A BEE4 quer ser a “divisão de acesso” à B3. E já tem o aval da CVM

Após receber aprovação da CVM, a BEE4 se prepara para ser lançada em março de 2022 e ser um ambiente de negociações de ações de empresas que querem chegar à elite do mercado de capitais

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Desde a semana passada, o celular da executiva Patricia Stille, ex-sócia da XP, tem pipocado com mensagens e ligações de colegas do mercado financeiro que lhe fazem a mesma pergunta: o que vocês estão fazendo é uma ameaça à B3?

Patrícia, então, diz que não e explica que a ideia é lançar, em março de 2022, uma plataforma de negociação de ações que seja uma porta de entrada para companhias que um dia querem chegar à Bolsa.

Se a B3 é a divisão de elite das empresas listadas no Brasil, o novo negócio comandado pela executiva seria uma espécie de divisão de acesso. “Queremos ser um celeiro para a B3”, afirma Patrícia, em entrevista ao NeoFeed.

O nome da plataforma até que parece com o da B3, e é proposital: BEE4 (lê-se o quatro em inglês). O “BEE” é uma sigla para Balcão Organizado de Negociação de Empresas Emergentes.

O objetivo é atrair companhias que já não são mais uma startup dando os primeiros passos, mas que ainda não atingiram grau de maturidade suficiente para terem ações negociadas na tradicional bolsa brasileira – com faturamento anual entre R$ 10 milhões e R$ 300 milhões.

As três letras do nome também fazem referência a uma “irmã” do projeto. Os donos da BEE4 são os mesmos da Beegin, uma plataforma de equity crowdfunding, que faz ofertas públicas de startups com até R$ 10 milhões de faturamento anual.

Trata-se do Grupo Solum, que tem entre seus sócios Pedro Janot, ex-CEO e cofundador da Azul. Os demais são Alexandre Amitay, Rodrigo Fiszman, também ex-XP e CEO do grupo, e a própria Patrícia, que atua como CEO da Beegin e agora é responsável pela BEE4.

O fato de a empreendedora ter começado a receber mensagens na semana passada não aconteceu por acaso. Foi quando o projeto de criação da BEE4, feito em parceria com a Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP), recebeu o aval da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para operar.

Patrícia Stille, Alexandre Amitay (em pé) e Rodrigo Fiszman são três dos sócios do Grupo Solum, dono da BEE4

Na mesma leva, a CVM também aprovou um projeto de plataforma de negociação de cotas de fundos e debêntures de empresas, criado por meio de uma parceria da Vórtx, uma fintech de infraestrutura para o mercado de capitais, com a QR Capital, holding do setor de blockchain e criptoativos. A plataforma se chamará Vórtx QR Tokenizadora.

Os dois projetos estavam entre as 33 iniciativas inscritas no mais recente edital lançado pela CVM, no chamado sandbox regulatório, que convoca empresas a proporem projetos que desafiem a regulação vigente do órgão.

Não há, por exemplo, uma norma da CVM que regule plataformas como a da BEE4. Até por isso, a licença concedida pelo edital é temporária, de 12 meses, e pode ser renovada por mais 12. Até lá, a partir dessas experiências, o regulador terá condições de saber se consegue criar e como poderia ser uma regulação definitiva.

A Beegin no caso, está sob a regulação da instrução 588, para plataformas de equity crowdfunding, como CapTable, Kria, Clearbook e EqSeed. Além de estarem limitadas à listagem de startups com até R$ 10 milhões de faturamento anual, as plataformas não podem proporcionar um ambiente de compra e venda de ações, o chamado mercado secundário. Apenas podem fazer rodadas de captação de no máximo R$ 5 milhões.

No projeto da BEE4, apenas as companhias que se listarem na Beegin poderão ter suas ações negociadas na nova plataforma. Fundada em setembro de 2020, a Beegin já fez ofertas para quatro empresas: a Engravida, uma rede de clínicas de reprodução humana; a Company Hero, que resolve burocracias de forma digital para empreendedores; a Globus Seguros, uma corretora; e a Socipar, de empreendimentos imobiliários.

Na Beegin, as rodadas levantam, em média, de R$ 2,5 milhões a R$ 3 milhões, com uma média de 107 investidores em cada. Da base de clientes da plataforma, 80% são qualificados, com mais de R$ 1 milhão aplicados. A aplicação mínima na Beegin é de R$ 5 mil e o tíquete médio por investidor, até o momento, é de R$ 28 mil.

“Nosso foco é o investidor de longo prazo, que entende que o risco é maior e sabe que o investimento conosco será uma parte menor do seu portfólio”, diz Patrícia.

Se alguma das empresas ofertadas na Beegin quisesse listar suas ações na BEE4, apenas a Engravida teria condições, pois é a única com mais de R$ 10 milhões de faturamento anual.

No início, a nova plataforma terá apenas uma empresa listada, por alguns meses, para garantir que tudo ocorra bem até que outras possam entrar. O nome da primeira companhia, porém, ainda não foi revelado.

O que vem pela frente

Patrícia, no entanto, afirma que, nos 12 meses de licença temporária da CVM, a BEE4 espera listar as ações de pelo menos dez empresas, com ofertas iniciais a serem realizadas na Beegin e que podem girar entre R$ 30 milhões e R$ 50 milhões para cada.

A empreendedora, portanto, espera movimentar cerca de R$ 500 milhões em captações no período. As rodadas poderão levantar no máximo R$ 100 milhões cada uma. A Beegin, que ficará a cargo das ofertas, embora seja uma plataforma de startups que só pode fazer rodadas de até R$ 5 milhões, receberá uma “dispensa regulatória” da CVM.

Para criar o modelo da BEE4, o Grupo Solum buscou algumas inspirações no exterior, entre bolsas de empresas emergentes. Entre elas, estão a canadense TSX Venture Exchange e a AIM, da London Stock Exchange. Outra é a americana Forge, uma plataforma de negociação secundária de startups. E, por fim, a holandesa Nxchange, plataforma de emissão e negociação de security tokens.

Para o especialista em mercado de capitais Marcus Vinicius Pimentel da Fonseca, head da área de inovação financeira do escritório de advogacia TozziniFreire, a chegada da BEE4 será positiva para gerar concorrência com a B3, ainda que a nova plataforma seja focada em empresas menores. “O desafio será atrair investidores dispostos a investir no ambiente da BEE4 e gerar liquidez nas negociações”, afirma Pimentel, ao NeoFeed.

“Nosso foco é o investidor de longo prazo, que entende que o risco é maior e sabe que o investimento conosco será uma parte menor do seu portfólio”

Para superar essas barreiras, Patrícia já tem algumas estratégias. Uma delas é fazer parcerias com corretoras, para atrair mais investidores do varejo e também os institucionais.

A ideia, segundo ela, é que os investimentos em ações listadas na BEE4 possam ser feitos sem que o investidor saia do home broker da sua corretora. Por enquanto, ainda não há nenhuma parceria fechada.

Além disso, para gerar mais liquidez, a BEE4 quer definir um dia da semana no qual as negociações serão abertas, para concentrar os volumes. “Assim o investidor já se prepara com antecedência”, afirma. O dia mais cotado, por enquanto, é a quarta-feira.

O que a empreendedora não se arrisca a prever é o volume de negócios que pode gerar, pois depende das empresas que vão se listar, do porte de cada uma delas e do grau de atratividade.

Na B3, em 2020, foram R$ 6,45 trilhões em volume financeiro movimentado. A Bolsa conta com cerca de 400 empresas listadas, das quais 83 compõem o Ibovespa, o principal índice acionário da única bolsa de valores em operação no Brasil.

As emergentes

Segundo Patrícia, a escolha por um mínimo de R$ 10 milhões de faturamento anual para as empresas que podem entrar na BEE4 se deve à intenção de mirar negócios que já tenham alguma musculatura e um determinado nível de governança.

Para terem as ações negociadas, as companhias terão de se comprometer a apresentar balanços auditados em até um ano após a listagem, além das diligências pelas quais essas empresas passam para fazer a oferta na Beegin. Antes de se listarem, terão de apresentar um contrato com algum auditor que prove que os balanços passarão pela auditoria.

O modelo de receita será similar ao da B3, com uma taxa que será cobrada na listagem e outra que será anual, para manutenção. Além disso, haverá também cobranças em cima de cada liquidação. Os valores, porém, ainda não podem ser revelados.

Embora não esteja mirando startups em estágio inicial, a BEE4 poderá se beneficiar do aquecimento que esse segmento tem vivido. Com o aumento dos investimentos feitos por fundos de venture capital, poderá surgir, no médio prazo, um leque maior de empresas de médio porte buscando ter ações listadas em plataformas – o que vale também para a B3.

De janeiro a setembro deste ano, as startups brasileiras levantaram US$ 6,4 bilhões em aportes, alta de 89% em relação a todo o ano de 2020, segundo o Inside Venture Capital Report, relatório produzido pela Distrito. Nas plataformas de equity crowdfunding, foram R$ 84 milhões movimentados no ano passado, avanço de 43% em relação a 2019, segundo levantamento anual da CVM.

Em breve, outras plataformas de equity crowdfunding esperam se juntar à BEE4 entre as instituições que podem oferecer mercado secundário. A liberação ainda está em discussão na CVM, assim como uma possível elevação do máximo de faturamento anual da empresas, de R$ 10 milhões para R$ 30 milhões. Executivos do setor acreditam que isso deve ocorrer ainda neste semestre.

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