Para o Citi, moedas digitais são a “nova corrida espacial”

Em estudo antecipado com exclusividade ao NeoFeed, o Citi destaca as principais  correntes que devem ditar as regras na digitalização do dinheiro. Entre elas, as criptomoedas, as moedas digitais pelos bancos centrais e aquelas capitaneadas por big techs como o Facebook

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Depois de um longo período de seguidas altas, a partir do segundo semestre de 2020, e de alcançar um pico de US$ 64 mil neste ano, o bitcoin voltou a registrar uma intensa volatilidade, com fortes quedas em sua cotação nas últimas semanas e recuando, nesta sexta-feira, para o patamar de US$ 37 mil.

Não seria, entretanto, exagero dizer que o ativo e as demais criptomoedas estão se consolidando como um tema obrigatório no mercado financeiro. Seja pela adesão de grandes nomes a essa corrente ou mesmo por sua influência em outras iniciativas que prometem redefinir o futuro do dinheiro.

Esse contexto é justamente o tema de um longo estudo realizado pelo banco americano Citi. Intiulado “Future of Money – Crypto, CBDCs and 21st Century Cash”, o relatório foi antecipado com exclusividade ao NeoFeed.

“Em pouco mais de uma década, o bitcoin evoluiu de uma prova de conceito para algo que muitos veem como uma reserva de valor e uma espécie de ouro digital”, diz Andres Wolberg-Stok, head de estratégia para o Chief Technology Officer do Citi, ao NeoFeed.

Segundo o executivo, à medida que um número crescente de usuários do varejo e também corporativos adotam o bitcoin, a moeda em questão tem condições de expandir sua aplicação e exercer um papel ainda mais relevante no setor, além do campo dos investimentos.

“O bitcoin pode evoluir para um moeda do comércio internacional, que poderia unificar uma complexa rede de pagamentos”, observa Wolberg-Stok. “E também pode atuar como um catalisador e uma bússola para o desenvolvimento de mercados e modelos de negócio adicionais.”

Sob essa ótica, as criptomoedas são apenas uma das pontas do que o estudo conduzido pelo Citi classifica como uma nova “corrida espacial” ou mesmo uma versão da Guerra Fria no campo da evolução da digitalização do dinheiro.

Inspiradas pelo bitcoin e por seus pares, ou mesmo como uma resposta ao avanço desses ativos, outros protagonistas estão surgindo nesse cenário. Em especial, os projetos de moedas digitais emitidas por bancos centrais (CBDCs), além das stable coins de big techs como o Facebook.

Para Wolberg-Stok, há algumas premissas para que, não apenas o bitcoin, mas qualquer moeda digital, ganhe escala. “A moeda digital, em geral, deve ser amplamente acessível, transferível em tempo real e sempre disponível”, afirma. Ele entende que os bancos centrais terão um papel essencial nesse processo.

“É preciso ter um mercado privado próspero de pagamentos digitais, com altos níveis de inovação, competição e investimento”, diz. “E as CBDCs podem ajudar a atingir esses objetivos ou desviar deles, dependendo de como serão concebidas e implementadas.”

Nesse sentido, o executivo do Citi aponta alguns aspectos que devem ser olhados com cuidado no desenho dessas CBDCs, em particular, no que diz respeito aos processos e operações que estarão por trás dessas iniciativas.

“Se as pessoas conseguirem manter seu dinheiro diretamente nos bancos centrais, poderá ser mais difícil para os bancos atraírem depósitos”, diz. “Portanto, um dos riscos é acabar prejudicando a capacidade dos bancos de fornecerem crédito, o que é um motor vital do progresso econômico.”

A pesquisa do Citi aponta ainda outros riscos envolvidos nos projetos de moedas digitais desenvolvidos pelos bancos centrais. Entre eles, o aumento da competição, excluindo dessa conta o setor privado, e a potencial ameaça à privacidade dos cidadãos.

O pacote de potenciais aspectos positivos, por sua vez, inclui fatores como melhorar o direcionamento da política monetária e fiscal; promover a inclusão e a universalidade; e aprimorar a gestão de riscos de crimes financeiros.

Do ceticismo ao engajamento

À parte dessas questões, o estudo ressalta que os bancos centrais passaram do ceticismo para o engajamento no que diz respeito às moedas digitais. E cita dados coletados pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) para reforçar esse panorama.

Segundo o levantamento mais recente do BIS, divulgado em janeiro deste ano, 60% dos bancos centrais estão realizando experimentos ou provas de conceito nessa área, contra 42% em 2019.

Cerca de 60% deles dizem que podem lançar uma moeda digital no varejo no prazo de seis anos. Desses, 30% acreditam que concretizarão esse plano nos próximos três anos.

“Grandes economias como os Estados Unidos e a União Europeia estão pedindo contribuições públicas e avaliando se devem avançar rumo a uma CBDC”, observa Wolberg-Stok. “O que vimos até agora é que, algumas economias menores, parecem ser mais rápidas nesse espaço.”

Para exemplificar essa abordagem, ele cita projetos como a Sand Dollar, anunciada em outubro do ano passado pelo Banco Central das Bahamas. E também o anúncio realizado pela Jamaica, em março, de que deve seguir o mesmo caminho, em 2022.

O Brasil também deve reforçar essa tendência. Em 24 de maio, o Banco Central (BC) divulgou, em nota, que “tem promovido discussões internas e com seus pares internacionais visando ao eventual desenvolvimento” da sua própria moeda digital.

Na avaliação de Wolberg-Stok, com exceção daqueles países cujas moedas já são relevantes no plano internacional, todos os demais países devem pesar cuidadosamente se é válido entrar nessa arena e, para isso, seguir um roteiro de questionamentos.

Segundo o Banco de Compensações Digitais, 60% dos bancos centrais estão realizando experimentos ou provas de conceito com moedas digitais

“Eu diria que é preciso pensar em custo e benefício. O que eles têm a ganhar sob uma perspectiva doméstica? Como seus cidadãos se beneficiariam? Quais seriam as consequências e complicações?”, afirma. “A pior razão para fazer algo desse porte é porque os outros estão fazendo.”

Como o próprio estudo destaca, quem já está decidido a seguir nesse percurso e está bem à frente de todos os seus pares é a China. O país da Grande Muralha começou a trabalhar em sua moeda digital em 2014 e, atualmente, já desenvolve um projeto-piloto nesse segmento.

Os testes já envolveram seis cidades e a expectativa é de que novos municípios sejam integrados ao projeto ainda em 2021, o que inclui as áreas rurais do país. Na visão do Citi, por conta da alta penetração dos pagamentos eletrônicos, a China deve assistir a uma ampla adoção da sua moeda digital nos próximos cinco anos.

Efeito em rede

Na avaliação do estudo do Citi, mais que o bitcoin, o verdadeiro motor para a movimentação dos bancos centrais foi o projeto de moeda digital do Facebook, anunciado, primeiramente, em meados de 2019, e reformulado neste ano, sob o nome de Diem.

Com a previsão de um projeto-piloto ainda em 2021, a iniciativa é vista, a princípio, como dona de um grande potencial pelo Citi, especialmente pelo amplo alcance da rede social, que conta com uma média de 2,85 bilhões de usuários mensais e que, segundo banco, é “difícil de ser replicado”.

O relatório também destaca que, com o projeto, o Facebook pode, inclusive, atuar como uma plataforma white label, fornecendo a camada de infraestrutura, com maior capacidade de programação, para eventuais iniciativas de bancos centrais em todo o mundo. Isso não significa, no entanto, que a moeda digital da empresa de Mark Zuckerberg terá vida fácil nesse espaço.

“Os reguladores em todo o mundo estão observando de perto. A maioria não gosta da ideia de uma grande empresa de tecnologia, com bilhões de usuários, emitir uma moeda privada”, diz Wolberg-Stok. “Eles temem perder o controle da economia. E se for projetada uma moeda global, eles gostarão ainda menos.”

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