O duelo entre cinema e streaming chegou aos bolsos dos astros

Enquanto Daniel Craig comemora contrato milionário com a Netflix, para reprisar detetive de “Entre Facas e Segredos”, Scarlett Johansson processa Disney por lançar “Viúva Negra” nos cinemas e no streaming nos EUA

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Scarlett Johansson, que interpreta Viúva Negra, da Marvel, não gostou do que a Disney fez

A batalha entre cinema e streaming atinge também os atores. Mais precisamente, os bolsos dos astros. Tanto para o bem, no caso do recente contrato milionário de Daniel Craig com a Netflix, para estrelar duas continuações de “Entre Facas e Segredos”. Quanto para o mal, como aconteceu com Scarlett Johansson, que decidiu processar a Disney devido ao lançamento duplo de “Viúva Negra”, nos EUA.

Craig, mais conhecido como 007, certamente comemorou a oferta de US$ 100 milhões da Netflix. Esse é o cachê estimado que o serviço de streaming estaria pagando para que o ator revisite o detetive particular Benoit Blanc em duas sequências de “Entre Facas e Segredos”, filme lançado nos cinemas em 2019.

A quantia é uma das mais altas já oferecidas a um ator na indústria do entretenimento. US$ 50 milhões por filme significa o dobro do que Craig ganhou para encarnar o agente secreto em “007 – Sem Tempo Para Morrer” – supostamente a sua última performance como James Bond, com estreia mundial em outubro.

Com produção da Eon Productions, Metro-Goldwyn-Mayer e Universal Pictures, a nova aventura do espião custou aproximadamente US$ 250 milhões (o orçamento mais alto na história da franquia de espionagem).

Já a Netflix pagou cerca de US$ 450 milhões pelos direitos de realizar duas continuações de “Entre Facas e Segredos”, deixando para trás a Apple e a Amazon, que também estavam no páreo. Na época da compra, analistas do mercado apontaram que só mesmo uma gigante do streaming teria condições de pagar soma tão astronômica por esses direitos.

Enquanto a receita anual da Netflix atingiu US$ 25 bilhões no ano passado, a Lionsgate, o estúdio responsável pela distribuição de “Entre Facas e Segredos” (com renda mundial de US$ 311,4 milhões), teve uma receita de US$ 3,89 bilhões – aproximadamente seis vezes menor que a da Netflix.

No caso de Scarlett Johansson, a estrela está processando a Disney por ter colocado “Viúva Negra” nas telas e no serviço de streaming Disney+ simultaneamente. Isso seria uma quebra de contrato, já que o acordo firmado só estipulava o lançamento do título exclusivo nos cinemas. E a medida teria afetado os ganhos da atriz.

Para protagonizar esse spin-off da franquia “Vingadores”, Scarlett levou US$ 20 milhões. Como ela teria ainda direito a um bônus, o que estaria vinculado à venda de ingressos nos cinemas, seus advogados alegam que a atriz foi prejudicada com o lançamento duplo.

Desde que entrou em cartaz, em 7 de julho, “Viúva Negra” já arrecadou US$ 320 milhões de bilheteria mundial. No streaming, a Disney divulgou que a renda com o filme somou US$ 60 milhões no final de semana de estreia nos EUA (onde o assinante paga taxa extra para assisti-lo).

Scarlett certamente não será a única a reclamar do modelo de negócios híbrido, já que o confronto entre cinema e streaming tem impactado de várias formas a indústria do entretenimento. E a briga ficou mais acirrada com a pandemia de Covid-19.

O setor de streaming ganhou ainda mais força com os consumidores reclusos em casa. E, apesar de reabertos em boa parte do mundo, os cinemas vão demorar para registrar o mesmo faturamento de antes. Por um lado, o público continua receoso. E, por outro, são poucos os países que deixam os cinemas operarem com capacidade máxima – como a Inglaterra, desde o dia 19.

A situação leva os estúdios a pensarem mais na melhor plataforma para o lançamento de seus filmes. No caso dos blockbusters, feitos para a tela grande, pelo menos por enquanto, o lançamento híbrido pode virar uma regra, o que atingiria o salário dos atores. Não da maioria, mas daqueles acostumados à participação nos lucros.

Por décadas, atores de peso de Hollywood ganharam, além do salário, uma parte dos lucros de bilheteria. Esse bônus é, muitas vezes, uma porcentagem já estipulada em contrato, chegando a até 20% na receita do filme.

Foi assim que Leonardo DiCaprio recebeu um total de US$ 40 milhões pelo trabalho em “Titanic”, em 1997. Tom Cruise embolsou US$ 70 milhões quando a participação nos lucros foi adicionada ao seu salário de “Missão Impossível” (1996).

Um caso mais recente foi o de Robert Downey Jr., que chegou a US$ 75 milhões (somando salário e participação nos lucros) com “Vingadores: Ultimato’’, que faturou US$ 2,79 bilhões em 2019.

Já as empresas do streaming ou pagam pelo filme já pronto (quando o salário dos atores já foi acertado com os produtores) ou oferecem um cachê único ao ator (caso eles mesmos se encarreguem da produção).

A boa notícia para os atores da lista A é que os streamings também se interessam pelo chamado “star power”, oferecendo remuneração à altura. Além da quantia oferecida a Daniel Craig, a Netflix vai pagar US$ 35 milhões para Will Smith estrelar “Bright 2” e reprisar o papel do policial que tem uma criatura fantástica como parceiro.

“Red Notice”, com première marcada para novembro na Netflix, garantiu US$ 20 milhões para cada um dos atores Ryan Reynolds e Gal Gadot. Eles interpretam aqui ladrões que são caçados por agente da Interpol vivido por Dwayne Johnson.

No caso de Johnson, seu cheque foi ainda mais gordo, de US$ 23,5 milhões. Aparentemente pelo ator cobrar US$ 1 milhão só para fazer posts do filme nas suas redes sociais. Só no Instagram ele tem atualmente mais de 257 milhões de seguidores.

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