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Poder, assédio e abuso em Hollywood. Na antessala do magnata Harvey Weinstein

Kitty Green, diretora de “The Assistant”, recriou o problema cultural e sistêmico no ambiente de trabalho a partir de depoimentos de mulheres que trabalharam com o infame produtor de cinema

 

Cena do filme The Assistant  Foto: Forensic/Divulgação

O escândalo sexual envolvendo o megaprodutor de cinema Harvey Weinstein serviu de inspiração para o filme “The Assistant”. A referência é óbvia, ainda que seu nome não seja diretamente citado no drama que já desponta como um dos candidatos ao Oscar de 2021.

“The Assistant” expõe o ambiente de trabalho tóxico em que o comportamento predatório de figuras poderosas como Weinstein, que foi dono de uma fortuna de US$ 300 milhões e de uma grande influência no cinema, foi tolerado por tanto tempo na indústria do entretenimento.

Pelo menos até os movimentos feministas Me Too e Time’s Up surgirem e ganharem força depois da enxurrada de denúncias de assédio e abuso sexual justamente contra Weinstein, feitas a partir de outubro de 2017.

“Conversei com cerca de 100 mulheres. Muitas delas trabalharam na indústria do cinema e algumas delas com o próprio Weinstein, tanto na produtora e distribuidora Miramax quanto nos estúdios da Weinstein Company”, contou a diretora do filme, Kitty Green.

Foi graças ao poder que Weinstein tinha nessas empresas que o produtor de títulos como “Pulp Fiction” (1994) e “Shakespeare Apaixonado” (1998) cometeu abusos ao longo de quatro décadas.

Ao todo, mais de 80 mulheres denunciaram Weinstein. O magnata de 68 anos foi sentenciado em fevereiro último a 23 anos de prisão, além de ter sido expulso da Academia de Hollywood e demitido da Weinstein Company, empresa que acabou pedindo falência devido ao escândalo.

“Todas as entrevistadas contaram histórias similares. Dá para perceber que a má conduta ocorre porque muitas vezes os locais de trabalho são favoráveis aos predadores sexuais”, disse a cineasta, em encontro com a imprensa em Berlim, com a participação do NeoFeed.

“É por isso que eu decidi examinar os problemas culturais e as microagressões sofridas pelas mulheres nesses ambientes, analisando o comportamento diário. Ainda que sutilmente, tudo parece feito para deixar os homens sempre com mais poder e as mulheres com menos”, contou Kitty.

“Ainda que sutilmente, tudo parece feito para deixar os homens sempre com mais poder e as mulheres com menos”, diz Kitty Green

Foi baseada nessa pesquisa que a australiana escreveu e dirigiu o filme ainda sem data de estreia no Brasil. Mas desde que passou por festivais como Sundance e Berlim, no primeiro semestre do ano, “The Assistant” coleciona elogios pela forma silenciosa que retrata os abusos sofridos por mulheres nos bastidores do showbiz.

A Academia de Hollywood até já incluiu o filme nas nove primeiras produções elegíveis para brigar pelo Oscar de melhor filme na 93ª edição do prêmio. A cerimônia, inicialmente marcada para 28 de fevereiro do ano que vem, foi transferida para 25 de abril.

Com a pandemia, a Academia não só foi obrigada a mudar a data da festa, como quebrou suas regras, anunciando que obras lançadas apenas digitalmente em 2020 também poderão concorrer à estatueta. “The Assistant” está disponível nos EUA na Apple TV e na Amazon Prime Video, entre outras plataformas.

“Foi difícil conseguir o financiamento por se tratar de um filme que não pinta um retrato lisonjeiro da indústria do entretenimento”, disse Kitty, que até então só tinha realizado documentários. Como “Casting JonBenet” (2017), sobre a assassinato da miss mirim JonBenet Ramsey.

“Hollywood gosta de filmes sobre si mesma, mas não desse tipo. Ainda que as profissionais mulheres das empresas investidoras gostassem do nosso roteiro, muitas vezes elas diziam que não conseguiam convencer os executivos homens a abraçarem o projeto”, contou ela.

Kitty acabou realizando o drama com investidores independentes e com um orçamento minúsculo para o padrão de Hollywood, cerca de US$ 2 milhões. Mas nada que prejudicasse a trama, diminuindo a sua força. “A abordagem mais minimalista até me ajudou a ter o controle total sobre o filme”, afirmou a diretora.

A ação se desenrola em torno de Jane (Julia Garner, da série “Ozark”). Ela é nova na empresa, no cargo de assistente júnior de um produtor de filmes de sucesso. Por ser a primeira a chegar ao escritório e a última a sair, Jane acaba ficando a par de tudo o que acontece por lá. Isso inclui a sala do chefe, onde ela encontra brincos de mulher no sofá – resultado possivelmente de uma farra na noite anterior.

A atriz Julia Garner faz o papel da assistente do poderoso produtor

O curioso é que o espectador não vê quem é o “big boss”. Só sabemos que ele existe pelos gritos que ele dá (inclusive quando conversa com Jane por telefone) e pelas tarefas que ele impõe à assistente. Cabe a ela tentar acalmar a esposa do chefe quando ele não quer lidar com a família e recepcionar as belas jovens que o produtor chama para um “teste” a portas fechadas em sua sala.

Jane ainda é hostilizada pelos colegas de trabalho homens na mesma posição que ela ocupa. A assistente ouve piadinhas machistas, além de aceitar os servicinhos que eles empurram para ela, como fazer o pedido do almoço para todos e arrumar a bagunça na sala do chefe e na cozinha do escritório.

Todo mundo parece saber o que acontece com as jovens atraentes que o todo poderoso da produtora “contrata”. Aquelas que são de outras cidades são colocadas em hotéis cinco estrelas, onde o chefe possa visitá-las.

Ingênua, Jane chega a procurar o departamento de recursos humanos para denunciar a cultura do assédio sexual na empresa. Mas a atitude do responsável, que também é um homem, a surpreende.

“Só mesmo destacando todos os pequenos abusos vamos entender que a falha está no sistema. É ele que precisamos consertar. Ou seja, nosso problema é ainda maior que Harvey Weinstein”, afirmou Kitty.

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