Dá para os EUA subestimarem a ascensão da China? Um livro diz que não

O livro “A China venceu?” explica como o país mais populoso do mundo avança para liderar a economia mundial ao mesmo tempo em que os americanos desdenham dessa força e alimentam um embate ideológico equivocado

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Trinta anos depois da dissolvição da União Soviética e da decretação do fim da Guerra Fria entre capitalistas e comunistas, as duas ideologias podem estar bastante desgastadas, mas o embate continua. De um lado, os Estados Unidos, em crise desde 2008. Do outro, uma China ainda declarada comunista, mas que pratica uma geopolítica de economia de mercado capitalista implacável.

O problema é que o ocidente segue a desdenhar dos chineses e de sua tradição milenar, em vez de procurar saber o que realmente está acontecendo para que se tornem a potência número um do mundo. Faz tempo, por exemplo, que a China deixou de ser o país da pirataria e dos produtos de má qualidade. Hoje, o país da Grande Muralha abastece o mundo com grandes marcas e com itens de alta qualidade.

Fato é que essa disputa está apenas no começo e deve durar pelo menos uma ou duas décadas, de acordo com analistas. A guerra comercial está declarada há mais de 20 anos e encontrar um livro que ajude a entender o que acontece é sempre bem-vindo. É o caso de A China venceu? – O desafio chinês à supremacia americana, de Kishore Mahbubani, que a editora Intrínseca acaba de lançar.

Mahbubani é um respeitado acadêmico do Asia Research Institute, da Universidade Nacional de Cingapura, e tem sólida carreira diplomática de 33 anos. Além de reitor da Lee Kuan Yew School of Public Policy, ele morou por mais de dez anos em Nova York como embaixador de Cingapura na ONU. Em 2019, foi eleito para a Academia Americana de Artes e Ciências e é mundialmente reconhecido como o principal intelectual público da Ásia, com vários livros publicados.

De forma clara e leitura instigante, Mahbubani mostra como a China tem pensado e agido em escala global, a partir de investidas ambiciosas junto aos líderes dos países mais ricos do mundo. Enquanto isso, destaca ele, congressistas e empresários americanos desdenham do que acontece e aplaudem os ataques de seus governos à China, que se mantém firme, decidida e inabalável, como se fosse um exército de conquista em marcha.

Os americanos resistem em considerar, por exemplo, que a sociedade chinesa não é mais feudal e rural – embora use a opressão do regime comunista que cunhou como ferramenta de controle político e social. Ao contrário, diz Mahbubani, está totalmente engajada em um mundo de inovação, tecnologia e noções de dinamismo, ao mesmo tempo em que recuperou sua confiança cultural.

Para Mahbubani, os EUA assistiram seu modelo econômico ser seriamente abalado pela crise financeira de 2008 – e o país passar por quatro anos de paralisia e retrocesso no governo de Donald Trump. Seria como demorar mais do que devia para trocar os pneus de um carro de Fórmula 1 nos boxes e ver o principal adversário dar seguidas voltas na pista. Outra analogia conhecida é o “perder o bonde da história”. Só que, nesse caso, ainda dá tempo de se recuperar.

O autor observa que há até quem afirme que os EUA não são mais a grande potência, mas um adversário estagnado. Defende que em qualquer grande competição geopolítica, a parte que consegue permanecer racional e serena sempre terá vantagem sobre aquela movida por emoções, conscientes ou não. “A ascensão global da China e o declínio estratégico dos americanos representam um desafio político que eles nunca enfrentaram antes”. Nem nos tempos da União Soviética, quando eram protagonistas.

O livro “A China venceu?”

Uma das passagens interessantes do livro são as dez grandes questões que o autor levanta, com longas e bem fundamentadas perguntas, e que vão orientar a leitura sobre a guerra comercial e tecnológica que se estabeleceu entre os dois países, além da ideológica. Em destaque, escreve, “está a hipótese de que o resultado a partir de agora dependerá principalmente da capacidade (ou da falta desta) de os dois lados entenderem e respeitarem profundas diferenças em civilizações construídas ao longo de centenas e até milhares de anos”.

Os formuladores de políticas dos EUA, recomenda Mahbubani, precisam abandonar sua complacência e rever as estratégias internas e externas que enfraqueceram as bases sociais e a posição global do país. Entre as reflexões que propõe está o que muitos consideram a maior questão em relações internacionais: como evoluirá essa relação e seus reflexos em todo o planeta, porque há claros sinais de que o atrito permanente parece mais provável?.

Se isso acontecer, os EUA podem ficar para trás, mais por causa dos seus próprios erros. Em especial, o seu fracasso em compreender a realidade chinesa, diz Mahbubani. Apesar do título provocativo de seu livro, o autor faz uma interpretação imparcial sobre os cenários que poderiam se apresentar na rivalidade entre China e EUA.

É uma obra que, à medida que o leitor avança, tira-o da sua “zona de conforto de sobrepor a ideologia comunista ao avanço capitalista dos chineses”, até se transformar em uma leitura assustadora ou impressionante. Mesmo assim, predomina uma visão positiva que é possível mudar esse contexto pelo diálogo. “Ou todos (e não apenas a China e os EUA) vencem ou ninguém vence, enquanto o mundo vive um momento crucial da história”.

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