Insiders

Fiverr, a empresa que cresce junto com o desemprego

Plataforma é um marketplace internacional para freelancers. Profissionais podem oferecer os mais variados serviços, de design à contabilidade, e encontrar clientes em 160 países. Desde o começo da pandemia, companhia viu seu valor de mercado saltar 265%, mas ainda opera no prejuízo

 

Fiverr vale quase US$ 3 bilhões

A paralisação das atividades econômicas achatou uma curva, a do contágio, mas fez outra disparar – a do Fiverr. Desde que as medidas de distanciamento social entraram em  vigor, em março deste ano, esse marketplace de trabalhos freelancers viu seus papéis saltarem 265% e seu valor de mercado avançar para os atuais US$ 2,8 bilhões.

Há um ano sendo negociada na bolsa de Nova York (NYSE), a plataforma foi terreno fértil nessa crise global: com milhares de trabalhadores desempregados e outros tantos com salário reduzido, a procura por oportunidades pontuais e remotas disparou – como era esperado.

Usuários como a filipina Chin Leobrera, de 22 anos, chegaram aos montes. A arquiteta conta ao NeoFeed que a empresa para a qual trabalhava “segurou” o quanto pode os contratos dos funcionários, mas era esperado que a força financeira da companhia, em algum momento, minguasse. 

“Para garantir renda, passei a fazer pequenos bicos de design para parentes e amigos, e um desses ‘clientes’ me indicou o Fiverr. Fiz uma pesquisa e vi que era um site simples, e que não seria difícil aderir”, disse.

Oferecendo trabalhos gráficos que variam entre US$ 10 e US$ 15, Chin sabe que a concorrência na plataforma é grande e que não deve ver grandes retornos num futuro a curto prazo. “Por se tratar de um ambiente internacional, eu só espero que o Fiverr me coloque em um mercado mais diverso e que, futuramente, eu tenha clientes que me tragam alguma estabilidade”, conta.

Isso não significa, contudo, que Chin pretende abandonar a busca por um emprego formal. A Filipina segue disparando currículos, mas confessa que, mesmo que consiga recolocação, vai continuar insistindo na plataforma para ter projetos paralelos.

Essa postura parece ser comum aos demais freelancers cadastrados na Fiverr, que no primeiro trimestre deste ano reportou um aumento de 44% em sua receita, chegando a US$ 34,2 milhões.

Os ganhos foram puxados pelo avanço da procura: a plataforma registrou um crescimento de 17% dos “contratantes”, que já são 2,5 milhões, e um aumento de 18% do ticket médio, que agora é de US$ 177. Apesar de comemorar os índices positivos, a companhia ainda opera no prejuízo – que, nesse primeiro trimestre, foi de US$ 6,1 milhões. 

Essa operação negativa, segundo a empresa, tem a ver com o movimento de expansão internacional. A plataforma desembarcou este ano na Alemanha, França e Espanha e, ao todo, já está presente em mais de 160 países, inclusive no Brasil.

Em todos eles, o modelo de negócios é igual – o freelancer descreve quais serviços pode oferecer, estabelece suas regras, prazos e critérios e define seu preço. O site fica com 20% de todas as transações feitas em seu ambiente e, de acordo com a companhia, foram mais de 50 milhões delas desde que os israelenses Micha Kaufman e Shai Wininger levaram a plataforma ao ar, em 2010.

Mas nem sempre as regras foram exatamente essas. Quando a plataforma foi lançada, o valor padrão era US$ 5 – daí o nome “Fiverr”, de cinco em inglês –, e o site abocanhava US$ 1 do total. 

Foi apenas em 2015 que o marketplace de trabalho freelancer deu aos usuários a liberdade de cobrarem o que acham justo, podendo oferecer serviços de milhares de dólares. Ao adotar essa estratégia, o Fiverr se abriu a profissionais mais experientes – e caros, claro.

A arquiteta filipina Chin Leobrera, de 22 anos

A plataforma se tornou mais diversa e completa e, em 2017, implementou ainda a ferramenta Fiverr Pro, que nada mais é que uma curadoria dos melhores profissionais em cada área, de fotografia à contabilidade. 

“Muita gente critica a chamada ‘economia gig’ dizendo que se trata de uma corrida para o fim do poço, mas aqui a gente permite que as pessoas definam seus valores. E, como tudo nesta plataforma é baseado em reputação, eu diria que é uma corrida para o topo, não para o fundo do poço”, declarou Micah Kaufman, que é cofundador e CEO do Fiverr, ao jornal The Sydney Morning Herald.

De fato, todos os freelancers apresentados na plataforma trazem pontuações em estrelas e impressões de outros clientes. É natural que os freelancers mais bem classificados recebam mais pedidos de trabalho, o problema é que essas avaliações podem ser forjadas.

Diversos grupos no Facebook trazem discussões de pessoas pedindo para que outros usuários contratem seus serviços e deixem avaliações positivas, prometendo recompensas financeiras pelo trabalho. A empresa não respondeu sobre as medidas que está tomando para evitar essa falsificação, mas artimanha semelhante quase saiu cara aos freelancers da plataforma.

Em 2015, diversos usuários postaram no Fiverr que, por um punhado de dólares, escreveriam avaliações positivas de produtos na Amazon. Mas a empresa de Jeff Bezos jamais permitira que terceiros bagunçassem impunes o seu sistema, e declarou uma guerra judicial a mais de mil freelancers do Fiverr. Graças a uma colaboração entre as empresas, porém, os processos foram suspensos.

Embora esse tipo de serviço esteja agora banido da plataforma, o vale-tudo por dinheiro ainda impera por ali e era natural que a coisa toda se tornasse ainda mais “sangrenta” em tempos de pandemia. “O Fiverr ilustra bem como passamos de carreira, para trabalho e agora tarefa. E tarefas feitas de casa, que é o que todo mundo quer nos últimos tempos: trabalhar remotamente”, explica ao NeoFeed a professora Alexandrea J. Ravanelle, autora do livro “Hustle and Gig”, sem tradução para o português. 

Formada em sociologia, Ravanelle comenta ainda que o problema do Fiverr é como a competição se dá. “Você não concorre com alguém de sua cidade, mas de outro país, com fuso horário e moeda diferentes, o que colabora para aumentar a disparidade”, diz. 

Apesar da crítica, a professora reconhece os benefícios do Fiverr, que ela cita como sendo a plataforma que conseguiu fazer a “comodificação” de talentos considerados caros, mas por um preço justo. 

E não foi apenas Ravanelle que enxergou esse ineditismo no site. Grandes fundos de investimento também reconheceram o potencial da plataforma, que levantou US$ 22 milhões em três rodadas. Entre os que apostaram na empresa estão o Bessemer Venture Partners e Square Peg Capital. 

Mesmo tendo arrecadado consideravelmente menos que seu principal “rival”, o Upwork, que levantou US$ 168 milhões desde 199, o Fiverr tem mostrado um investimento com melhor retorno.

O Upwork, que nasceu mais como uma plataforma para aquisição de talentos em um modelo de negócio formal e só depois se adaptou ao modelo do Fiverr, vale hoje US$ 1,6 bilhão – quase a metade da israelense.

Siga o NeoFeed nas redes sociais. Estamos no Facebook, no LinkedIn, no Twitter e no Instagram. Assista aos nossos vídeos no canal do YouTube e assine a nossa newsletter para receber notícias diariamente.

Leia também

UM CONTEÚDO:

NEOFEED REPORT

Baixe o relatório “O mapa de ataque das grandes empresas”

VÍDEOS

Assista aos programas CAFÉ COM INVESTIDOR e CONEXÃO CEO