ARTIGO: Com mais mulheres no palco, temos em quem nos espelhar

Por séculos, aceitamos, por achar que fazia sentido, os papéis secundários, tão essenciais quanto, mas sem a força das macro decisões que regem a forma de agirmos no mundo

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Comecei no mercado financeiro há quase 20 anos, como estagiária na mesma empresa em que estou até hoje. Estava no final do curso de economia e a securitização era ainda um tema novo no Brasil. A primeira operação é de 2001.

Lembro de como me tocava a ausência de mulheres na linha de frente da empresa, cujos negócios eram conduzidos por homens – com eles aprendi muito, mas sentia falta de me espelhar em outras mulheres no mercado financeiro. Via mulheres na minha empresa e em outras, mas a grande maioria começava pelo serviço administrativo, algo que parecia mais “ajustado” ao perfil feminino. 

Fiz teatro durante muitos anos durante a adolescência e aprendi a viver papéis e a me desfazer deles. Pois nós mulheres temos a responsabilidade de rever o que um dia nos disseram que era certo, o que era errado, o que podíamos ser e “representar” na vida. 

No Brasil, as mulheres são a maioria da população, 51,29% (IBGE). E apesar da escolaridade maior, ocupamos apenas 37,4% dos cargos gerenciais e a maioria recebe 77,7% do que é pago aos homens. Os dados estão na pesquisa Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil, também do IBGE.

Especificamente no mercado financeiro, alguns números exemplificam esse vácuo nas posições ocupadas por mulheres. Do total de profissionais certificadas como Gestores de Carteiras Anbima (CGA), apenas 7% eram mulheres. 

No Brasil e no mundo, há várias iniciativas que buscam incentivar esse espelhamento fundamental para termos mais e mais mulheres no mercado financeiro. Uma delas é a Fin4 She e seu compromisso com a protagonismo feminino e independência financeira.

Já nos Estados Unidos, a organização Girls Who Invest (GWI), fundada em 2015, se dedica a aumentar a participação feminina na gestão de portfólios e na liderança de gestoras de investimento. A meta é que 30% dos recursos sob gestão no mundo, em 2030, estejam sob o cuidado de mulheres. Um contraste ao volume sob gestão feminina em 2014, quando não chegava a 10% do total. 

Li recentemente sobre o desafio feminino de ocupar posições de liderança. E em todos os setores. Na indústria do cinema, por exemplo, temos grandes estrelas, mas pouquíssimas diretoras. A primeira vencedora de um Oscar pela direção de um filme foi Kathryn Bigelow, em 2010. E tudo começa com o número escasso de mulheres nessa função. De 2007 a 2019, os diretores homens superaram as diretoras numa proporção de 20:1. 

A questão não está em superar os homens, ultrapassá-los, vencê-los, aliás a inclusão e a colaboração só funcionam quando abrimos espaço para todas as pessoas no palco. O desafio para nós mulheres é que, por séculos, aceitamos, por achar que fazia sentido, os papéis secundários, tão essenciais quanto, mas sem a força das macro decisões que regem a forma de agirmos no mundo.

Meu convite a partir deste mês de luta é arriscar vários papéis e questionar as histórias que nos contaram e contam até hoje sobre o que cabe a homens e mulheres. Aceitei o desafio de me tornar CEO da OPEA, uma plataforma de securitização, em 2021. Desde então, tem me tocado a responsabilidade de estar numa posição, num papel, que pode inspirar outras mulheres.

Para a construção da diversidade real e inclusiva precisamos de personagens em quem nos espelharmos e passar a atuar em conjunto. O mercado financeiro é só um deles, mas há o cinema, o teatro, a política.

Flavia Palacios é CEO da OPEA

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