chão, que formava uma suave linha, a artista mineira Lygia Clark (1920-1988) resolveu levar esse sutil espaço entre dois elementos para o seu trabalho. Com um bisturi, ela rasgou sulcos no compensado de madeira em que realizava suas pinturas geométricas, revelando o interior de suas obras.

Essa abertura na superfície da pintura, Clark chamou de “Linha orgânica”. Segundo o curador Luis Pérez-Orama, a nomenclatura se refere à “possibilidade de olhar no interior do corpo da pintura”.

Assim como a “Linha Orgânica”, a peça teatral “Lygia.” e a mostra “A linha orgânica de Lygia Clark”, que estreiam quinta-feira, 07 de abril, na galeria Bolsa de Arte, propõem ao público uma visita ao interior da obra e da vida de Clark.

O monólogo, interpretado pela atriz Carolyna Aguiar, roteirizado por Maria Clara Mattos e dirigido por Bel Kutner, apresenta ao público quem era a pessoa por trás de trabalhos fundamentais da história da arte brasileira.

Mas para o espectador não cair sem paraquedas dentro do pensamento de Lygia Clark, ele é convidado a visitar uma pequena mostra, de cerca de 20 trabalhos produzidos entre os anos 1950 e 1960, selecionados pelo curador Felipe Scovino.

Lygia Clark nasceu em Minas Gerais, em 23 de outubro de 1920. Aos 27 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde iniciou seus estudos em artes. A fim de aprimorar seus conhecimentos, em 1950, mudou-se para Paris, onde viveu por dois anos e teve aulas com artistas como Fernand Léger, que também havia sido professor de Tarsila do Amaral.

De volta ao Rio, fez parte da turma de artistas fundadores do Grupo Frente, precursores da abstração geométrica no Brasil, ao lado dos artistas do Grupo Ruptura, de São Paulo. Foi nessa época que a artista começou os seus estudos sobre a “Linha Orgânica”, e que se concentra parte dos trabalhos apresentados na exposição que acompanha a peça.

“A gente está falando de uma artista que teve mais ou menos 40 anos de produção. A exposição traz uma parcela pequena, mas muito potente de sua obra. São trabalhos muito valorizados no mercado e em instituições de arte”, diz Scovino ao NeoFeed.

São peças produzidas na mesma época de “Contra relevo (Objeto Nº 7)”, de 1959, leiloado por US$ 2,22 milhões pela casa de leilões Phillips, em Nova York, em 2013; e Superfície Modulada nº 4, de 1957, arrematada por R$ 5,3 milhões na Bolsa de Arte de São Paulo, no mesmo ano. Clark está entre as artistas brasileiras mais valorizadas no mercado nacional e internacional.

Todas as obras da exposição são de coleção particulares, as quais raramente o público tem acesso. Scovino também teve o cuidado de selecionar peças que há alguns anos não eram vistas pelo público paulistano. Afinal, na última década, aconteceram apenas duas grandes mostras sobre a artista em São Paulo.

Obra da série “Trepante”, de 1964, que integra a mostra “A linha orgânica de Lygia Clark”

Em 2012, “Lygia Clark: uma retrospectiva”, organizada por Scovino e pelo crítico e curador Paulo Sérgio Duarte, no Itaú Cultural. E outra recente, entre novembro de 2021 e janeiro de 2022, “Lygia Clark 100 anos”, organizada por Max Perlingeiro, na Pinakotheke Cultural.

Entre as obras presentes, Scovino avisa que está um dos Bichos, série icônica da artista de 1960. “Ao selecionar as obras, eu pensei no público que não conhece ou conhece pouco a Lygia Clark para que se entenda o contexto”, explica. “A ideia foi resgatar as obras que são citadas pela atriz Carolyna Aguiar na peça e também introduzir esse início de produção da Lygia Clark. A mostra e a peça se complementam.”

Construindo Lygia Clark

A atriz Carolyna Aguiar alimentava a ideia de fazer algo sobre o trabalho da Lygia Clark há um certo tempo. Sem conseguir definir que formato teria o espetáculo, convidou a roteirista e diretora Maria Clara Mattos para pensar junto. Um dia, chamou Mattos para investigar alguns materiais que Alessandra Clark, neta da artista, estava trabalhando para organizar o portal Lygia Clark – um arquivo digital com imagens de obras, fotos e textos sobre a produção da artista, que foi lançado em outubro de 2021.

Neste dia, Alessandra ofereceu a Mattos uma caixa com cerca de uma dezena de cadernos com os diários da avó. “Quando batemos os olhos nos diários, percebemos que tínhamos um material precioso nas mãos. E resolvemos seguir por esse caminho sobre esses escritos de Lygia. Relatos pessoais que ninguém conhecia”, conta a diretora. Quando Mattos fala sobre ninguém, refere-se inclusive a familiares muito próximos como filhos da artista que não tinham conhecimento do material.

Durante quatro meses, a roteirista ficou imersa nos textos de Clark. Este mergulho fez com que ela compreendesse parte da gênese de algumas obras, que “nascem de questionamentos internos e de sonhos”, revela. “É maravilhoso você saber que aquilo que foi para as galerias, o que a gente conhece da Lygia Clark, vem de um universo muito profundo dela. Nem tanto intelectual, mas de um lugar visceral, de um processo de autoconhecimento.”

A peça, que estreou no Rio de Janeiro, em 2019, só agora chega a São Paulo com a finalidade de continuar a celebração do centenário de Clark. O texto trata principalmente do período em que o trabalho da artista vai perdendo a materialidade e vai ganhando forma a partir da ação e participação do corpo do espectador.

O monólogo, interpretado pela atriz Carolyna Aguiar, trata do período em que o trabalho da artista estava perdendo a materialidade

“Não importa ‘o que’, ‘como’ e ‘por que’ – mas o importante é ‘o vira ser’ que se processa permanente”, escreveu a artista em seu diário em 1963. Naquele mesmo ano, ela criou a performance “Caminhando”, em que propunha ao espectador criar uma fita de Moebius com uma tira de papel e realizar a seguinte ação:

“Tome então uma tesoura, enfie uma ponta na superfície e corte continuamente no sentido do comprimento. Tenha cuidado para não cair na parte já cortada – o que separaria a fita em dois pedaços. Quando você tiver dado a volta na fita de Moebius, escolha entre cortar à direita e cortar à esquerda do corte já feito. Essa noção de escolha é decisiva e nela reside o único sentido dessa experiência. A obra é o seu ato”, explica a artista em um texto sobre a performance.

O curador Felipe Scovino ressalta que algumas das experiências da artista com objetos do cotidiano, que ela chama de “relacionais”, são alegorias de experiências que ela viveu com o próprio corpo. Um exemplo é o trabalho “Respire Comigo”, de 1966. O objeto relacional em questão consiste em um tubo de borracha usado por escafandristas para respirar embaixo d’água.

Em meados dos anos 1960, Clark sofreu um acidente de automóvel, que a deixou hospitalizada respirando com a ajuda de um respirador artificial por alguns dias. Sobre esse trabalho a artista escreveu: “Quando ativada perto do ouvido, essa mangueira de borracha proporciona uma medida da respiração do corpo, revelando o próprio pulmão vivo. Quando nos tornamos conscientes do ritmo do corpo não o esquecemos rapidamente.”

Terapia como arte

Em 1968, após expor seu trabalho na Bienal de Veneza, Clark se mudou novamente para Paris, onde passaria os próximos oito anos. Na capital francesa, foi convidada a dar aulas na Sorbonne e começou a fazer e estudar psicanálise. “Meu trabalho, que de um ano e meio para cá aboliu completamente o objeto e se exprime somente pela parte gestual, está fora de qualquer esquema de arte”, escreveu a Hélio Oiticica em 1971.

Em sua última entrevista, em 1986, a artista revelou que produzia arte para se compreender como um ser humano: “o que eu queria mesmo era me elaborar através do meu trabalho, e é o que sempre fiz. Até onde pude”. Ao retornar ao Brasil, em 1976, não encontrou mais lugar para a sua produção no meio artístico.

Declarou-se como uma “não-artista”. Passou a usar o seu conhecimento de psicanálise e suas experiências e práticas em arte a fim de ajudar outras pessoas com a terapia “Estruturação do Self”. Clark atendia em sua casa principalmente amigos, conhecidos e artistas como Caetano Veloso e Jards Macalé.

“Ela foi massacrada pelo círculo psicanalítico. Mas não se preocupou muito com isso, não. Estava muito certa do que queria fazer”, afirma Scovino. A ideia da linha tão presente em seu trabalho, como limite entre o dentro e fora, interior e exterior, é também o local onde Clark atuou a partir da década de 1970 – na fronteira entre a arte e a psicologia. De acordo com Mattos, a artista-terapeura acreditava que “a arte não era algo para ser visto, mas para ser vivido”. E “Lygia.” convida a todos a viver a estruturação de Clark.

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