Como Anna Delvey e o “Golpista do Tinder” exploram uma característica central da natureza humana

Professora da Universidade de Cornell responde a pergunta que todos se fazem quando assistem as séries “Inventando Anna” e “O Golpista do Tinder”: como tantas pessoas puderam ser ingênuas e acreditar nas histórias fantasiosas de dois vigaristas?

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Cena da série “Inventando Anna”, da Netflix: as pessoas queriam acreditar em Anna Sorokin

Talvez ela tivesse tanto dinheiro que simplesmente o perdeu de vista. Talvez tenha sido tudo um mal-entendido. É assim que os alvos de Anna Sorokin explicavam os estranhos pedidos da suposta herdeira alemã, como dormir no sofá durante uma noite, ou pagar passagens de avião em seus cartões de crédito, que ela depois acabaria se esquecendo de pagar.

Tema de uma nova série da Netflix, “Inventando Anna”, Sorokin, que disse às pessoas que seu nome era Anna Delvey, arrancou mais de US$ 250 mil de ricos renomados e empresas de luxo de Manhattan entre 2013 e 2017. Acontece que sua linhagem era uma miragem. Ao contrário disso, ela era estagiária de uma revista de moda e vinha de uma família de imigrantes russos da classe trabalhadora.

No entanto, as pessoas ao seu redor foram rápidas em aceitar suas estranhas explicações, até mesmo criando desculpas que eram difíceis de acreditar. Os detalhes do caso Sorokin são os mesmos de outra produção recente da Netflix, “O Golpista do Tinder” (“The Tinder Swindler”), que conta a história de um vigarista israelense chamado Simon Leviev.

Ele convenceu as mulheres que conheceu no aplicativo de namoro a emprestar-lhe grandes quantias de dinheiro com apelos igualmente inacreditáveis: de que ele era um bilionário cujos inimigos estavam tentando localizá-lo e, por razões de segurança, não podia usar seus próprios cartões de crédito.

Como é que tantas pessoas puderam ser ingênuas o suficiente para cair nas histórias fantasiosas contadas por Sorokin e Leviev? E por que mesmo quando “o alerta laranja estava por toda parte” – como disse uma das vítimas de Sorokin – as pessoas continuaram acreditando nesses vigaristas, gastando seu tempo com eles e concordando em emprestá-los dinheiro?

Como psicóloga social que escreveu um livro sobre nosso surpreendente poder de persuasão, não vejo isso como uma falha incomum da natureza humana. Em vez disso, vejo as histórias sobre Sorokin e Leviev como exemplos de maus atores explorando os processos sociais em que as pessoas confiam todos os dias para garantir comunicação e cooperação humana eficientes e eficazes.

Confiar é ser humano

Apesar da crença de que as pessoas são céticas por natureza, prontas para gritar “te peguei!” a qualquer erro ou descuido, nada disso vem ao caso. Pesquisas mostram que as pessoas têm como padrão confiar nos outros em vez de desconfiar deles, acreditando neles mais do que duvidando, e aceitando o que alguém diz quando se apresenta em vez de constrangê-lo chamando sua atenção.

As pessoas têm como padrão confiar nos outros, aceitando o que alguém diz quando se apresenta em vez de constrangê-lo chamando sua atenção

Elle Dee, uma DJ a quem Delvey uma vez pediu para pagar uma conta 35 mil euros num bar, descreveu a facilidade com que as pessoas aceitavam com as afirmações de Delvey: “Eu acho que ela nem tinha que se esforçar tanto. Apesar de sua história totalmente doentia, as pessoas estavam muito afim de acreditar nela.”

Ainda pode ser difícil crer que as pessoas do círculo de Sorokin entregaram de bom grado seu dinheiro a alguém que mal conheciam. No entanto, por muitos anos psicólogos observaram participantes de centenas de experimentos entregarem seu dinheiro a completos estranhos.

Nesses estudos, os participantes são informados de que estão participando de vários tipos de “jogos de investimento”, nos quais têm a oportunidade de entregar seu dinheiro a outro participante na esperança de receber de volta com rendimentos.

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O que é fascinante nesses estudos é que a maioria dos participantes é cética sobre a possibilidade de ver seu dinheiro novamente – tampouco ter qualquer retorno sobre seu investimento – e ainda assim o entrega. Em outras palavras, apesar das profundas ressalvas, eles ainda escolhem confiar em um completo estranho.

Há algo profundamente humano nesse impulso. Os seres humanos são criaturas sociais, e confiar uns nos outros é algo que está embutido em nosso DNA. Como o psicólogo David Dunning e seus colegas destacaram, sem confiança é difícil imaginar empreendimentos como o Airbnb, o compartilhamento de carros ou uma democracia operante tendo algum sucesso.

Mentirosos são a exceção, não a regra

É claro que os pedidos de Sorokin eram frequentemente acompanhados de explicações e justificativas elaboradas, e você pode se perguntar por que tão poucas pessoas pareciam duvidar da veracidade de suas alegações. No entanto, assim como a confiança é um padrão da interação humana, a presunção de sinceridade é uma expectativa padrão da comunicação básica.

Essa máxima da comunicação foi proposta pela primeira vez por Paul Grice, um influente filósofo da linguagem. Grice argumentou que a comunicação é um esforço cooperativo. Entender um ao outro requer um trabalho em conjunto. E para fazer isso, deve haver algumas regras básicas, uma delas é que ambas as partes estão dizendo a verdade.

Em uma era de “verdadices” e “fake news”, tal premissa pode parecer absurda e ingênua. Mas as pessoas mentem muito menos do que você imagina

Em uma era de “verdadices” e “fake news”, tal premissa pode parecer absurda e ingênua. Mas as pessoas mentem muito menos do que você imagina; na verdade, se a suposição padrão fosse que a pessoa com quem você fala está mentindo, a comunicação seria quase impossível. Se eu te desafiasse a saber se você de fato leu todos os livros que afirma ter lido, ou se o bife que você comeu ontem à noite estava realmente cozido demais, nós nunca chegaríamos a lugar algum.

Pesquisadores encontraram evidências experimentais para o que às vezes é chamado de “verdade padrão”. Em uma série de estudos, os pesquisadores pediram aos participantes que avaliassem se as afirmações eram verdadeiras ou falsas. Às vezes, os participantes eram interrompidos para que não conseguissem processar totalmente as afirmações. Isso permitiu que os pesquisadores chegassem à suposição padrão das pessoas: em caso de dúvida, seu padrão seria acreditar ou desacreditar?

Acontece que quando os participantes não eram capazes de processar completamente as afirmações, eles tendiam a simplesmente assumir que eram verdadeiras.

A relutância em acusar

Mesmo que os alvos de Sorokin tivessem dúvidas sobre a história dela, é improvável que eles a denunciassem.

A teoria clássica de “facework” (teoria da face), do sociólogo Erving Goffman, argumenta que para nós, chamar a atenção de alguém – sugerir que essa pessoa não é quem ela está dizendo ser ao se apresentar – é tão desconfortável quanto ser a acusada. Mesmo quando alguém vê o outro fazendo algo de que discorda, reluta em dizer qualquer coisa.

Outros estudos exploraram esse fenômeno. Um deles descobriu que as pessoas hesitam em criticar os outros por usar uma linguagem racista da qual discordam ou por assédio sexual.

Por mais que você queira acreditar que se estivesse no lugar das pessoas que foram alvos de Sorokin e Leviev, teria tido coragem de botar a boca no trombone denunciando toda a farsa, é provável que, em vez de tornar as coisas desconfortáveis para todos, você simplesmente deixasse passar.

Sem aceitar as pessoas pelo que elas apresentam ao mundo, não há base sobre a qual construir um relacionamento

A tendência de confiar, acreditar e concordar com as explicações de alguém sobre as coisas pode parecer uma desvantagem. E é verdade, essas inclinações podem expor as pessoas. Mas sem confiança não há cooperação; sem assumir que os outros estão dizendo a verdade, não há comunicação; e sem aceitar as pessoas pelo que elas apresentam ao mundo, não há base sobre a qual construir um relacionamento.

Em outras palavras, os mesmos recursos que parecem falhas quando explorados são na verdade a própria essência do que significa ser humano.

*Vanessa Bohns, professora associada de comportamento organizacional da Cornell University e autora de “You Have More Influence Than You Think”

Este artigo foi publicado originalmente no The Conversation

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