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Cinco discos para entender Chick Corea, o pianista que ajudou a eletrificar o jazz

Ao longo de seis décadas de carreira, o americano se tornou uma das maiores referências no gênero. Ampliou as possibilidades que o piano e o sintetizador ofereciam ao jazz, buscou referências na música latina e continua influenciando outros músicos até hoje

 

Chick Corea foi um dos maiores pianistas da história do jazz

No final dos anos 1960, o trompetista Miles Davis (1926-1991) já havia revolucionado o jazz um punhado de vezes. Influenciado pelo rock e pelo pop da época, deu origem a uma outra revolução que ecoa até hoje.

Recrutou alguns dos jovens músicos mais promissores da época, trocou pianos acústicos e contrabaixos por sintetizadores e guitarras e lançou as bases para o que mais tarde seria conhecido como fusion, ou jazz-rock.

Todos que tocaram naqueles grupos de Davis se tornaram lendas dentro do jazz, cada um à sua maneira. Chick Corea foi um dos responsáveis pelos teclados nessas bandas. E, ao lado de Herbie Hancock e Keith Jarrett, compõe o trio de pianistas mais influentes do jazz moderno.

Recebeu 23 Grammys, o primeiro ainda nos anos 1970 e o último no ano passado. Morto em decorrência de um câncer, no dia 9 de fevereiro, aos 79 anos, ele foi uma das figuras mais influentes do fusion, mas explorou ritmos latinos, tocou com trios mais tradicionais, gravou duetos com músicos tão diferentes quanto o vocalista Bobby McFerrin e o banjoísta Béla Fleck.

Lançou ainda uma série de registros de seus concertos solo, em que mostra sua capacidade de criação e improvisação no calor do momento, em cima do palco. Mergulhar em sua discografia sem saber por onde começar é uma tarefa complicada. São mais de 80 discos de estúdio, quase duas dúzias de discos ao vivo e outros tantos em que aparece como convidado.

Para entender um pouco da importância de Corea para o jazz e conhecer algumas das sonoridades que o americano explorou ao longo de uma trajetória de quase 60 anos, o NeoFeed separou uma lista com cinco álbuns, todos disponíveis nas plataformas de streaming.

1 – “Bitches Brew”, de Miles Davis (1970)

Quando foi lançado, este álbum de Davis chocou os fãs e os críticos. As composições eram longas, com 20 minutos, ocupando lados inteiros do então vinil duplo, e a sonoridade desafiava qualquer definição.

Durante as gravações, o trompetista dava apenas alguns acordes e pequenas direções aos músicos, e os guiava em improvisações bastante exploratórias, como um maestro vanguardista. As longas sessões foram depois recortadas e coladas pelo produtor Teo Macero, parceiro de longa data de Davis, nas faixas que acabaram no LP.

Embora fosse bem pouco comercial, o disco vendeu bem, se tornou uma das obras mais importantes do jazz e influenciou uma geração de músicos que vieram depois, do funk ao rock alternativo. Para se ter uma ideia, é citado como referência por gente tão diferente quanto Thom Yorke, do Radiohead, e a cantora canadense Joni Mitchell.

2 – “Return to Forever” (1972)

Esta é a primeira gravação com a banda Return To Forever, que Corea montou na década de 1970, após sair do grupo de Miles Davis, e revisitou diversas vezes ao longo dos anos. Acompanhado pela vocalista brasileira Flora Purim, o músico usa o piano elétrico para criar um clima meio espacial, pontuado por ritmos latinos e brasileiros.

É um trabalho mais sutil que ajudou também a definir a sonoridade que a gravadora alemã ECM exploraria a partir de então, tornando-se um dos principais nomes do gênero e referência até hoje. Com a ECM, Corea gravou uma dezena de discos.

Em outros discos com o grupo, o som se voltou mais para o que ficou conhecido como o fusion dos anos 1970: manifestações de virtuosismo, composições em tempos pouco comuns e uma intensidade mais próxima do rock.

3 – “My Spanish Heart” (1976)

Ao lado de alguns de seus parceiros do grupo Return To Forever, como o baixista Stanley Clarke e o violinista Jean-Luc Ponty, Corea misturou elementos elétricos, como os sintetizadores, com uma orquestra completa em pequenas suítes que exploravam a música latina de forma mais profunda.

A mistura de jazz e rock que Corea ajudou a lançar deu origem a inúmeros imitadores que tinham muita técnica, mas pouco talento como compositores. Muitos trabalhos da época impressionam pela velocidade com que os músicos tocam, mas são facilmente esquecidos.

Em “My Spanish Heart”, Corea uniu o virtuosismo a seu talento como compositor. Não à toa, uma tem como “Armando’s Rhumba” se tornou um standard do jazz, como são conhecidas as músicas que fazem parte do repertório do gênero e ganham reinterpretações.

4 – “The Mozart Sessions” (1996)

Chick Corea cresceu ouvindo jazz – seu pai era trompetista em grupos de Dixieland, o estilo de Nova Orleans, nos anos 1930 e 1940. Mas ele estudou música clássica e este disco mostra sua versatilidade tocando temas de um dos maiores compositores da música ocidental.

Além do acompanhamento de uma orquestra, Corea recebe a contribuição de Bobby McFerrin, que ficou conhecido mundialmente como o cantor de “Don’t Worry, Be Happy”, mas era um músico fenomenal que usava a voz como um instrumento – e esse trabalho é prova desse talento.

5 – “Antidote” (2019)

Um dos últimos trabalhos do pianista e vencedor do Grammy, “Antidote” é um resumo do interesse de Corea pela música latina. O foco são os ritmos da América do Sul e da América Central, como a salsa e a bossa nova, e o resultado é um disco acessível e dançante.

Para acompanhá-lo, Corea montou um novo grupo, a The Spanish Heart Band, e chamou alguns convidados, como o cantor panamenho Rubén Blades, que aparece na primeira música, “Antidote”, e a brasileira Maria Bianca, para uma interpretação de “Desafinado”, de Tom Jobim.

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