Na Espanha, os vinhos de Jerez ressurgem com rótulos de qualidade

Depois de enfrentarem uma grave crise nos anos 1990, os produtores da região da Andaluzia, na Espanha, investem em qualidade e o resultado começa a aparecer. Saiba com aconteceu esse renascimento

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Vinhedo na Andaluzia, região sul da Espanha, onde são produzidos os vinhos de Jerez

No início dos anos 1990, os vinhos de Jerez estavam afundados em uma grave crise, depois de um momento próspero nas décadas anteriores. Entre 1972 e 1975, por exemplo, a exportação havia mais do que triplicado, de 75 mil botas (barril com 500 litros) para 250 mil botas, onde a Inglaterra absorvia 66% deste volume.

Como o ciclo de produção de um Jerez, desde a plantação do vinhedo até a saída da garrafa para o mercado é estimado em oito anos, na segunda metade da década de 1970, houve uma verdadeira corrida para plantar vinhedos e aumentar a produção para atender o mercado consumidor.

Uma série de subsídios e linhas de financiamentos foram criados para suportar este crescimento. Com a criação e entrada da Espanha na Comunidade Europeia na década de 1980 tais benefícios foram abruptamente cancelados.

Assim as empresas que se sustentavam com os empréstimos a juros baixos e subvenções estatais encontraram dois caminhos: vender a empresa e tentar recuperar o capital ou abrir mão da qualidade e lançar os vinhos de forma mais rápida ao mercado.

“Nos principais mercados, Inglaterra e Holanda, o Jerez se massificou, cresceu exponencialmente em quantidade mas com uma base de preços baixos. Nos anos 1990, esta fórmula de vinhos populares já não funcionava e houve grande consolidação de empresas, que colocavam estes vinhos baratos para poderem sobreviver. Isto repercutiu na imagem da (baixa) qualidade dos nossos vinhos”, diz Cesar Saldaña, presidente do Conselho Regulador dos vinhos de Jerez, ao NeoFeed.

Desde 2000, no entanto, os produtores de Jerez estão trabalhando para reposicionar Jerez como vinhos de alta qualidade e com diversos estilos. E os resultados já começam a aparecer. Os vinhos fortificados de Jerez (tal qual o Madeira e o Porto), produzidos na Andaluzia, aumentaram em 25% o valor das suas exportações no primeiro semestre de 2021, chegando a 15,1 milhões de euros, frente ao primeiro semestre de 2019, ano pré-pandemia.

O bom momento do Jerez, ou Sherry como chamam os britânicos, principais consumidores da bebida, vem lastreado pela melhora na qualidade dos novos lançamentos das vinícolas, devidamente reconhecido pelos críticos internacionais. São sete vinhos com 99 ou 100 pontos na publicação de Robert Parker.

Cesar Saldaña, presidente do Conselho Regulador dos vinhos de Jerez

Ao mesmo tempo, a campanha intitulada “International Sherry Week”, criada em 2014, tem dado repercussão global para os vinhos da região. A ação, que neste ano foi entre 8 e 14 de novembro, reuniu em seu portal online 1.755 degustações e eventos acerca dos vinhos de Jerez em 27 países, mais de 84 mil interações online com a #sherryweek.

No Brasil, foram 31 eventos (online e presenciais) realizados. “Embora o Brasil ainda não seja um grande importador dos vinhos de Jerez, o nível de conhecimento e interesse nos surpreende. Em 2018, o prêmio de melhor evento da Sherry Week no mundo foi para o Brasil”, afirma Saldaña.

Na parte produtiva também houve uma revolução. Enquanto o equilíbrio financeiro dos sobreviventes foi encontrado, alguns produtores começaram a lançar edições limitadas e raras, boa parte de vinhos muito antigos, que estão guardados em meio às milhares de botas que as vinícolas costumam manter em suas adegas.

Jan Petersen, sócio e diretor de enologia de Fernando de Castilla, diz que o bom momento de Jerez também coincide com este excesso de estoque criado nas décadas de 1970 e 1980 que estão evoluindo nas adegas e que agora expressam o caráter único da região.

“Hoje aprendemos com os erros do passado e vamos lançando estas raridades com calma, para que haja tempo de manter um acervo de vinhos com o mesmo potencial, não podemos ceder ao bom momento e vender a qualquer preço estes vinhos que demoram décadas para chegar neste ponto”, diz Petersen.

Isto também explica por que a cada ano há uma leva de novos projetos surgindo e com grandes vinhos. Algumas vinícolas menores, que antes vendiam seus vinhos à granel para empresas maiores foram encorajadas a engarrafar seus vinhos com suas marcas, uma vez que começa a existir demanda para estes vinhos.

Há também novas vinícolas que conseguem comprar algumas botas de vinhos selecionados e criar do zero uma empresa. Em Jerez, o processo de produção é mais fragmentado que outras regiões e é normal empresas terem apenas vinhedos e outras cuidarem apenas da vinificação e comercialização.

O maior exemplo deste último caso é o projeto Equipo Navazos, uma sociedade do especialista e aficionado em Jerez, Jesús Barquín, e Eduardo Ojeda, diretor de produção do Grupo Estevez (que produz marcas icônicas como Fino Inocente e Manzanilla La Guita).

Enquanto a regra em geral em Jerez é fazer uma mescla de safras e botas (sistema chamado de criadera e solera), Equipo Navazos decidiu engarrafar expressões singulares, de uma única bota, de uma única safra e “en rama” (sem filtrar ou estabilizar).

“São coisas que sempre soubemos do potencial, mas faltava a segurança para colocar no mercado e que o produto seria compreendido”, diz o sócio Eduardo Ojeda. “Conseguimos reunir uma comunidade de admiradores de Navazos e hoje já passamos de 100 rótulos lançados (cada rótulo é uma edição única que não se repete)”.

Outra empreitada que dá peso à região é a chegada de Peter Sisseck. O enólogo dinamarquês, também colecionador de notas perfeitas dos críticos (assim como Navazos é um dos casos de 100 RP) com seu Pingus em Ribera del Duero, acaba de fincar os pés em Jerez e lançar seu primeiro Fino, o Viña Corrales. Sisseck partiu de uma seleção de 120 botas e agora também adquiriu 8 hectares de vinhedo (Pago Balbaína) para alimentar as botas nos próximos anos.

O enólogo dinamarquês Peter Sisseck

No Brasil, os vinhos espanhóis ocupam a 5ª posição (em volume) no ranking por país. Em 2020 houve um acréscimo de 24,2% no número de garrafas espanholas que entraram no Brasil (18,4% em valor) em relação a 2019, totalizando 793 mil caixas (9 litros). No entanto Jerez ainda não figura entre as 15 primeiras regiões espanholas que enviam os vinhos para cá, segundo os dados Ideal Consulting.

Para entender Jerez

Existem duas grandes famílias de Jerez e que estão relacionadas com suas expressões na taça: os biológicos e os oxidativos. Na primeira categoria estão os jereces Fino e Manzanilla, enquanto os jereces oxidativos são representados pelas categorias Amontillado, Palo Cortado e Oloroso.

Até aqui, via de regra, estamos falando de vinhos secos, muito secos. Pedro Ximenez e Moscatel são categorias e variedades destinadas aos vinhos doces, assim como estilo Cream.

Os Finos e Manzanillas são chamados de biológicos pois ganham suas características pelos fermentos que trabalham de forma contínua por anos, formando uma capa protetora na superfície do vinho dentro das botas (barris de 600 litros, típicos de Jerez), o que dá os típicos aromas de fermento, amêndoas e flores secas. Como complemento, são vinhos extremamente salinos e frescos, que combinam bem com pescados.

Embora feitos da mesma maneira e marcados pela capa de flor (fermento), Fino é o Jerez biológico que é armazenado nas bodegas de Jerez de la Frontera ou El Puerto de Santa María.

Quando as botas (barris) são armazenadas na cidade costeira de Sanlúcar de Barrameda, o vinho ganha o nome de Manzanilla. Por trazer toda a bruma costeira, o vinho ganha nuances mais fortes da maresia e da flor de leveduras, justificando a distinção. Estes vinhos são fortificados de forma sutil e possuem em média 15% de álcool. Uma referência é o Fino Tio Pepe.

Na família dos jereces oxidativos, o Amontillado é o vinho que nasce como Fino e Manzanilla (como a flor de leveduras) e depois de anos, deixa de agir e o vinho passa a ficar exposto ao oxigênio. A lenta oxidação dá um caráter que faz lembrar alguns vinhos da Madeira, principalmente os secos, mas com acento salino que é típico de Jerez.

O Oloroso é chamado o vinho cuja origem não desenvolveu a flor e por ter maior estrutura é logo fortificado até chegar a 18% ou 19% de álcool e colocado nas botas para evoluir até ganhar as clássicas notas de frutos secos, nozes, toffee e grande untuosidade.

O estilo mais raro de Jerez é o Palo Cortado, cuja definição é organoléptica e se resume ao vinho que possui um nariz de Amontillado com a boca de um Oloroso. Menos de 5% da produção de Jerez pertence a este estilo. Cabe a cada bodega escolher o vinho que desenvolve estas características especiais e submeter ao conselho regulador da região, cujo comitê de degustação deve aprovar o vinho.

O nome deriva da marca que os enólogos fazem nas botas para reconhecer a qualidade excepcional do vinho que ali está. Um Fino é marcado com um traço (palo), e quando se nota uma qualidade superior e potencial para envelhecer de forma oxidativo, o “palo” é cortado com outro traço, sinalizando um Palo Cortado.

O que e onde comprar:

Fernando de Castilla Fino Classic Dry
Preço: R$ 220
Importador: Casa Flora

 

 

Valdespino Fino Inocente
Preço: R$ 344
Importador: Zahil

 

 

Barbadillo Manzanilla Solear
Preço: R$ 229
Importador: World Wine

 

 

Sanchez Romate Amontillado NPU
Preço: R$ 292
Importador: BelleCave

 

 

La Ina Oloroso Río Viejo
Preço: R$ 279
Importador: Vinci

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