Em 2022, uma safra excepcional de uvas tintas no Brasil (“culpa” do La Niña)

Os vinhos nacionais vão ser mais concentrados num estilo próximo dos países vizinhos, como o Uruguai, em função do aumento do calor e da seca no Sul do país

0
281
Leia em 7 min

Vinhedo da vinícola Miolo

As condições climáticas deram um novo perfil para os vinhos brasileiros. O resultado de calor e seca excessiva no Sul foi uma produção nacional que vai render vinhos no estilo de outros países sul-americanos, em especial o Uruguai.

Com isso, o Brasil terá mais tintos concentrados e cheios de fruta e menos brancos e espumantes frescos. O ano de 2022 foi o mais extremo desde 2018 quando o fenômeno La Niña passou a impactar na região.

No Rio Grande do Sul, estado que concentra 90% da produção de vinhos finos do país, até videiras, que são pouco tolerantes à umidade e resistentes à seca, sofreram com essa nova configuração de “clima mediterrâneo”.

Em novembro e dezembro, meses que os cachos das uvas começam a se formar e amadurecer, o índice de chuvas na Serra Gaúcha não chegou 30% da média histórica na região.

“Algumas videiras jovens e plantadas em solos rasos, onde a rocha está muito próxima da superfície, chegaram a morrer pela seca”, disse Marcos Gabbardo, professor doutor de enologia da Unipampa (Universidade Federal do Pampa).

O fenômeno climático La Niña tem intensificado o período de estiagem no Sul do país, entre novembro e março. Esses meses correspondem aos da formação e amadurecimento dos cachos das uvas. De forma simplificada, o excesso de chuva nessa fase implica em podridão antes do amadurecimento e o excesso de calor resulta em uvas carentes de acidez.

O Brasil, que havia encontrado sua vocação na produção de espumantes, agora parece ter que virar a chave e lidar com o “bom problema” de ter melhores uvas para a produção de tintos. “Desde a década de 80, tínhamos em média, duas safras boas por década. Agora, nos últimos oito anos tivemos cinco safras ótimas”, comentou Gabbardo.

Até então, a grande incidência de chuvas no Brasil a partir de março (as águas de março que fecham o verão) direcionava os produtores de vinhos para a produção de uvas brancas e tintas de ciclo de curto, com potencial maior de acidez e menor graduação alcóolica, condição positiva para os espumantes.

Alvarinho se sobressaiu por ser mais resistente ao calor

“Neste ano tivemos dias que bateram os 40ºC em janeiro. Neste cenário, as variedades brancas sofrem mais que as tintas e achar o ponto de colheita das uvas para espumante foi crucial”, diz Miguel Almeida, enólogo da vinícola Miolo.

Gabbardo, que produz os vinhos da sua família na Serra Gaúcha pretendia produzir um espumante de Chardonnay neste ano. Mas, com as ondas de calor, as uvas passaram do ponto em poucos dias. “As uvas estavam ótimas para um vinho branco potente, com potencial para passar por barricas. Acabei vendendo a produção para a cooperativa Aurora.”

Tanto Miguel Almeida quanto Marcos Gabbardo concordam que será um ano para espumantes mais frutados e menos tensos na acidez. “Em janeiro foi uma loucura na Miolo. Tinha dias que recebia mais de 100 mil quilos de uvas. Hoje, com 40% da safra ainda por colher, recebo cerca de 30 mil quilos por dia para processar”, comentou Miguel Almeida.

Por outro lado, Alejandro Cardozo, enólogo uruguaio da vinícola Guatambu e que é sócio das vinícolas Estrelas do Brasil e EBV, destaca que 2022 tem sido um ano histórico em termos de qualidade.

Barbera foi a casta de destaque no campo da Unipampa

“Claro que tivemos episódios de extremo calor e seca, que afetaram parcelas de vinhedos plantadas próximas à laje de basalto na Serra Gaúcha, mas os bons vinhedos entregaram uma uva excepcional”, disse o profissional eleito “enólogo do ano” pela Associação Brasileira de Enologia e pelo guia Descorchados (ambos 2021).

Na Campanha, região próxima à fronteira com o Uruguai, que tem vocação para tintos e brancos potentes, em solos mais profundos (em relação à Serra Gaúcha), a colheita foi de uvas de grande qualidade.

Em 2018, a Miolo lançou uma edição de vinhos que são um retrato deste novo perfil. Chamada de “Os 7 Lendários”, tem sete rótulos de tintos ícones (e potentes) dos diferentes terroirs onde cultivam vinhedos.

A vinícola repetiu a dose em 2020 (R$ 1.595, Merlot Terroir 2020, Testardi Syrah 2020, Miolo Lançamento Cabernet Sauvignon 2020, Lote 43 2020, Quinta do Seival Castas Portuguesas 2020, Sesmarias 2020, Vinhas Velhas 2020) e deve fazer o mesmo este ano. “Não por acaso 2018, 2020 e 2022 foram anos que o La Niña esteve presente”, diz Almeida.

A edição Os 7 Lendários, da Miolo, terá sua versão em 2022

Algumas castas se saíram melhor diante dos desafios climáticos. O enólogo Alejandro Cardozo destacou que recebeu um lote de Alvarinho com acidez em nível de espumante. Miguel Almeida, por sua vez, chamou a atenção para a Touriga Nacional. Coincidentemente são duas das variedades recentemente autorizadas a ser cultivadas na tradicional região de Bordeaux exatamente devido a boa resistência de ambas ao calor.

Marcos Gabbardo, que conta com um vinhedo experimental de 4,5 hectares da universidade, em Campanha, com 40 variedades cultivadas, destacou ótimos resultados com a branca Viognier e a tinta Barbera.

Os três enólogos, entretanto, concordam que o grande desafio em 2022 está na enologia, isto é, quais caminhos as vinícolas adotarão para transformar as uvas em vinhos.
Alejandro Cardozo destaca que o desafio será não estragar a uvas.

“O nível de qualidade é altíssimo e é uma tentação para o enólogo não fazer vinhos muito concentrados”, diz Cardozo. Isso porque apesar de agradar os consumidores, este estilo, na opinião dos especialistas, tira a expressão de origem, ou seja, suprime o terroir.

O enólogo que também é consultor em diversas vinícolas na América do Sul está ciente que o atual momento é dos tintos mais elegantes, não tão concentrados e com menor presença do carvalho.

Gabbardo destaca que sempre foi uma luta ter uvas tão boas para tintos e que agora é natural a vontade de extrair ao máximo (às vezes, confundido com muito) o potencial destas uvas tintas. “É um ano para a ousadia, as uvas permitem isso.”

No caso de Almeida, o desafio para uma vinícola de grande porte está na produção dos vinhos para serem consumidos jovens. “As uvas têm ótimo material para se extrair das cascas. Só que não podemos fazer apenas vinhos de guarda.”

O lado bom para o consumidor é que nos tintos de linhas mais simples da safra 2022 o upgrade na qualidade deverá ser mais notório.

O que já pode ser degustado e comparado

Enquanto os vinhos da safra 2022 ainda não estão no mercado – os primeiros devem ser lançados a partir de abril (no estilo de Beaujolais Noveau) – é possível provar esta nova fase dos vinhos brasileiros com alguns rótulos, como o espumante Estrelas do Brasil Brut Riesling Itálico 2021 (R$ 55, estrelasdobrasil.com.br), e os tintos Estância Guatambú Lendas do Pampa Tannat 2021 (R$ 194,40, guatambuvinhos.com.br), Salton Desejo Merlot 2018 (R$ 125, salton.com.br).

Dois exemplares uruguaios e três brasileiros que mostram a aproximação no estilo dos vinhos

O Uruguai, pela proximidade geográfica da Campanha Gaúcha e portfólio de variedades tintas (Tannat, Merlot e Marselan, em especial), acaba servindo como referência no comparativo com esta nova leva de vinhos brasileiros.

A vinícola uruguaia Cerro Chapéu, que produz o Ysern Gran Tradición Tannat 2019 (R$ 168, na vinhosdomundostore.com), está a cerca de 30 km de um dos vinhedos da Miolo na Campanha (Projeto Almadén).

A zona de produção mais tradicional do Uruguai, Canelones, está mais próxima da capital e tem a vantagem dos ventos que sopram constantemente do estuário do Rio da Prata.

Assim, no “antigo normal” mesmo com as chuvas de verão (tal qual no Brasil), os ventos e o solo, profundo e poroso, do Uruguai evitam o acúmulo de umidade nas videiras, permitindo uma colheita mais consistente para tintos. Uma realidade da qual hoje o Brasil se aproxima. O Bouza Tannat Parcela B6 2018, por exemplo, é um clássico de Canelones (R$ 523,90, na decanter.com.br)

Leia também

Brand Stories