Emparedada, Tencent “pula” a Muralha da China para jogar outro game

Dona do WeChat e da Epic Games, a gigante tem sofrido com o aperto regulatório do governo chinês. Por isso, tem avançado em outros países, com aquisições e aportes em startups, principalmente de games

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Enquanto o governo chinês aperta o cerco contra as empresas locais de tecnologia, com o anúncio de regulações cada vez mais duras, as companhias do setor não ficam de braços cruzados. Uma das saídas tem sido olhar para além da Muralha da China e apostar em outros países, onde os caminhos podem estar mais livres para os investimentos.

A Tencent, dona do superapp WeChat e de outros negócios bilionários, acelerou o passo em seu processo de internacionalização. Só no primeiro semestre de 2021, a companhia fez 34 investimentos em outros mercados, oito vezes mais do que os quatro negócios realizados em 2020, segundo levantamento publicado pelo jornal britânico Financial Times. Em igual período de 2019, haviam sido apenas três.

Só na Europa, foram 16 investimentos realizados na primeira metade de 2021, a maioria na área de games. Um deles foi a aquisição da desenvolvedora holandesa de jogos Gamebasics, por meio de uma unidade britânica da Miniclip, uma subsidiária da Tencent que atua como um site de jogos e tem sede na Suíça. A transação, anunciada em junho, não teve valor divulgado.

“Regulamentações mais rígidas e taxas de crescimento em declínio na China fizeram com que mais empresas chinesas olhassem para o mercado externo”, disse, ao Financial Times, o analista Daniel Ahmad, que atua na Niko Partners e acompanha o mercado de jogos.

Listada em Hong Kong e avaliada em US$ 618,3 bilhões, a Tencent faz investimentos em negócios próprios, como o WeChat, e em outras empresas. O portfólio da companhia tem centenas de ativos. No início de 2020, o presidente da companhia, Martin Lau, afirmou que já havia investido em mais de 800 empresas, grupo que inclui a fintech brasileira Nubank.

A área de games tem sido uma das principais frentes de negócios. Entre eles, além da suíça Miniclip, estão a Activision Blizzard, a Epic Games e a Riot Games, este um estúdio responsável por franquias como League of Legends, e a Supercell, criadora do jogo Clash of Clans.

No segundo trimestre, a receita da Tencent com games cresceu 12% em relação a igual período do ano passado, para 4,3 bilhões de yuans. Segundo a empresa, a expansão foi impulsionada principalmente pelos jogos Honour of Kings, PUBG Mobile, Valorant, Clash of Clans e Moonlight Blade Mobile.

Para fazer aquisições, a Tencent tem recorrido às suas subsidiárias

Para fazer as aquisições, a Tencent tem recorrido, na maioria das vezes, às subsidiárias, uma estratégia para avançar de maneira silenciosa. Em março, por exemplo, a Image Frame Investment, subsidiária da empresa em Hong Kong, comprou 3,7% da Rakuten, um e-commerce japonês, por US$ 607 milhões.

Mas não só. Também sem fazer barulho, a Tencent tem participado de uma série de rodadas de investimento para startups em Cingapura, Índia, Japão, Coreia do Sul e Austrália.

O mais recente golpe da China contra empresas como a Tencent ocorreu no início da semana, quando a mídia estatal chinesa anunciou que as crianças só seriam autorizadas a jogar videogames online por apenas três horas por semana. Martin Lau, presidente da companhia, já havia alertado os investidores, no mês passado, que esperava que a pressão regulatória se intensificasse.

Honor of Kings, um dos principais games da Tencent

A Tencent, aliás, já havia introduzido restrições sobre por quanto tempo os menores de idade poderiam jogar online, após a mídia estatal classificar os jogos como “ópio espiritual”. No acumulado do ano, as ações da companhia em Hong Kong caem 14,69%.

Além de casos como esse, o aperto regulatório da China está principalmente relacionado aos dados dos usuários das companhias de tecnologia. As autoridades têm buscado garantir a segurança das informações e combater abusos de competição por parte das empresas maiores. Também tem anunciado regras para dificultar a abertura de capital no exterior.

O caso mais emblemático dos últimos meses foi o da Didi, dona da 99. Após a empresa realizar o seu IPO em Nova York, no fim de junho, com a captação de US$ 4,4 bilhões, a China exigiu uma revisão das práticas de segurança da companhia e pediu para que parasse de cadastrar novos usuários. Desde o IPO, as ações da companhia caem 35%.

E a Tencent não é a única a olhar para o exterior. A ByteDance, dona da rede social de vídeos curtos TikTok, tinha planos de abrir capital em Nova York, mas, com o aperto das autoridades, agora se prepara para fazer a oferta em Hong Kong. O IPO deve ocorrer entre o fim deste ano e o início do ano que vem.

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