ARTIGO: Nas eleições 2022, risco ou oportunidade?

A grande questão que se coloca é se podemos ter a reedição de 2003, com a forte apreciação dos ativos brasileiros em função da má precificação do “risco Lula”

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Se Lula vencer, teremos Bull market ou Bear market?

Nos mercados, quando uma visão ou a percepção de um risco se torna unânime, significa que ela já foi refletida nos preços. Onze entre dez analistas de mercado e gestores afirmam que as eleições de 2022 trarão alta volatilidade e são o maior risco para os ativos brasileiros hoje.

A partir do segundo trimestre de 2021, adotamos postura bastante cautelosa com ativos brasileiros. Naquele momento, ficou absolutamente claro que a popularidade necessária para a reeleição do Presidente era inconsistente tanto com a sensação de bem-estar na economia quanto com o Orçamento Federal.

A única agenda do Governo passou a ser a compra de popularidade e o resto da história já é sabida, com o rompimento na prática do teto de gastos. Após a aprovação da PEC dos Precatórios, o Mercado quis acreditar que o risco fiscal estava resolvido até as eleições, mas a sinalização de reajuste salarial a policiais federais espalhou a insatisfação para outras categorias do serviço público.

A deterioração fiscal foi uma das responsáveis por colocar os ativos financeiros brasileiros entre os piores do mundo e, paradoxalmente, a bolsa do México (com um governo de Esquerda) teve uma performance substancialmente melhor que a B3 (com retorno em dólares de 15%, comparada à perda de 21% no caso brasileiro).

Contudo, setores do Mercado Financeiro ainda vêm grande risco econômico na candidatura do ex-presidente Lula, líder inconteste nas pesquisas. Uma pergunta-clichê que será repetida exaustivamente ao longo do ano é a seguinte: “Qual Lula eventualmente tomará posse em 2023: o pragmático do primeiro mandato ou um radical vingativo?”.

Na nossa opinião, este é um debate pouco relevante, dados os imperativos políticos que cercam a candidatura de Lula. Também por isso, os movimentos do ex-presidente até o momento apontam na direção de uma estratégia que busca ser pragmática e capaz de estabelecer conversações com distintas forças do espectro político-partidário brasileiro.

Costuma-se dizer que, em determinadas circunstâncias, o poder é como o violino: toma-se com a mão esquerda e se toca com a direita. Além disso, é muito importante entender a estrutura de incentivos do candidato Lula neste momento. Qualquer sinalização aos agentes de Mercado só servirá para ajudar o ocupante do Palácio do Planalto com a apreciação dos ativos brasileiros, especialmente o Real com seus efeitos positivos na inflação.

Uma pergunta-clichê que será repetida exaustivamente ao longo do ano é a seguinte: “Qual Lula eventualmente tomará posse em 2023: o pragmático do primeiro mandato ou um radical vingativo?”

Neste sentido, a importância dada ao artigo escrito recentemente pelo ex-ministro Guido Mantega pode ser excessiva. Ademais, é preciso estar atento aos determinantes políticos que envolveram as manifestações de Lula e de seus aliados acerca de uma eventual política econômica de um novo Governo do PT.

Partidos não são estruturas monolíticas e o eventual posicionamento mais ao Centro de uma chapa Lula-Alckmin gera alguma indisposição entre as tendências mais à Esquerda do PT. Por isso, é estratégia dos setores mais pragmáticos e centristas do partido (dos quais Lula faz parte) transmitir sinais internamente apaziguadores, reiterando certos elementos trabalhistas do tradicional receituário econômico das Esquerdas.

Tal discurso está, assim, mais voltado à harmonização das divisões internas do partido do que à formulação de uma efetiva política econômica de forte ruptura (ainda que eventuais flexibilizações das reformas do período Temer sejam esperadas por ocasião de um novo Governo mais à Esquerda a partir de 2023).

Neste sentido, interlocutores privilegiados da cúpula do partido têm dito nos bastidores que o discurso programático de Lula não será, de fato, fiscalista, mas tampouco abandonará determinados princípios de responsabilidade fiscal já vistos ao longo do primeiro mandato do ex-presidente.

Internamente, repete-se o discurso segundo o qual o controle de despesas correntes deve, sim, estar submetido a algum dispositivo de âncora fiscal, mas tal disciplina não poderia inibir a capacidade de investimento e de crescimento da economia brasileira.

Quais elementos deveríamos monitorar para avaliarmos os possíveis caminhos econômicos de um eventual governo do PT a partir de 2023?

Então, quais elementos deveríamos monitorar para avaliarmos os possíveis caminhos econômicos de um eventual governo do PT a partir de 2023? Nesta tarefa, parte importante dos grandes veículos jornalísticos tende a posicionar seus holofotes sobre os grandes personagens do partido (Lula, parlamentares mais destacados, dirigentes de alto nível da legenda).

No entanto, tal exercício poderia ser um pouco mais profundo e se voltar também para a compreensão da dinâmica interna do PT, para os seus grupos tradicionalmente chamados de “Tendências” (que são importantes, pois o partido é muito orgânico).

Assim, na perspectiva do Mercado, o importante seria que, em um eventual Governo do PT, os setores mais ideológicos do partido não estivessem em áreas estratégicas como a Casa Civil, a Fazenda ou o Planejamento (que poderiam novamente se desmembrar), ou mesmo o Itamaraty.

Seria provável, no entanto, que tais tendências mais à Esquerda estivessem em pastas voltadas à execução de políticas sociais, dividindo cargos com partidos mais fisiológicos que viessem a apoiar o novo Governo. São estes os sinais a serem monitorados ao longo dos próximos meses.

De qualquer modo, a maior indicação de que um eventual 3º mandato do ex-presidente Lula teria mais espírito de conciliação pragmática do que de revanchismo é o esforço que vem sendo feito para que o ex-Governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, seja seu companheiro de chapa. Ao que nos parece, ambos os lados têm interesse no acordo. Então, “if there’s a will, there’s a way”.

Para além de sinalizar moderação e abrir canais de comunicação ao Centro, a presença de Alckmin na mesma chapa de Lula teria o objetivo, segundo seus defensores, de garantir certa estabilização em um período pós-eleições que poderia ser difícil para um novo Governo Lula (em razão de desafios internos ou externos). No entanto, o próprio ex-presidente sabe que a estabilidade econômica seria seu maior aliado em um eventual 3º mandato. E muito mais importante do que isso é o fato de que o Congresso concentra grande parte do poder político nacional.

As relações conflituosas da então presidente Dilma Rousseff com o Legislativo e seu subsequente impeachment mostraram que nosso sistema presidencialista é fortemente contrabalançado pela força de um Parlamento – amálgama de uma diversidade de interesses setoriais e regionais – predominantemente conservador na pauta dos costumes e de tendências econômicas mais liberais.

O resultado deste modelo produziu um processo legislativo moroso e frequentemente superficial, mas também capaz de aplainar eventuais agendas econômicas vistas como excessivamente carregadas de tintas antiliberais. Paradoxalmente, o maior risco no processo eleitoral que se aproxima vem do atual momento político do país.

Para além do que já foi dito, ainda existe espaço para deterioração fiscal adicional. Mais importante: grandes consultorias globais de risco político como a Eurasia seguem alertando para potenciais processos de violência ao longo do período eleitoral e para possíveis contestações do resultado das eleições, com cenários hipotéticos sob a forma de uma versão brasileira da invasão do Capitólio de 6 de janeiro de 2021 nos EUA.

Esse é um risco que vem sendo considerado há algum tempo e que, por isso, não pode ser de todo ignorado. Porém, também é sabido que o presidente Bolsonaro tem sofrido acelerado processo de desgaste e de fragilização de sua liderança para além dos setores sociais que lhe são mais fiéis. E a capacidade de liderar tensionamentos depende em boa parte da disposição dos atores com poderes coercitivos (normalmente, Forças Armadas e agentes policiais) de seguirem sem grandes contestações as ordens do líder político.

Simplificadamente, é o que se chama na Ciência Política de “Autoridade” – isto é: a capacidade consolidada no tempo, quase automatizada, de que dispõe o líder para fazer com que outros atores façam o que ele ordena sem que existam questionamentos a respeito. No jargão da Ciência Política, a “Autoridade” é o exercício consolidado da “Legitimidade” (que se manifesta quando um ator obedece ordens para além do receio de punição; ele o faz por alguma crença internalizada, institucionalizada, ou mesmo “mística”).

Bolsonaro sofre hoje essa crise de autoridade também nos setores militares, notadamente nas Forças Armadas (onde são questionados os possíveis custos legais, profissionais e mesmo pessoais do apoio a eventuais ameaças às Instituições em um cenário de tensionamento político-eleitoral).

Tudo isto posto, a grande questão que se coloca é se podemos ter a reedição de 2003, com a forte apreciação dos ativos brasileiros em função da má precificação do “risco Lula”. Podemos então escolher entre as famosas citações de Karl Marx ou Mark Twain. O primeiro disse que “a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa”; enquanto o segundo dizia que “a história não se repete, mas frequentemente rima”.

Marcio Olímpio Fernandes é analista de risco político e estrategista eleitoral com mais de 15 anos acompanhando o processo decisório em Brasília, especialmente no Congresso Nacional. É fundador da consultoria Quorum – Estratégia Política & Relações Governamentais.

Roberto A. Attuch Jr tem mais de 25 anos de experiência no mercado de renda variável na América Latina, foi diretor do Credit Suisse e do Barclays e fundou a OHMRESEARCH.

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