Para além dos muros sagrados, vibra uma Jerusalém cosmopolita

Fora das muralhas da cidade antiga e alheia ao turismo religioso de massa, há um lado contemporâneo e até meio hipster cada vez mais pulsante na capital israelense

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First Station, antiga estação de trem que foi transformada em centro cultural e gastronômico

Uma animada competição de spinning, com música alta e show de luzes, bem diante do Jaffa Gate, um dos principais acessos a Old Jerusalem. Cafés e restaurantes descolados servindo brunch regado a coquetéis em pleno shabbat. Uma antiga estação de trem transformada em polo de gastronomia e entretenimento. Um shopping de luxo ao ar livre quase à saída do tradicional mercado árabe. Uma vida noturna que ganhou novos bares em plena pandemia.

Há um lado vibrante e cosmopolita da Jerusalém além dos muros da cidade antiga ainda desconhecido para muitos viajantes. Dentro das muralhas de Old City, que guarda resquícios das 14 cidades construídas, destruídas e reconstruídas umas sobre as outras, estão alguns dos lugares mais sagrados do mundo para cristãos, judeus e muçulmanos, do Domo da Rocha ao Santo Sepulcro, do Muro das Lamentações à Via Dolorosa.

Sinônimo de religiosidade (cerca de 60% da população local é ortodoxa) e história, com importantes descobertas arqueológicas em suas contínuas escavações, a cidade está vivendo, contudo, uma transformação social e urbanística que às vezes parece de certa maneira querer rivalizar com a grande vedete do turismo de lifestyle no país, Tel Aviv.

“Quando eu era universitária, a gente ia a Tel Aviv para ver bares agitados, mercados animados e lojas diferentes. De repente parece que tudo isso chegou aqui também”, diz a professora Gail Cohen, que mora em Jerusalém desde criança.

Faltam ainda por ali, é claro, os aspectos fartamente inclusivos – sobretudo para o público LGBTQIA+ – que sua cidade irmã tem. Mas salta aos olhos a nova safra de hotéis boutique, bares, cafés, restaurantes, galerias de arte e experiências fora do óbvio que parece prosperar em harmonia com a seriedade e religiosidade do destino sagrado.

O Roasters, no mercado Mahane Yehuda, é um dos queridinhos do público jovem

“Essa transformação vem acontecendo porque Jerusalém, além de tudo, é uma cidade universitária. Tem diferentes universidades e muitos jovens na população. E eles há tempos tentam tornar a cidade mais contemporânea, com maior oferta cultural”, diz Hassan Madah, diretor de marketing para as Américas no Ministério de Turismo de Israel. “O processo começou lentamente com um prefeito que não era ortodoxo há cerca de 15 anos. E hoje a própria municipalidade promove e estimula eventos culturais, festas, festivais. E tudo isso tem funcionado muito bem.”

A rua Emek Refaim, por exemplo, vem se tornando a filial local da sempre movimentada Sheinkin Street, em Tel Aviv. Muitos de seus edifícios do período templário, no coração da colônia germânica, hoje abrigam boutiques, pequenos restaurantes, charmosos cafés, mini galerias. Moradores e turistas passam cada vez mais tempo por ali.

O próprio centro da cidade vem se transformando. Basta uma caminhada pela Ben Yehuda Street, exclusiva para pedestres, ou pela sempre cheia Jaffa Street nos finais de tarde e sextas-feiras do verão, para conferir os espaços públicos ganharem contornos de festa ao ar livre. Antigas residências privadas, antes abandonadas, estão sendo transformadas em charmosos hotéis boutique, como o novo Villa Brown, de apenas 24 quartos.

Em outras vizinhanças também é visível essa renovação. A poucos passos da cidade antiga, a Artists Colony uma cooperativa multigeracional de artistas e designers locais, ganha cada vez mais evidência. Novos artistas e produções surgidas na pandemia estão atraindo mais visitantes ao local.

As ruelas estreitas, casas de pedra pitorescas, pátios escondidos de Nachalot, antes desvalorizadas, hoje vivem um boom imobiliário, preenchidos por residências de artistas e intelectuais e pequenas galerias de arte por entre sinagogas antigas. As asas coloridas, queridinhas dos instagramers, já estão grafitadas em distintas paredes por lá e a região se tornou uma das áreas mais vibrantes de Jerusalém.

Asas coloridas, ponto de intagramers, surgem em vielas de Nachalot

O bairro culmina justamente em Mahane Yehuda, o maior e mais antigo mercado ao ar livre da cidade. Com uma inebriante profusão de cores e aromas, o mercado entrou no circuito de turistas estrangeiros e ganhou até boutiques, bares, cafés(como o queridinho Roasters) e filiais de restaurantes lá dentro e no entorno. Suas opções gastronômicas, das mais tradicionais às mais recentes,  agora figuram em distintos food tours oferecidos por agências locais.

Quando a tarde cai, as barracas de hortifruti, peixes e afins fecham, mas seus bares, pubs, cafés e restaurantes ficam abertos até altas horas. Nas noites de quinta-feira, ganha ares de balada, com direito a musica madrugada adentro.

No melhor estilo “highline” novaiorquino, a primeira estação de trens de Jerusalém, totalmente abandonada até 2013, reabriu nos últimos anos como “First Station”, um belo projeto paisagístico que abriga também um centro de entretenimento, cultura e gastronomia, bem no coração da cidade.

Essa “outra” Jerusalém é também sede de diversos eventos ao longo do ano, principalmente nos meses do verão – incluindo concorridos festivais internacionais de cinema e música de câmara, e festivais nacionais de teatro, vinho e cerveja.

Novas vibes gastronômicas e etílicas

Andalucia, bar espanhol de tapas e drinks

Nessa reconfiguração de Jerusalém fica evidente a influência dos empreendedores de vários países como o chef argentino Lucas Sitrnovitch, por exemplo, que criou uma atmosfera cool para oferecer coquetéis e carnes curadas no seu HaSadna. Os sabores europeus e do oriente médio se encontram no delicioso e descolado Muma. Tapas e drinks espanhóis (e alguns pratos mexicanos também) dão o tom no informal Andalucia .

Os cafés e restaurantes do bairro de Ein Karem, rodeado por muito verde, galerias, pequenas joalherias e lojinhas de azulejos pintados à mão, atraem uma legião de moradores da cidade até em pleno shabbat. Com eles, pouco a pouco estão chegando os turistas.

Alguns moradores mais antigos do bairro, como a descendente de judeus do Quirguistão Dalia Haroof , por sua vez, aproveitam a boa maré para abrir a casa para moradores e turistas sob o pretexto de aulas de culinária típica judaica (desde 180 sheqels por pessoa).

E há espaço de sobra para os bons drinks nesse cenário. A Jerusalem Wineries é a única vinícola remanescente na cidade. Nos últimos anos, recuperou um moinho tradicional de Jerusalém, o Montefiore Windmill, abandonado por mais de 100 anos. Transformou seu interior em loja própria e tasting room, e seu entorno, no alto de uma colina, num delicioso e concorrido terrace bar com vista panorâmica para a cidade.

Elon Musk no Gatsby ( registro na página do bar no Instagram)

Um dos endereços mais badalados da cidade é o elegante Gatsby, localizado em uma das mais movimentadas ruas da capital israelense. Sua discreta porta sem sinalização leva a um perfeito speakeasy dos anos 1920 – com coquetéis autorais e pirotécnicos que até Elon Musk foi conferir.

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