Entre a escassez e a abundância, os relógios suíços acertam os ponteiros

O maior evento de relógios do mundo, Watches & Wonders, reúne pela primeira vez manufaturas concorrentes num clima de otimismo com 15% de crescimento nas exportações em 2022

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O Rolex GMT-Master II com coroa à esquerda e moldura em verde e preto gerou bochicho pelos corredores da feira: parece estar de cabeça para baixo no pulso de não-canhotos

GENEBRAApós dois anos com edições exclusivamente virtuais, o salão de relojoaria, agora chamado Watches & Wonders, acontece até o próximo dia 5 de abril, em Genebra, na Suíça, em formato híbrido. Mas esta edição tem outra peculiaridade.

É a primeira vez que maisons concorrentes estão juntas num mesmo evento, no Palexpo, o pavilhão de exposições de Genebra, depois do fim da feira Baselworld que era realizada na Basileia.

Patek Philippe, Rolex e TAG Heuer, do grupo LVMH, por exemplo, se juntaram ao grupo Richemont que tem marcas como Cartier, Montblanc, Panerai, IWC num total de 38 expositores, na disputa pela atenção de compradores e colecionadores de todo o mundo.

Mesmo com o cenário de incertezas com a guerra da Ucrânia e os efeitos da pandemia, o mercado tem recebido o público com um certo otimismo, uma vez que o relatório da Federação da Indústria Relojoeira Suíça (FH) registrou um crescimento de 15% nas exportações de relógios suíços nos dois primeiros meses deste ano em relação ao mesmo período de 2021.

Os convidados puderam ver alguns dos principais lançamentos das companhias participantes, com muitas peças em edição limitada esgotadas logo nas primeiras horas da feira. Como uma nova versão do relógio Excalibur, da Roger Dubuis, que foi lançado com oito unidades, e que traz um exótico mostrador com microesculturas de cavaleiros da Távola Redonda esculpidos em ouro, com detalhes em vidro de Murano azul.

É um produto concebido em tiragem limitadíssima para o público da Ásia e do Oriente Médio, mais para ser exibido e do que necessariamente ver as horas. Seu preço foi estimado em US$620 mil.

A edição especial do relógio Excalibur, da Roger Dubuis, com miniesculturas do Cavaleiros da Távola Redonda: vendida no primeiro dia com preço estimado de US$ 620 mil

O clima é de recuperação do mercado. Segundo a FH, o total de exportações de relógios suíços em 2021 fechou em 21,2 bilhões de Francos Suíços (CHF) (cerca de R$ 110 bilhões), um crescimento de 31,2% se comparada à queda acentuada de 2020, momento em que o mercado chegou a bater os menores níveis da última década, e 2,7% maior que em 2019.

Tais dados reúnem toda a produção da relojoaria que ostentam o selo “Swiss Made”, que inclui relógios mecânicos (com corda automática ou manual), relógios a quartzo e relógios inteligentes com fabricação em território helvético.

O crescimento pode ser medido pela escassez de produtos disponíveis no mercado. Rolex, a grande estrela da feira, que estreia seu stand em Genebra este ano, foi líder em vendas em 2021, com um total de 28,8% de todo o mercado, de acordo com o relatório do Morgan Stanley em parceria com a consultoria LuxeConsult. Isto representa um total em CHF 8 bilhões em vendas (R$ 41 bilhões).

A marca tem sofrido pela alta demanda e com a falta de seus produtos em lojas e revendedores, mas nega que tenha reduzido sua produção nos últimos dois anos deliberamente. As longas listas de espera em praticamente todas as boutiques seriam resultado de uma “adaptação de sua equipe da manufatura no início da pandemia”.

A linha Submersible, da Panerai, tem modelos elaborados em e-Steel, aço composto por 95% de material reciclado

A gigante e líder do Grupo Richemont, Cartier, aparece em segundo lugar no volume de vendas, com CHF 2,3 bilhões (R$ 11,8 bilhões). A maison, pelo primeiro ano, toma a posição que antes era ocupada pela suíça Omega, que deixou de fazer exibições em grandes feiras no ano de 2018, o que ressalta a importância dos trade-shows no mercado em médio prazo. Seu faturamento foi de CHF 2,2 bilhões (R$ 11,1 bilhões)

Também fora das grandes feiras desde 2019, Audemars Piguet é a quarta maior marca em volume de vendas com CFH 1,58 bilhão (R$7,9 bilhões). Seus relógios estão escassos nos pontos de venda e a companhia adotou como estratégia a comercialização de produtos apenas em suas lojas próprias.

Mercado local

O mercado brasileiro, por sua vez, segue a mesma tendência, fechando 2021 com números bastante semelhantes aos de 2019, cerca de CHF 23,9 milhões (R$ 123 milhões) depois de uma queda de mais de 34% durante 2020.

Os primeiros dois meses de 2022 já representam um crescimento de quase 50%, quando comparados ao mesmo período do ano anterior. Além disso, o preço médio de cada relógio mecânico (movidos a corda) para exportação saltou de CHF 2,7 mil (R$ 14.000), em 2021, para CHF 3,4 mil (R$ 17.500), em 2022.

Tais números podem ser creditados à recente abertura da boutique da relojoaria Franck Muller, no Shopping Cidade Jardim, em São Paulo, e também à recente inauguração de uma nova boutique TAG Heuer também em São Paulo: mais pontos de venda, maior demanda de estoque.

Mesmo com este resultado, o mercado brasileiro possui um tamanho 48% menor do que em 2012, com uma representatividade de menos de 1,5% do mercado mundial. Para efeito de comparação, o mercado asiático chega a consumir mais de 50% da produção mundial e Estados Unidos, em 2021, respondeu por 13%.

Cores de novos tempos

IWC lançou a coleção Top Gun em cores Pantone

Enquanto a temática dos últimos anos passou pelos relógios azuis, verdes, pretos e também os sustentáveis – com materiais de baixo impacto ambiental ou mesmo reciclados –, até então o evento se mostra bastante plural.

As cores são, contudo, um tema quase uníssono, como um respiro após os tempos sombrios ocasionados pelo período de isolamento durante o pico da pandemia. A relojoaria IWC lançou sua nova coleção Top Gun com cinco cores patenteadas em parceria com a Pantone.

A Montblanc trouxe a temática dos glaciares do Mer de Glace, aos pés do Montblanc, na França, aos mostradores em tons de azul, preto e verde. Panerai investe em seu mais recente best-seller, a linha Submersible, com modelos elaborados em e-Steel, aço composto por 95% de material reciclado, em diversos tons de mostrador e uma nova linha de pulseiras multicoloridas e intercambiáveis.

Cartier trouxe peças exuberantes com conhecimento joalheiro

Dentre os lançamentos da líder do mercado, a Rolex, o GMT-Master II (CHF 10,5 mil ou R$ 52,8 mil) com coroa à esquerda e moldura em verde e preto, gerou bochicho pelos corredores da feira. O relógio parece estar de cabeça para baixo no pulso de não canhotos. Mas a proposta da manufatura foi, na verdade, estabelecer um novo padrão ao criar um design que não incomodasse a mão. Já a versão do modelo Yacht-Master cravejada de diamantes e safiras está entre os favoritos do público feminino.

A Cartier enche os olhos com peças exuberantes que envolvem o conhecimento joalheiro, traz cores com peças de tons monocromáticos e resgata suas raízes com a coleção Privé, com peças da linha Tank Chinoise.

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