Negócios

O fim de um ícone da Faria Lima: sai o Octavio Café e entra um prédio da Helbor

A cafeteria da família Quércia, palco de alguns dos maiores negócios do País, um lugar frequentado pelo PIB nacional, fecha as portas para dar lugar a uma torre corporativa

 

Em junho de 2016, no auge das negociações entre o grupo educacional Estácio e a gigante Kroton, que buscava comprar a empresa carioca, o empresário Chaim Zaher, dono do grupo SEB e, na época, acionista relevante da Estácio, marcou um encontro com Rodrigo Galindo, CEO da Kroton (hoje o grupo se chama Cogna). Mas tinha de ser em campo neutro, nem no território de Zaher e muito menos no de Galindo.

O lugar escolhido foi o Octavio Café, na avenida Faria Lima. Ali, entre discussões sobre o valor da ação, entre goles de café, Zaher, representando os acionistas da empresa, puxou um guardanapo, escreveu o valor que queria pela a ação e emendou. “Menos do que isso, não tem conversa”, disse. No fim das contas, Galindo aceitou o número de Zaher e o negócio foi para frente. Tempos depois, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) vetaria a fusão.

Essa é apenas uma história entre tantas outras que se passaram no número 2.996 da Faria Lima, o centro financeiro de São Paulo. Ali, foram definidos grandes negócios e os destinos de algumas das maiores empresas do Brasil. Se a Faria Lima é endereço por onde corre o dinheiro que movimenta o mercado financeiro, o Octavio Café era o ponto de encontro da nata do PIB. Um lugar para ver e ser visto.

Fundada em 2007 pelo ex-governador de São Paulo, Orestes Quércia (1938-2010), com o nome de seu pai, a cafeteria ficava em uma privilegiada área de 1,6 mil metros quadrados. Ela ainda está lá, é verdade, mas já se pode usar o tempo verbal do passado para se referir ao emblemático lugar.

Em um comunicado no Facebook, a equipe do Octavio Café informou que, por conta da pandemia, as unidades da Faria Lima e a do shopping Cidade Jardim foram encerradas. Das lojas físicas, apenas as duas localizadas no aeroporto de Viracopos, em Campinas, permanecerão. Mas os produtos continuarão a ser vendidos em supermercados, no e-commerce e, em breve, iniciará uma operação no delivery.

O NeoFeed apurou que a incorporadora Helbor vai construir uma torre corporativa no terreno avaliado em mais de R$ 50 milhões. Antes da crise causada pela Covid-19, a prefeitura de São Paulo colocou Cepacs (Certificado de Potencial Adicional de Construção) no mercado. Esses certificados possibilitam construir além da metragem permitida originalmente pela lei de zoneamento. E isso pode ter acelerado o processo.

Em breve, portanto, o local será demolido para dar vida a mais um prédio de escritórios em uma das regiões mais valorizadas da cidade. Indagado sobre isso, Rodrigo Quércia, um dos herdeiros de Orestes Quércia, acionista do grupo que controla o Octavio Café, o SolPanamby, disse ao NeoFeed que a família não vendeu o terreno.

“O terreno continua com o Grupo SolPanamby e não faz parte da nossa estratégia vendê-lo”, disse. Perguntado novamente pela reportagem se a Helbor construiria um prédio no local, disse apenas que “não podemos comentar sobre negociações em andamento.”

É o último capítulo de um lugar que reunia todas as tribos do mundo dos negócios. De gestores à startupeiros, de executivos à empresários, de investidores aos que buscavam investimento, era comum encontrar pessoas conhecidas no local. “O espaço era perfeito e toda hora você via algum empresário, político ou atleta conhecidos do público”, diz Ricardo Freitas, ex-presidente da Semp TCL e que hoje é sócio da Hedge Investments.

Freitas, aliás, tem uma história curiosa com o lugar. Como o escritório da Semp TCL ficava em Cajamar, muitas vezes fora de mão para fazer reuniões, ele costumava fazer do Octavio Café o seu ponto de encontro para negócios. “Uma vantagem de lá é que os garçons não pressionavam para que você escolhesse algo ou saísse logo da mesa”, diz ele.

Numa dessas ocasiões, à espera de uma pessoa com quem se reuniria, percebeu que a única televisão no local era antiga e ficava dentro de uma caixa de madeira. Era véspera da Copa da Rússia, em 2018, e ele enxergou uma oportunidade. Chamou o gerente, se apresentou e pediu o contato do responsável pela rede.

Dias depois, apresentou uma proposta de instalar as mais modernas telas da Semp TCL no local. Em troca, teria a exposição da marca num lugar frequentado pelo público consumidor de bolso cheio e formador de opinião. No fim das contas, um pouco antes da Copa, a empresa instalou ali cerca de 14 telas. Em contrapartida, também tinha direito a usar as salas de reunião no andar de cima.

Foi numa dessas salas do andar de cima, diz Chaim Zaher ao NeoFeed, que ele bateu o martelo sobre a abertura de capital de seu grupo em 2007. Essas salas também serviram para Pedro Melzer estruturar a criação da e.bricks ventures, empresa de venture capital que já captou recursos para dois fundos: um de R$ 100 milhões e outro de R$ 200 milhões.

Em 2013, Melzer tinha uma difícil equação para resolver. Ele pretendia lançar a e.bricks ventures e precisava criar uma operação independente da e.bricks digital, veículo de investimento que estava ligado ao grupo RBS, que pertence à sua família. “O Octavio Café se transformou no meu escritório. Foi ali que nasceu a e.bricks ventures”, afirma Melzer.

Hoje a e.bricks ventures tem participação em negócios como GuiaBolso, BCredi, Avenue, Acesso Digital, Infracommerce, entre outras companhias. Mas a gênese do fundo remonta a reuniões na cafeteria pousada na Faria Lima. “Eu tinha longas reuniões com a Flavia Almeida, amiga minha que toca os investimentos da Península Participações, do Abilio Diniz”, afirma.

Almeida, como uma espécie de conselheira, ajudou Melzer a estruturar todo o negócio. Depois, quando já estava no ar, Melzer fechou vários investimentos em startups entre um café e outro. “Aportes em startups como Infracommerce, Ingresse e Prontmed foram fechados lá”, diz ele.

Muitos dizem que um dos pontos fortes do Octavio Café era uma combinação de localização – as principais gestoras, bancos e empresas de tecnologia do País estão ali –; a boa comida, até para almoço; e a infraestrutura com internet veloz. Há, porém, porém quem evitasse aquele ambiente. “Era tanta gente conhecida que era impossível manter encontros estratégicos ali”, diz o fundador de uma das maiores empresas de investimentos do Brasil.

Era o ponto ideal para quem buscava notoriedade. O empresário e artista plástico Marcos Amaro, herdeiro do lendário comandante Rolim Amaro, fundador da companhia aérea TAM, que o diga. Em 2015, ele realizou uma exposição de desenhos no segundo andar do Octavio Café. “Escolhi o local justamente para ligar o meu campo empresarial com o artístico. Na época, foi um sucesso.”

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